sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Cadê os Velhinhos?

 

Cadê os Velhinhos?

 

 ‘Where are the Oldies?’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Vez por outra aparece na mídia social uma relação anacrônica de objetos de produtos que faziam parte da nossa vida – nossa, para os idosos –, da geração anterior às dos atuais jovens e adultos.

 

Depois de séculos de poucas mudanças dos meios e utensílios para as mais diversas finalidades para os objetos e processos do cotidiano presente, o último século foi de fato revolucionário em termos de aperfeiçoamentos, aprimoramentos e inovações nas disponibilidades de consumo. O avanço tecnológico está impondo renovações e substituições antes dos bens e serviços terem esgotado sua vida útil. Os produtos tornam-se tecnologicamente obsoletos enquanto ainda estão funcionalmente perfeitos.

 

Consequência direta são maneiras renovadas de conduzir a vida no ambiente de recursos – e condicionantes – de uma vida em permanente mutação, sem em busca de facilitar os mais diversos aspectos da vadia. Os modi vivendi mudam a cada instante, as vezes lenta, outras vezes abruptamente. E há um preceito inflexível: o mundo moderno não admite uma vida nos moldes de décadas atrás.

 

 

Num olhar para trás percebem-se distâncias enormes entre os padrões de vida de apenas um século atrás e o presente. São mudanças de qualidade e são muitas, algumas profundas, outras menos importantes, algumas sutis, outras nem tanto:

- a conversa saÍa da boca, não dos dedos;

- a palavra era levada pessoalmente à casa do destinatário, ou então por carta ou telegrama, eventualmente por telefone;

- as notícias chegavam apenas no dia seguinte (ou mais tarde ainda), o que lhes tirava parte do impacto;

- na igreja, os homens sentavam num lado da igreja e as mulheres no outro, e o padre rezava a missa de costas para os fiéis – e em latim;

- os pais eram chamados de senhor e senhora pelos filhos, aliás, os professores também;

- os alunos iam a pé, ou de ônibus, para a escola e os livros (da FTD!) passavam dos filhos mais velhos para os mais novos – como acontecia com roupas e sapatos;

- os automóveis tinham absoluta preferência;

- o único serviço público ou privado utilizado era a energia elétrica (onde havia);

- o jogo de sala era incluída no testamento;

- homem de cabelo comprido ou de calça vermelha, impensável;  

- almoçar ou jantar fora de casa significava um evento especial; ...

- ah, e ainda não existia a pílula anticoncepcional.

 

Além disso, a estrutura familiar incluía três gerações; avó, avô, ou ambos, moravam com um dos filhos até sua despedida final. Como, então, a mulher ainda não estava tão intensivamente envolvida em carreiras profissionais, ela cuidava das tarefas domésticas e os velhinhos passavam o dia sentados num sofá ou numa cadeira de balanço – sem objetivo, sem utilidade. Mas, se você hoje pergunta a quem viveu todas estas realidades o que melhorou ou piorou desde então, uma resposta é quase unânime: o mundo era mais legível, mais compreensível.

 

Já, há algum tempo, o idoso tenta, e com bastante empenho e sucesso, livrar-se desse estereótipo. Não sem a ajuda de recursos da vida moderna, ele busca cada vez mais viver sua autonomia. Ele, ou ela, mora sozinho, tem seu computador, seu telefone celular que, obviamente, não domina em toda extensão de suas capacidades, porque não, seu carro na garagem – e um ticket de cruzeiro marítimo no bolso. E lá adiante, as opções de uma florescente indústria de casas de acolhimento de idoso está esperando de braços abertos. A própria indústria de construção civil, hoje está focada em moradias para a família nuclear – casa e, no máximo, dois filhos.

 

Foram, ou ainda são mudanças de livre escolha? Não, não foram. Elas foram claramente impostas pelos avanços técnicos que, ao longo do último século, invadiram consequentemente todas as facetas de nossas vidas, do utensílio doméstico, passando pela comunicação, à medicina, recursos sem os quais a autonomia adquirida seria impensável. E o idoso soube se beneficiar e adaptar às novas realidades – certamente nem sempre sem reservas e restrições. Afinal, ele deu origem a uma nova categoria na sociedade, que nem nome ainda tem.

 

O idoso, ou a idosa, deixou de aguardar sua morte para prolongar sua vida.   

 

 

 

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