segunda-feira, 6 de maio de 2019

Duas Crises Econômicas, Duas Realidades Demográficas



Duas Crises Econômicas, Duas Realidades Demográficas *)

Klaus H. G. Rehfeldt

Em menos de meio século, o Brasil experimentou dois períodos de crise econômica denominadas ‘décadas perdidas’, com a última ainda não bem superada. As leituras de suas origens, as interpretações de seus transcursos e seus efeitos, e a conjecturas sobre as recuperações são várias e diversas conforme os ângulos de vista político, econômico ou sociocultural e, enfim, restam inúmeras dúvidas. Um entendimento completo e conclusivo deverá demorar a se cristalizar apenas com uma sedimentação final dos dados contextuais depois de um necessário distanciamento histórico.

Não é hábito dos políticos, economistas e cientistas sociais, nem de analistas históricos, incluir em suas análises eventuais aspectos demográficos e as dinâmicas que estes abrigam, especialmente quando se trata de espaços de tempo mais longos como no caso de uma década. Com isso subtraem-se fatores deveras importantes das considerações tecidas em torno de fenômenos como os aqui enfocados.

O recente passado do Brasil registrou mudanças demográficas bastante significativos, mas, ao mesmo tempo, muito distintas nas respectivas décadas de recessão. Ao enfocar a década de 1980, época da primeira ‘década perdida’, encontramo-nos num momento em que a população adulta brasileira era enriquecida pelo aumento populacional ocorrido na década de ’60, de nada menos que 32,9%. Numa economia de consumo, este crescimento demográfico traduz-se num potencial reforço no mercado consumidor com os reflexos diretos sobre toda a economia. Por outro lado, a taxa de desemprego médio do período (contribuindo negativamente na conjuntura econômica) era de 2,5%. Na hipótese de uma população constante durante aquele período, a ‘década perdida’ teria sido catastrófica.

Comparando a segunda ‘década perdida’ com a primeira e aplicando os mesmos parâmetros, vamos encontrar um aumento de população consumidora de apenas 18,3%, ou seja, um potencial de agentes econômicos bem mais modesto. Agravando a situação, registra-se uma taxa média de desemprego de aproximadamente 10,0% (6,7% em 2010, 13,7% em 2018) para a mesma década.

Na atual busca de explicações para a lentidão com que a atual recuperação se processa temos assim um fator importante a ser considerado e inserido nas ponderações, e que, ao mesmo tempo, pode invalidar esforços explicativos e corretivos desenvolvidos em direções errôneas.  

*) Publicado no Jornal ‘NSC Santa’, em 06.05.2019


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