Da Autonomia à Dependência
(“From Autonomy to
Dependence” – This
text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Já fomos
autônomos – ‘fomos’ refere-se a nossos antepassados. Durante centenas de
milhares de anos, o homem vivia exclusivamente dos de recursos naturais
disponíveis e da sua capacidade de torna-los aproveitáveis. Podemos ter uma
ideia dessa autonomia, observando a vida das poucas populações indígenas ainda
não aculturadas. Como o homem é um ser social e sempre vivia em sociedades,
havia, naturalmente, esforços conjugados e trocas intra-tribais (tudo é de
todos) dentro de um padrão de vida restrito à subsistência e eventuais
manifestações de caráter cultual. O ser humano solitário sempre foi, e ainda é
hoje, uma anomalia
Com a progressiva
fixação na terra surgem também as primeiras aglomerações com caráter urbano.
Isso exigia um mínimo de organização e estruturação de tais sociedades. É
natural que daí emergiam novas necessidades, típicas para assentamentos perenes
com novos padrões de habitação durável. E novas demandas dão origem a novas
respostas, entre compulsórias (p.ex. acesso a água, proteção e administrativa –
mais tarde, o burgomestre) e espontâneas. Essas últimas resultavam das
diferentes experiências, habilidades e capacidades dos membros dessas
sociedades primitivas.
O próprio
aprimoramento do cultivo da terra por meio de técnicas agrícolas p.ex.,
cumulando na rotatividade de três campos), equipamentos e ferramentas
melhorados estimulou o desenvolvimento de artifícios paralelos como a moagem de
grãos, a produção de ferramentas de metais, utensílios de argila e construções madeira
e barro, entre outros, dando origem a atividades complementares à lavoura – dando
origem a interdependências entre ocupações – e desenvolvendo habilidades e técnicas
cada vez mais sofisticadas. A simbiose entre cidade e campo daí emergida é
conhecida.
Em tempos
mais recentes isso levou a especializações cada vez mais elaboradas dentro de
uma vida profissional. Consolidou-se assim uma dependência e complementação mútuas
entre aqueles que produziam alimentos e os igualmente importantes e
indispensáveis que laboravam na produção de bens e serviços que tornassem a
vida – também no campo – mais confortável; uma coexistência cada vez mais
sólida e com ganhos – e perdas – em todos os setores.
Mas a interdependência
entre os homens não parou ali. Por um lado, de conhecimentos rudimentares, em
parte muito antigos, emergiu gradativamente o avanço para a medicina moderna. É
preciso observar que até meados do século XX a expectativa de vida não mudou
significativamente, mantendo-se em torno de 45 anos. Entretanto, nos últimos duzentos
anos, a medicina fez grandes progressos: no século XVIII a expansão da
vacinação, em 1922, a primeira pessoa recebe tratamento para diabetes tipo 1
com insulina, a penicilina e descoberta em 1928 e os antibióticos são usados a
partir de 1940. Em 1949, a quimioterapia contra o câncer é aprovada. E esse foi
apenas o começo, que resultou em atuais procedimentos médicos e recursos
fármaco-terapêuticos high-tec. Hoje,
transplantes de órgãos e cirurgias robóticas são parte do cotidiano. A dependência
do homem da medicina tornou-se irreversível.
Por outro
lado, depois dos importantes progressos técnicos decorrentes das revoluções
energética e industrial, em menos de cem anos construímos um mundo cibernético
– da secretária eletrônica à operação financeira via telefone celular – que
invadiu todas as condições e potenciais da vida humana, num clique resolvendo
complexidades que anteriormente exigiam extenuantes esforços físicos e mentais.
E está aí a inteligência artificial, cuja extensão de capacidades, efeitos e
resultados ninguém se arrisca a prever.
As
próprias políticas econômicas e sociais oferecem hoje seguranças existenciais
inimagináveis a algumas gerações atrás.
Os frutos
são inegáveis. Conquistamos uma expectativa de vida média mundial de 73,33 anos
(2024), com picos de 87 anos em alguns países asiáticos e europeus. Eis o
resultado da conjugação das conquistas civilizatórias em todos os aspectos da
vida humana.
Enfim, o
homem atual não tem mínimas chance de sobreviver, mesmo em curto prazo, fora
das intrincadas e sofisticadas estruturas que construiu para garantir o que
chama de qualidade de vida. Isso não somente devidos aos modernos recursos
medicinais, mas também às condições de trabelho, comunicações – físicas e virtuais
–, à disponibilidade de alimentação saudável, entre outros.
Mas cabe
uma ressalva: apenas cerca de metade da população desfruta desse padrão de
Vida.
Por outro
lado, exatamente essa metade de habitantes do nosso planeta está sujeita a uma
imposição da própria tecnologia, seja qual for seu campo: não existe tecnologia
perfeita, seja por suas próprias caraterísticas e particularidades, seja por
efeitos externos. As consequências podem estar limitadas a um produto
doméstico, mas também a todo um sistema complexo, como no caso de um colapso
cibernético, ou ainda uma interferência cósmica (p.ex., uma erupção solar com
sua protuberância exatamente direcionada à Terra – pouco provável, mas não
impossível), afetando os milhares de satélites, cuja inoperância repentina significaria
uma catástrofe para toda a humanidade com efeitos praticamente imediatos.
E não existe
pano B que evite uma eventual calamidade. Precisamente a metade da
humanidade hoje beneficiada pelo nosso status tecnológico será aquela com menos
chances - ou mesmo com incapacidade - de readequação a padrões de vida mais rudimentares, ou até de sobreviver.
Ao longo dos
últimos séculos, a humanidade construiu um complexo mundo de tecnologias interativas
e interdependentes com o único objetivo de melhorar seu bem-estar e suas
condições de vida, para hoje viver na total dependência do perfeito
funcionamento dessa natureza paralela.
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