terça-feira, 25 de junho de 2019

A Memória Genética e a Consciência do Homo Digitalis.



A Memória Genética e a
Consciência do Homo Digitalis.

Klaus H. G. Rehfeldt

O termo instinto nunca foi definido de forma inequívoca nas pesquisas comportamentais e na psicologia, talvez por pretender ser demasiadamente abrangente, o que não invalida o reconhecimento de sua existência. Em sua essência busca-se compreender o fenômeno do comportamento inato.

Já com respeito à memória genética, que se relaciona aos nossos instintos mais remotos ou primitivos, consegue-se trabalhar com conceitos mais bem delineados. Estes têm sua origem na concepção da evolução biológica e descrevem como o DNA de uma espécie pode servir de arquivo para suas memórias, experiências adquiridas, habilidades desenvolvidas e conhecimentos, e para o repasse às futuras gerações. A aptidão instintiva para a migração no caso de alguns pássaros migratórios, para a hibernação de alguns mamíferos em regiões mais frias, bem como para a reprodução sem experiência prévia dos indivíduos animais evidencia esta memória genética. Seu alcance excede nossos proto-instintos e contém registros das vidas de nossos antepassados – de suas experiências, habilidades, talvez sentimentos – tudo isso codificado na hélice dupla do DNA.

Fala-se também de memória celular uma vez que na fauna, a ponte entre as gerações é formada por unidades unicelulares: as células reprodutivas, óvulo e espermatozoide. As informações genéticas dividem-se em fenotípicas, que descrevem exclusivamente características fisiológicas e funcionais, e genotípicas, que contêm a soma de todas as informações genéticas, ou seja, além das fenotípicas há também aquelas que determinam padrões comportamentais, desde mais ou menos complexos, a simples traços dos mesmos em forma residual.
  
Eis um exemplo bastante elucidativo. No aspecto fenotípico existe um fenômeno embrionário: no desenvolvimento do embrião dos mamíferos forma-se uma articulação mandibular primária, muito parecida com a articulação mandibular encontrada nos peixes; esta transforma-se posteriormente nos ossículos do ouvido e apenas mais tarde surge a articulação mandibular secundária definitiva, na forma típica para cada espécie. Outros fenômenos semelhantes podem ser observados durante o processo evolutivo embrionário, que sugerem atavismos temporários impostos pela memória celular ou genética. Existem vertebrados de vida subterrânea que possuem olhos destituídos de sua função, mas revelam uma existência passada na superfície da Terra, aves cujas asas não mais servem para voar ou até já externamente invisíveis. Em prazos mais curtos, esta memória pode revelar-se na semelhança física de uma pessoa com um antepassado distante por várias gerações.

No aspecto genotípico encontramos as possíveis semelhanças em atitudes ou comportamentos do indivíduo com algum antepassado. Mas também aqui, a memória genética pode estender seu alcance a centenas de milhares de anos. Mímicas emocionais como, por exemplo, aquelas relativas ao luto, à ira, alegria, insegurança ou ao sorriso apontam nessa mesma direção. Em casos de fobias não explicáveis cabe eventualmente procurar suas origens em circunstâncias vivenciais registradas na memória genética do portador. Outro exemplo observa-se com pessoas cegas de nascença quando expressam emoções por meio de gestos iguais aos de pessoas com visão perfeita. No caso da memória genotípica é preciso observar que o comportamento das pessoas é significativamente influenciado por processos de aprendizado e de experiências vivenciadas em cada ambiente social. Em outras palavras, comportamentos são racionalmente ajustados a situações ou circunstâncias. Ambientes de convivência sofisticada, por exemplo, habituam as pessoas a atitudes e comportamentos elaborados e artificiais, suplantando aqueles naturalmente inerentes ao indivíduo; se este ambiente persistir por várias gerações, tais posturas ambientalmente adaptadas parecem ter grandes chances de ganhar um peso suficiente que lhe garantam uma incorporação genética.

A busca de explicação para a característica dificuldade de lidar com o diferente não deveria excluir a abordagem e busca de respostas na memória genotípica. Com exceção dos últimos milênios, nada, ou muito pouco mudou durante centenas de milhares de anos na vida dos nossos antepassados e o habitual, o conhecido, significava segurança. Vale destacar que num mundo de muitas ameaças e poucos recursos defensivos, a necessidade de segurança era quase tão importante quanto a garantia de alimento. E o diferente, gerando incerteza, constituía um ameaça. Isto sugere que seres diferentes, embora parecidos, eram entendidos como tais, evitados, ou, se necessário, eliminados. No reino animal encontramos a mesma evitação de espécies e subespécies parecidos – mas diferentes: um urso Grizly jamais se aproximaria de um urso polar embora sejam espécies geneticamente próximas e seus habitats sejam limítrofes. Da mesma maneira, subespécies de canários jamais cruzariam quando livres na natureza (embora animais domésticos tenham seus hábitos naturais influenciadas e parcialmente desvirtuados, cachorros das mais diferentes aparência físicas, do Pinscher ao São Bernardo, todos mostram reconhecer-se como indivíduos da mesma espécie). Esta realidade parece contribuir significativamente para o aumento exponencial da diversidade biológica na fauna no decorrer dos últimos 200 milhões de anos. Confirma-se a lei da natureza que impõe a preservação das diversidades.

Diante desta realidade cabe uma pergunta, crucial para uns, curiosa para outros: uma vez que num mundo moderno e civilizado do século XXI os temores perante o diferente não mais se justificam, as frequentemente observadas manifestações restritivas a seres humanos de aparência diferente, hábitos e costumes dispares, crenças distintas e outras dissemelhanças menores são realmente propositadas, ou encontram a raiz de sua explicação numa memória genética fenotípica incontrolada ou mal dominada, embora de perfeita superação pelo uso da razão a partir da compreensão de sua origem?

A presença residual de aspectos mais remotos da nossa memória genética não se deixa eliminar, mas o homo digitalis dispõe de recursos mentais abundantes e suficientes para conscientizar-se da existência e dos efeitos deste fenômeno e que lhe permitem processar os devidos ajustes racionais. Basta convencer-se de sua capacidade de transformar a relutância ao diferente em aceitação de uma diversidade enriquecedora.              


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