quarta-feira, 2 de outubro de 2024

A China e Seu Futuro Incerto

 

A China e Seu Futuro Incerto

 (¨China and its Uncertain Future¨ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Durante quatro décadas, a China apresentou um crescimento conjuntural inusitado de sua economia. Nesse curto período, conseguiu um avanço econômico, especialmente uma industrialização, para cuja concretização os países de economias prósperas da Europa, do Japão e dos Estados Unidos necessitaram três séculos. Consequentemente apresentou uma estonteante média entre 1985 e 2010 de taxas de crescimento de seu PIB de 10,12%, e do PIB per capita de 8,18%.  

 

Esse ciclo começou na década de 1980 com transição do regime de comunismo marxista para um socialismo apoiado numa economia – ‘um país, dois sistemas’. Resultou disso uma abertura para o mundo com um consequente impulso notável de upgrade tecnológico e crescimento econômico, com picos de aumento de PIB de 14,2% e PIB per capita de, 13,6% – obviamente não sustentáveis no longo prazo.

 

O esteio central da consecução dos objetivos da nova concepção política foi a admissão maciça de investimentos externos, mormente na área industrial de bens de elevado valor agregado. Se essa importação de meios produtivos levou, por um lado, a um significativo aquecimento econômico, por outro, serviu – nem sempre por processos legais – à aquisição de conhecimentos tecnológicos. Além disso, o emprego de milhões de trabalhadores criou um potente mercado de consumo interno. Já no mercado externo, conseguiu se tornar rapidamente competitivo, especialmente com produto baixa valore qualidade, principalmente em função da mão de obra barata, mas também de incentivos governamentais (não raro chegando a dumping).   

 

Uma consequência direta e imediata desse desenvolvimento foi uma intensiva urbanização da população chinesa. Desde 1978 houve um crescimento média da população urbana de 4,1% ao ano, resultando hoje num índice de 66,2% desse segmento populacional, ou seja, são 933 milhões de pessoa, enquanto 477 milhões vivem em áreas rurais. Enquanto isso, a população total do país cresceu numa média de 1,0% ao ano, enquanto a população rural diminuiu 0,7% ao ano.

 

O resultado foi uma explosiva indústria da construção, seja para a área residencial e empresarial, seja para a implementação de uma gigante infraestrutura. Metrópoles surgiram nos recantos mais remotos, bem como vastas redes rodoviárias e ferroviárias, em tempos recorde. Ao mesmo tempo, uma série de fatores, por exemplo, a reduzida capacidade de produção agrária, levaram o governo a adotar uma rígida política de controle de natalidade – a política do filho único.

 

Recentemente, alguns dos parâmetros centrais que sustentam desenvolvimentos como China começaram a sofrer graduais declínios em seus índices, resultando num gradual desaquecimento da expansão econômica. Em 2023, essas taxas caíram para o PIB em 5,2% e para o PIB per capita em 5,3%. Os fatores são vários.

 

São vários os fatores. A área industrial está enfrentando várias adversidades. Uma é a cada vez maior escassez de mão de obra, provocando pressões salariais, consequência da prolongada política do filho único. Esse mesmo fator, dando origem a uma atual população de crianças, adolescentes e idosos perfazendo 60% da população total, deu origem a um encolhimento do consumo interno. Uma significa repatriação de indústrias para seus países de origem é outra consequência.    

 

Como em muitos países consumidores de produtos chineses ocorre o mesmo fenômeno, em futuro próxima também o mercado externo tenderá a encolhe – por um lado devido ao mesmo fenômeno de redução dos mercados de consumo nesses países, por outro, em decorrência da necessidade de proteger sua própria produção. Uma eventual reversão futura para um novo crescimento populacional tornar-se-á bastante difícil, uma vez por tratar-se de uma tendência mundial (com poucas exceções), por outro lado em virtude de toda a infraestrutura habitacional das últimas décadas, de moradias a áreas comuns, foi construída para a família nuclear de um só filho. Numa outra esfera é preciso ter em mente que uma urbanização em ritmo e extensão como a chinesa só se faz uma vez.  

 

Seria ingênuo acreditar que se trata de um problema somente interno da China. Em escala menor ou maior, a China tem relações comerciais de importação e exportação com a quase totalidade dos países ao redor do mundo, com isso evidentemente transferindo reflexos de sua situação para outras nações e outros mercados, tanto maiores, quanto for a intensidade desse intercâmbio. Entre esses parceiros, o Brasil é um dos maiores e, ao mesmo tempo, mais distantes, com vias de transporte longas e custos de frete altos. Isso significa que, em caso de cortes por parte da China, especialmente de produtos agropecuários e minérios, o Brasil estará entre os primeiros a ser atingido por tais medidas.

 

A situação chinesa que está se delineando certamente será um duro golpe na globalização, porque a prioridade de proteger dos mercados internos será vital. Obviamente, todos esses fatos não ocorrem do dia para a noite, porém, cabe que, mesmo acontecendo gradualmente ao longo das próximas décadas, deverão ser percebidos para permitir as devidas reações cautelares.  

 

 

 

 

 

 

 

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