segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Da Autonomia à Dependência

 

Da Autonomia à Dependência

(“From Autonomy to Dependence” – This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Já fomos autônomos – ‘fomos’ refere-se a nossos antepassados. Durante centenas de milhares de anos, o homem vivia exclusivamente dos de recursos naturais disponíveis e da sua capacidade de torna-los aproveitáveis. Podemos ter uma ideia dessa autonomia, observando a vida das poucas populações indígenas ainda não aculturadas. Como o homem é um ser social e sempre vivia em sociedades, havia, naturalmente, esforços conjugados e trocas intra-tribais (tudo é de todos) dentro de um padrão de vida restrito à subsistência e eventuais manifestações de caráter cultual. O ser humano solitário sempre foi, e ainda é hoje, uma anomalia

 

Com a progressiva fixação na terra surgem também as primeiras aglomerações com caráter urbano. Isso exigia um mínimo de organização e estruturação de tais sociedades. É natural que daí emergiam novas necessidades, típicas para assentamentos perenes com novos padrões de habitação durável. E novas demandas dão origem a novas respostas, entre compulsórias (p.ex. acesso a água, proteção e administrativa – mais tarde, o burgomestre) e espontâneas. Essas últimas resultavam das diferentes experiências, habilidades e capacidades dos membros dessas sociedades primitivas.

 

O próprio aprimoramento do cultivo da terra por meio de técnicas agrícolas p.ex., cumulando na rotatividade de três campos), equipamentos e ferramentas melhorados estimulou o desenvolvimento de artifícios paralelos como a moagem de grãos, a produção de ferramentas de metais, utensílios de argila e construções madeira e barro, entre outros, dando origem a atividades complementares à lavoura – dando origem a interdependências entre ocupações – e desenvolvendo habilidades e técnicas cada vez mais sofisticadas. A simbiose entre cidade e campo daí emergida é conhecida.

 

Em tempos mais recentes isso levou a especializações cada vez mais elaboradas dentro de uma vida profissional. Consolidou-se assim uma dependência e complementação mútuas entre aqueles que produziam alimentos e os igualmente importantes e indispensáveis que laboravam na produção de bens e serviços que tornassem a vida – também no campo – mais confortável; uma coexistência cada vez mais sólida e com ganhos – e perdas – em todos os setores.

 

Mas a interdependência entre os homens não parou ali. Por um lado, de conhecimentos rudimentares, em parte muito antigos, emergiu gradativamente o avanço para a medicina moderna. É preciso observar que até meados do século XX a expectativa de vida não mudou significativamente, mantendo-se em torno de 45 anos. Entretanto, nos últimos duzentos anos, a medicina fez grandes progressos: no século XVIII a expansão da vacinação, em 1922, a primeira pessoa recebe tratamento para diabetes tipo 1 com insulina, a penicilina e descoberta em 1928 e os antibióticos são usados a partir de 1940. Em 1949, a quimioterapia contra o câncer é aprovada. E esse foi apenas o começo, que resultou em atuais procedimentos médicos e recursos fármaco-terapêuticos high-tec. Hoje, transplantes de órgãos e cirurgias robóticas são parte do cotidiano. A dependência do homem da medicina tornou-se irreversível.

 

Por outro lado, depois dos importantes progressos técnicos decorrentes das revoluções energética e industrial, em menos de cem anos construímos um mundo cibernético – da secretária eletrônica à operação financeira via telefone celular – que invadiu todas as condições e potenciais da vida humana, num clique resolvendo complexidades que anteriormente exigiam extenuantes esforços físicos e mentais. E está aí a inteligência artificial, cuja extensão de capacidades, efeitos e resultados ninguém se arrisca a prever.

 

As próprias políticas econômicas e sociais oferecem hoje seguranças existenciais inimagináveis a algumas gerações atrás.  

 

Os frutos são inegáveis. Conquistamos uma expectativa de vida média mundial de 73,33 anos (2024), com picos de 87 anos em alguns países asiáticos e europeus. Eis o resultado da conjugação das conquistas civilizatórias em todos os aspectos da vida humana.        

 

Enfim, o homem atual não tem mínimas chance de sobreviver, mesmo em curto prazo, fora das intrincadas e sofisticadas estruturas que construiu para garantir o que chama de qualidade de vida. Isso não somente devidos aos modernos recursos medicinais, mas também às condições de trabelho, comunicações – físicas e virtuais –, à disponibilidade de alimentação saudável, entre outros.

 

Mas cabe uma ressalva: apenas cerca de metade da população desfruta desse padrão de Vida.

 

Por outro lado, exatamente essa metade de habitantes do nosso planeta está sujeita a uma imposição da própria tecnologia, seja qual for seu campo: não existe tecnologia perfeita, seja por suas próprias caraterísticas e particularidades, seja por efeitos externos. As consequências podem estar limitadas a um produto doméstico, mas também a todo um sistema complexo, como no caso de um colapso cibernético, ou ainda uma interferência cósmica (p.ex., uma erupção solar com sua protuberância exatamente direcionada à Terra – pouco provável, mas não impossível), afetando os milhares de satélites, cuja inoperância repentina significaria uma catástrofe para toda a humanidade com efeitos praticamente imediatos.

 

E não existe pano B que evite uma eventual calamidade. Precisamente a metade da humanidade hoje beneficiada pelo nosso status tecnológico será aquela com menos chances - ou mesmo com incapacidade - de readequação a padrões de vida mais rudimentares, ou até de sobreviver.

 

Ao longo dos últimos séculos, a humanidade construiu um complexo mundo de tecnologias interativas e interdependentes com o único objetivo de melhorar seu bem-estar e suas condições de vida, para hoje viver na total dependência do perfeito funcionamento dessa natureza paralela.   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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