Uma Inversão de Relevância
(“An Inversion of Relevance”) – This text is written in a way to
ease comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
O homem é
um ser gregário desde as primitivas clãs familiares e a posterior evolução para
a vida tribal. Os esforços conjugados, seja na caça, seja na defesa do grupo,
garantiram maior sucesso. Desde então havia uma, embora simples, organização
das sociedades. Caciques e xamãs eram ordenadores e moderadores da convivência
coletiva. Regras severas eram a norma a bem da manutenção do grupo. Os
interesses coletivos prevaleciam, e o que é considerado crueldade na sociedade
moderna naquele passado era garantia de sobrevivência.
Quando o homem passou do nomadismo para a fixação
na terra, as sociedades ganharam maior tamanho e estruturação civil. Essa
estruturação desenvolveu formas rudimentares de administração pública, em geral
liderada de maneira autocrática – raramente de forma espontânea, na maioria das
vezes por auto apoderação do poder e de sequenciamento dinástica. Surgiram os
reinados e feudos – civis e religiosos.
Esse formato de ‘governo’ cresceu e consolidou-se
em todo o espaço territorial atualmente europeu e asiático. As antigas China,
Japão, Índia e países satélites, regimes autocráticos ou teocráticos de
milênios de anos eram comuns. Depois das civilizações do Crescente Fértil,
principalmente os impérios Persa, Grego, Romano deram formas mais modernas a suas
estruturas administrativas – sempre autocráticas, igual ao Egisto, Cartago, a
Núbia e alguns outros países norte-africanos de menor porte.
Cabe aqui enfocar o período relativamente curto da
democracia grega. Na verdade, não foi uma democracia representativa como as que
conhecemos hoje – era uma democracia direta, ou seja, os cidadãos votaram
pessoalmente as leis. Mas foi uma semente.
No mundo ocidental, o Império Romano deixou marcas
indeléveis. A gradual reconquista de territórios ao norte dos Alpes ocupados parcamente
por povos germânicos, começaram a se constituir domínios territoriais,
especialmente nas regiões da atual Alemanha, França e Inglaterra. Um processo
parecido transcorreu na Península Ibérica
A partir de Carlos Magno seguiram-se
aproximadamente 1.100 anos de impérios, reinados e feudos de toda espécie por
toda a Europa. Os destinos dos países eram determinados pelo respectivo
soberano, incluindo autoridades religiosas. Numa particularidade, a Inglaterra
deu seus primeiros passos pseudodemocráticos a partir da Carta Magna de 1215. Como
caraterística geral, um objetivo comum e permanente das autocracias era a
expansão territorial e de poder, seja por guerra, seja por matrimônios, em
decisões era monocrática, enquanto ao povo eram dadas as armas e um destino
incerto. Numa particularidade curiosa do poder, depois da reforma de Martim
Luther, a população teve que adotar a confissão religiosa do soberano. Era um autoritarismo
a toda prova, inclusive exportado para as colônias conquistadas ao redor do
mundo a partir do século XVI. Política era coisa do respectivo soberano, e nas
economias quase exclusivamente agrícolas em sistema feudal de então, o poder
econômico-financeira concentrava-se nos tesouros dos castelos.
As monocracias afloraram até 1787, quando a
Constituição Democrata dos Estados Unidos, seguidos em 1789 da Revolução
Francesa iniciaram uma ruptura na ordem política até então. Mesmo assim,
políticas. O poder de quase todas as nações continuava com governos
autocráticos, que praticamente detinham todos os poderes político e econômico.
Dois momentos históricos deram origem a duas
mudanças radicais. A revolução industrial, concomitante com a
revolução tecnológica,
iniciadas no século XVIII e, posteriormente, as duas guerras mundiais do século
XX. Enquanto a democratização das nações deslocava os poderes políticos e em
grande escala engordava e enfatizava as suas instituições, a economia conquistava
um papel crescentemente decisivo no desenvolvimento econômico e social das
nações. E a aristocracia tradicional tentava se adaptar.
Com exceção a China, com um governo apenas
formalmente democrático e o executivo determinando dos destinos do país, as
economias dos países modernos, ao passo de seu avanço técnico e econômico,
estão passando a dar o tom em seus rumos e exigindo dos governos constantes ajustes
estruturais e expansões infraestruturais. Reformas legais e institucionais
resultam de avanços socioeconômicos e tecnológicos. O protagonismo nas nações
democráticas está mudando claramente dos gabinetes dos governos para as
iniciativas privadas. A batuta mudou de mãos da política para os agentes
econômicos. São as economias que garantem as receitas financeiras, e geram as
realidades socioeconômicas, enfim, garantem o bem-estar e o progresso da
sociedade.
Conclusão: o poder econômico e social, que durante
milênios estava nas mãos dos governos, autocráticos ou democráticos, trocou de
promotor: as instituições governamentais hoje são, em larga escala, condicionadas
pelo empreendedorismo privado em suas decisões. O Estado deixou de ser mandante
para passar a ser moderador das dinâmicas da sociedade civil; deixou de ser o constituinte
solo, para ser coadjutor no regramento dos rumos e objetivos da nação. Deslocaram-se
as relevâncias dos atores no palco das nações. Porém, nem todos os agentes
públicos, de carreira ou elegíveis, se deram conta disso.