Idoso, Quem? *)
Klaus H. G. Rehfeldt
Quando
hoje observamos um número crescente de pessoas com idade acima dos 70, até 80
anos participando ativamente da vida cotidiana e em total autonomia, fica cada
vez mais difícil compreender que há duas gerações atrás, o vovô com 60 anos era
considerado um velho, mais ou menos dependente da generosidade de filhos e
netos.
O que aconteceu? Vários fatores, como a redução
na mortandade infantil, o trabalho fisicamente menos desgastante, o
aprimoramento dos recursos técnicos medicinais, maior acesso a suportes
sociais, entre outros de menor efeito, causaram um fenômeno novo na história da
humanidade: a recente mudança de uma expectativa quase estática abaixo dos 50
anos para outra em expansão a taxas nunca vistas. No Brasil, entre 1940 e 2015,
a expectativa de vida aumentou em 30 anos (66,9%), passando de 44,5 para 75,5
anos. Somente nos últimos 5 anos, este aumento anual foi de quase 6 meses.
Mas não só a idade cronológica da expectativa
de vida aumentou. Como podemos observar, este aumento é acompanhado por um
prolongamento da idade de vigor físico e mental. As ruas, os shoppings, os
navios de cruzeiros estão repletos de pessoas que em meados do século passado,
com a mesma idade, não saiam mais de casa, seja por debilidade física, seja por
acomodação ou falta de ânimo. A vitimização pela idade está sendo substituída
pela celebração do balanço positivo de uma vida realizada.
Legalmente somos idosos a partir dos 60 anos,
o que foi estabelecido quando a esperança de vida era de 68,5 anos, reservando
assim 14% da vida total para esta fase. Hoje são 27%, quase o dobro. E cada vez
mais pessoas recusam-se a fazer uso de vagas preferenciais em supermercados,
não por último para não se identificar com aquele velhinho curvado, de bengala
na mão, símbolo indicador de preferência ao idosos.
Engana-se quem pensa que o aumento da
expectativa de vida limita-se ao período da ‘terceira idade’; na verdade, todas
as fases da vida se prolongaram. Hoje, com uma expectativa de vida de 76 anos,
falta, portanto, uma redefinição da idade inicial que identifique uma pessoa
como idoso – de preferência de forma progressiva para acompanhar a dinâmica da
expectativa de vida, inclusive servindo de modelo para a determinação da idade
limite para a aposentadoria.
*) Artigo publicado no Jornal de Santa Catarina em 15.04.2017
Um texto irretocável, como todos os do autor. Quem é o idoso na atualidade? 60 anos? A lei, a sociedade, o mercado de trabalho precisamos rever os conceitos e os preconceitos também
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