sexta-feira, 10 de julho de 2026

Uma Inversão de Relevância

 

Uma Inversão de Relevância

(“An Inversion of Relevance”) This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O homem é um ser gregário desde as primitivas clãs familiares e a posterior evolução para a vida tribal. Os esforços conjugados, seja na caça, seja na defesa do grupo, garantiram maior sucesso. Desde então havia uma, embora simples, organização das sociedades. Caciques e xamãs eram ordenadores e moderadores da convivência coletiva. Regras severas eram a norma a bem da manutenção do grupo. Os interesses coletivos prevaleciam, e o que é considerado crueldade na sociedade moderna naquele passado era garantia de sobrevivência.

 

Quando o homem passou do nomadismo para a fixação na terra, as sociedades ganharam maior tamanho e estruturação civil. Essa estruturação desenvolveu formas rudimentares de administração pública, em geral liderada de maneira autocrática – raramente de forma espontânea, na maioria das vezes por auto apoderação do poder e de sequenciamento dinástica. Surgiram os reinados e feudos – civis e religiosos.

 

Esse formato de ‘governo’ cresceu e consolidou-se em todo o espaço territorial atualmente europeu e asiático. As antigas China, Japão, Índia e países satélites, regimes autocráticos ou teocráticos de milênios de anos eram comuns. Depois das civilizações do Crescente Fértil, principalmente os impérios Persa, Grego, Romano deram formas mais modernas a suas estruturas administrativas – sempre autocráticas, igual ao Egisto, Cartago, a Núbia e alguns outros países norte-africanos de menor porte.

 

Cabe aqui enfocar o período relativamente curto da democracia grega. Na verdade, não foi uma democracia representativa como as que conhecemos hoje – era uma democracia direta, ou seja, os cidadãos votaram pessoalmente as leis. Mas foi uma semente.

 

No mundo ocidental, o Império Romano deixou marcas indeléveis. A gradual reconquista de territórios ao norte dos Alpes ocupados parcamente por povos germânicos, começaram a se constituir domínios territoriais, especialmente nas regiões da atual Alemanha, França e Inglaterra. Um processo parecido transcorreu na Península Ibérica

 

A partir de Carlos Magno seguiram-se aproximadamente 1.100 anos de impérios, reinados e feudos de toda espécie por toda a Europa. Os destinos dos países eram determinados pelo respectivo soberano, incluindo autoridades religiosas. Numa particularidade, a Inglaterra deu seus primeiros passos pseudodemocráticos a partir da Carta Magna de 1215. Como caraterística geral, um objetivo comum e permanente das autocracias era a expansão territorial e de poder, seja por guerra, seja por matrimônios, em decisões era monocrática, enquanto ao povo eram dadas as armas e um destino incerto. Numa particularidade curiosa do poder, depois da reforma de Martim Luther, a população teve que adotar a confissão religiosa do soberano. Era um autoritarismo a toda prova, inclusive exportado para as colônias conquistadas ao redor do mundo a partir do século XVI. Política era coisa do respectivo soberano, e nas economias quase exclusivamente agrícolas  em sistema feudal de então, o poder econômico-financeira concentrava-se nos tesouros dos castelos.

 

As monocracias afloraram até 1787, quando a Constituição Democrata dos Estados Unidos, seguidos em 1789 da Revolução Francesa iniciaram uma ruptura na ordem política até então. Mesmo assim, políticas. O poder de quase todas as nações continuava com governos autocráticos, que praticamente detinham todos os poderes político e econômico.

 

Dois momentos históricos deram origem a duas mudanças radicais. A revolução industrial, concomitante com a

 revolução tecnológica, iniciadas no século XVIII e, posteriormente, as duas guerras mundiais do século XX. Enquanto a democratização das nações deslocava os poderes políticos e em grande escala engordava e enfatizava as suas instituições, a economia conquistava um papel crescentemente decisivo no desenvolvimento econômico e social das nações. E a aristocracia tradicional tentava se adaptar.

 

Com exceção a China, com um governo apenas formalmente democrático e o executivo determinando dos destinos do país, as economias dos países modernos, ao passo de seu avanço técnico e econômico, estão passando a dar o tom em seus rumos e exigindo dos governos constantes ajustes estruturais e expansões infraestruturais. Reformas legais e institucionais resultam de avanços socioeconômicos e tecnológicos. O protagonismo nas nações democráticas está mudando claramente dos gabinetes dos governos para as iniciativas privadas. A batuta mudou de mãos da política para os agentes econômicos. São as economias que garantem as receitas financeiras, e geram as realidades socioeconômicas, enfim, garantem o bem-estar e o progresso da sociedade.

 

Conclusão: o poder econômico e social, que durante milênios estava nas mãos dos governos, autocráticos ou democráticos, trocou de promotor: as instituições governamentais hoje são, em larga escala, condicionadas pelo empreendedorismo privado em suas decisões. O Estado deixou de ser mandante para passar a ser moderador das dinâmicas da sociedade civil; deixou de ser o constituinte solo, para ser coadjutor no regramento dos rumos e objetivos da nação. Deslocaram-se as relevâncias dos atores no palco das nações. Porém, nem todos os agentes públicos, de carreira ou elegíveis, se deram conta disso.