Duas Crises Econômicas, Duas Realidades
Demográficas *)
Klaus H. G. Rehfeldt
Em menos de meio século, o Brasil experimentou dois
períodos de crise econômica denominadas ‘décadas perdidas’, com a última ainda
não bem superada. As leituras de suas origens, as interpretações de seus
transcursos e seus efeitos, e a conjecturas sobre as recuperações são várias e
diversas conforme os ângulos de vista político, econômico ou sociocultural e,
enfim, restam inúmeras dúvidas. Um entendimento completo e conclusivo deverá
demorar a se cristalizar apenas com uma sedimentação final dos dados
contextuais depois de um necessário distanciamento histórico.
Não é hábito dos
políticos, economistas e cientistas sociais, nem de analistas históricos,
incluir em suas análises eventuais aspectos demográficos e as dinâmicas que
estes abrigam, especialmente quando se trata de espaços de tempo mais longos
como no caso de uma década. Com isso subtraem-se fatores deveras importantes
das considerações tecidas em torno de fenômenos como os aqui enfocados.
O recente passado do Brasil
registrou mudanças demográficas bastante significativos, mas, ao mesmo tempo,
muito distintas nas respectivas décadas de recessão. Ao enfocar a década de
1980, época da primeira ‘década perdida’, encontramo-nos num momento em que a
população adulta brasileira era enriquecida pelo aumento populacional ocorrido
na década de ’60, de nada menos que 32,9%. Numa economia de consumo, este crescimento
demográfico traduz-se num potencial reforço no mercado consumidor com os
reflexos diretos sobre toda a economia. Por outro lado, a taxa de desemprego
médio do período (contribuindo negativamente na conjuntura econômica) era de
2,5%. Na hipótese de uma população constante durante aquele período, a ‘década
perdida’ teria sido catastrófica.
Comparando a segunda
‘década perdida’ com a primeira e aplicando os mesmos parâmetros, vamos
encontrar um aumento de população consumidora de apenas 18,3%, ou seja, um
potencial de agentes econômicos bem mais modesto. Agravando a situação,
registra-se uma taxa média de desemprego de aproximadamente 10,0% (6,7% em
2010, 13,7% em 2018) para a mesma década.
Na atual busca de
explicações para a lentidão com que a atual recuperação se processa temos assim
um fator importante a ser considerado e inserido nas ponderações, e que, ao
mesmo tempo, pode invalidar esforços explicativos e corretivos desenvolvidos em
direções errôneas.
*) Publicado no Jornal ‘NSC Santa’, em 06.05.2019
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