Boi no Lixo
Klaus H. G. Rehfeldt
As
recentes discussões sobre incêndios e queimadas na Amazônia trouxeram diversos
assuntos colaterais para as manchetes da mídia. Praticas tradicionais de queima
de pastagens, desmatamentos – legais e clandestinos – para fins de ganho de
espaço agrícola nas bordas das florestas amazônicas, garimpagem ilegal e
extração autorizada de riquezas no subsolo na Amazônia Legal e a importância ecológica
da flora e fauna invadiram as pautas de gabinetes de presidentes e primeiros
ministros. Há preocupações legítimas, há interesses políticos, há objetivos econômicos
e há apreensões ecológicas, todos com prós e contras.
Em todos os debates, porém, um assunto de
importância central em toda a problemática ficou de fora das argumentações: o
desperdício, especialmente de alimentos. Embora os maiores desaproveitamentos dessa
natureza ocorrem exatamente nos países mais ricos, chegando a 40% dos seus
produtos alimentícios, o Brasil também faz parte desse universo. Em resumo, os
desperdícios brasileiros, segundo a FAO, incluem 30% de pescado, 20% dos lácteos,
45% de frutas, hortaliças, tubérculos e raízes, 20% dos legumes, e 20% da carne
bovina.
Para ilustrar a gravidade do problemas, cabe pormenorizar
este último aspecto. Da produção brasileira de carne de gado de cerca de 9.250
mil toneladas/ano, o consumo interno é de aproximadamente 7.600 mil toneladas. O
mencionado desperdício de 20% resulta na astronômica quantidade de 1.520 mil
toneladas – um milhão e meio de toneladas – ou seja, um volume que corresponde
a mais de 90% das exportações desse produto, que somam 1.640 mil toneladas.
E um desperdício monstruoso. A monstruosidade
é maior: são cerca de 380 mil bois, novilhos etc. (sim, 380.000 cabeças de gado
por ano) criados, mortos e beneficiados no Brasil que acabam em algum ponto
entre o frigorífico e o prato do consumidor – na lata de lixo! Ao lado de 45
milhões de frangos e 4 milhões e porcos em todo o mundo. Desperdício não é
apenas um problema econômico – é uma profunda questão ética.
Discutir a quem cabem as soluções parece
inócuo. Para o produtor, a não ser por razões morais, não interessa uma redução
de demanda e o comerciante e o dono do restaurante compensam suas perdas no
preço. A resposta real e verdadeira pode vir somente do cidadão consciente e
probo, seja ele consumidor, comerciante ou produtor, e que enxerga na redução
de desperdício um padrão de vida. Não temos um segundo planeta para explorar.
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