A China e Seu Futuro Incerto
(¨China and its
Uncertain Future¨ - This text is written in a
way to ease comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Durante quatro décadas, a China apresentou um crescimento conjuntural inusitado de sua economia. Nesse curto período, conseguiu um avanço econômico, especialmente uma industrialização, para cuja concretização os países de economias prósperas da Europa, do Japão e dos Estados Unidos necessitaram três séculos. Consequentemente apresentou uma estonteante média entre 1985 e 2010 de taxas de crescimento de seu PIB de 10,12%, e do PIB per capita de 8,18%.
Esse
ciclo começou na década de 1980 com transição do regime de comunismo marxista
para um socialismo apoiado numa economia – ‘um país, dois sistemas’. Resultou
disso uma abertura para o mundo com um consequente impulso notável de upgrade
tecnológico e crescimento econômico, com picos de aumento de PIB de 14,2% e PIB
per capita de, 13,6% – obviamente não sustentáveis no longo prazo.
O esteio
central da consecução dos objetivos da nova concepção política foi a admissão
maciça de investimentos externos, mormente na área industrial de bens de
elevado valor agregado. Se essa importação de meios produtivos levou, por um
lado, a um significativo aquecimento econômico, por outro, serviu – nem sempre
por processos legais – à aquisição de conhecimentos tecnológicos. Além disso, o
emprego de milhões de trabalhadores criou um potente mercado de consumo
interno. Já no mercado externo, conseguiu se tornar rapidamente competitivo, especialmente
com produto baixa valore qualidade, principalmente em função da mão de obra
barata, mas também de incentivos governamentais (não raro chegando a dumping).
Uma
consequência direta e imediata desse desenvolvimento foi uma intensiva
urbanização da população chinesa. Desde 1978 houve um
crescimento média da população urbana de 4,1% ao ano, resultando hoje num índice de 66,2%
desse segmento populacional, ou seja, são 933 milhões de pessoa, enquanto 477
milhões vivem em áreas rurais. Enquanto isso, a população total do país cresceu
numa média de 1,0% ao ano, enquanto a população rural diminuiu 0,7% ao ano.
O resultado foi uma
explosiva indústria da construção, seja para a área residencial e empresarial,
seja para a implementação de uma gigante infraestrutura. Metrópoles surgiram nos
recantos mais remotos, bem como vastas redes rodoviárias e ferroviárias, em
tempos recorde. Ao mesmo tempo, uma série de fatores, por exemplo, a reduzida
capacidade de produção agrária, levaram o governo a adotar uma rígida política
de controle de natalidade – a política do filho único.
Recentemente, alguns dos parâmetros centrais que sustentam desenvolvimentos
como China começaram a sofrer graduais declínios em seus índices, resultando
num gradual desaquecimento da expansão econômica. Em 2023, essas taxas caíram
para o PIB em 5,2% e para o PIB per capita em 5,3%. Os fatores são vários.
São vários os fatores. A área industrial está enfrentando várias
adversidades. Uma é a cada vez maior escassez de mão de obra, provocando pressões
salariais, consequência da prolongada política do filho único. Esse mesmo fator,
dando origem a uma atual população de crianças, adolescentes e idosos perfazendo
60% da população total, deu origem a um encolhimento do consumo interno. Uma
significa repatriação de indústrias para seus países de origem é outra
consequência.
Como em muitos países
consumidores de produtos chineses ocorre o mesmo fenômeno, em futuro próxima
também o mercado externo tenderá a encolhe – por um lado devido ao mesmo
fenômeno de redução dos mercados de consumo nesses países, por outro, em
decorrência da necessidade de proteger sua própria produção. Uma eventual
reversão futura para um novo crescimento populacional tornar-se-á bastante
difícil, uma vez por tratar-se de uma tendência mundial (com poucas exceções),
por outro lado em virtude de toda a infraestrutura habitacional das últimas
décadas, de moradias a áreas comuns, foi construída para a família nuclear de
um só filho. Numa outra esfera é
preciso ter em mente que uma urbanização em ritmo e extensão como a chinesa só
se faz uma vez.
Seria ingênuo acreditar que
se trata de um problema somente interno da China. Em escala menor ou maior, a
China tem relações comerciais de importação e exportação com a quase totalidade
dos países ao redor do mundo, com isso evidentemente transferindo reflexos de sua
situação para outras nações e outros mercados, tanto maiores, quanto for a
intensidade desse intercâmbio. Entre esses parceiros, o Brasil é um dos maiores
e, ao mesmo tempo, mais distantes, com vias de transporte longas e custos de
frete altos. Isso significa que, em caso de cortes por parte da China,
especialmente de produtos agropecuários e minérios, o Brasil estará entre os
primeiros a ser atingido por tais medidas.
A situação chinesa que está
se delineando certamente será um duro golpe na globalização, porque a
prioridade de proteger dos mercados internos será vital. Obviamente, todos
esses fatos não ocorrem do dia para a noite, porém, cabe que, mesmo acontecendo
gradualmente ao longo das próximas décadas, deverão ser percebidos para
permitir as devidas reações cautelares.
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