Meio Ambiente e Clima
(O subtítulo fica a cargo do leitor)
Klaus H. G. Rehfeldt
Há
muito tempo, a humanidade deixou de viver na natureza para viver da natureza. A
diferença está em manter o equilíbrio, ou desequilibrar nossa relação com o
meio ambiente. Na busca de cada vez mais facilitar nossas condições de vida e
de construir riquezas, nem sempre de bons modos com o planeta que nos abriga,
parece termos chegado a uma encruzilhada: ou continuaremos do jeito como
fizemos e vivemos até aqui com consequências imprevisíveis, embora fatalmente
catastróficas, ou repensamos e mudamos nossos valores, dando à natureza a prioridade
que lhe cabe e o respeito que merece para garantir um futuro de razoável
tranquilidade de bem-estar às próximas gerações.
Abusamos da natureza e daquilo que ela nos
oferece por demasiado tempo, não importa se por ignorância, negligência ou
ganância. E salvo os povos indígenas que ainda existem espalhados sobre a Terra,
nenhuma nação ou civilização escapa dessa acusação. Durante muito tempo, e até
o início dos tempos modernos, os abusos ambientais cometidos não se traduziram
em situações dramáticas pela simples lentidão com que crescia a população e a
grande disponibilidade de recursos naturais em territórios até então
inexplorados. Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico processava-se apenas paulatinamente.
Práticas adotadas ainda na Idade Média na Europa Central como o rodízio de
culturas e descanso da terra e a preservação das florestas podem não ter tido
os objetivos preservacionistas que lhes foram atribuídos por muito tempo, mas,
em primeiro lugar, atendido fins mas diretos como maior rentabilidade da terra
e a garantia de caça para o senhorio.
Da mesma forma, as queimadas – depois da
extração da madeira – eram a maneira mais rápida e econômica de obtenção de
terra cultivável e seus produtos, especialmente nas infindáveis terras encontradas
pelos colonizadores nas Américas, na África e na Oceania. Na ausência de
preocupações ecológicas, ou, sequer, a necessidades para tais, a prática da
queimada assumiu caráter cultural nessas regiões, estando em uso até a
atualidade. Hoje, diante da grave realidade ecológica, urge, naturalmente,
convencer-se das consequências condenáveis e abandonar essa técnica simplista.
O benefício ambiental de processos mecânicos de limpeza é certamente maior que seu
ônus. Aliás, o composto resultante da decomposição natural da vegetação é qualitativamente
bem superior àquele produzido por cinzas.
Na Europa Central, de onde partem hoje a
maiores críticas contra esse procedimento, o mesmo não existe mais por motivos
óbvios. Desde meados do século passado, a lavoura de pequena escala é abandonada
e substituída por reflorestamentos. Por outro lado, as queimadas de pastagens
para fins de limpeza, prática comum em regiões tropicais devido ao rápido
crescimento da vegetação que estraga as pastagens, são dispensáveis em terras
de clima temperado por causa do frio dos invernos. Por outro lado, é preciso
lembrar que as florestas dessas regiões sofrem uma permanente ameaça –
inclusive perdas concretas – decorrente das chamadas chuvas ácidas,
consequência da crescente poluição do ar ao longo dos últimos dois séculos.
A natureza vive da própria natureza, a
substância viva alimenta-se de outras substâncias vivas. Esta é a essência da
existência da natureza e do equilíbrio nela reinante. O homem começou a ameaçar
esse equilíbrio ao começar a utilizar a natureza não apenas para seu sustento
básico, mas também para seu conforto, para o atendimento de suas ambições e a
busca de recursos que contribuam para facilitar sua vida. A natureza passa a
fornecer matéria prima para a construção de suas casas, de suas ferramentas e
utensílios, de suas armas e defesas, e principalmente para a geração de
energia. A exploração dos recursos naturais para fins impostos pelo avanço
civilizatório, combinado com o rápido crescimento demográfico, iniciou um
desequilíbrio que apenas a partir de meados do século passado foi identificado
como causador de graves problemas.
A década de 1970 e os primeiros anos de 1980
chamaram notáveis em ecologia de diversos Institutos e Universidades de renome
em todo o mundo ao palco para discutir os fenômenos ambientais inusitados de
então. Enchentes aqui, secas acolá, verões chuvosos demais que dizimaram as
colheitas no Paquistão, nas Américas e no Japão em 1972, a expansão do deserto
do Saara, encontraram unânimes explicações em diversas formas e intensidades de
poluição ao redor do mundo. Mas, uma curiosidade: as previsões então feitas
pelas mais ilustres cabeças na área da ecologia tinham um denominador comum – a
chegada próxima de uma nova era glacial a partir da observação de constantes
quedas de temperatura, incluindo consequências catastróficas como calamidades
extremas, grandes partes inabitáveis no nosso planeta, tornados, secas,
enchentes e muito mais.
Bastaram 40 anos para, a partir de novas
observações dos termómetros ao redor do planeta, para as atuais autoridades em
meio ambiente (não são mais os Linus Pauling, Geroge J. Kukla e outros de décadas
anteriores) preverem, a partir de causas idênticas, embora com novas
magnitudes, um aquecimento global para o resto de século e além.
Não devemos, portanto, estranhar, ou até nos surpreender,
que algumas (ou muitas) pessoas veem com ceticismos os alarmes expedidos por
supostos entendidos no assunto, e com as atribuições de culpa em todas as
direções. E catastrofismo vai às custas da credibilidade.
Estamos abusando dos recursos que a natureza
nos oferece e sobrecarregando sua capacidade de se regenerar e recuperar? Estamos,
sim. A natureza está se mostrando sensível e respondendo a esse abuso com
reações extremadas? Está, sim. Adianta discutir se apenas vivemos ciclos
naturais já anteriormente observados em nosso planta, ou se a humanidades é
responsável pelas mudanças ambientais e climáticas, e em que grau contribui
para as mesmas? Não, isso não resolve o problema.
Adianta, sim, resolve, sim, a consciência de
que a natureza tem seu preço, o uso indevido, ou abuso, cobre taxas e
sobretaxas, que serão reclamados daqueles que dela usufruem – todos nós. Esta
consciência, honestamente vivida por cada cidadão e pela sociedade como um todo,
discernindo entre usufruição e destruição, entre consumo e desperdício, entre
lucro e ganância, enfim, entre respeito e desprezo à natureza, fará a diferença.
Quando esta consciência, semeada hoje no solo receptivo e fértil da nova
geração, amanhã trouxer frutos para finalmente converter-se em cultura – sem
metas, nem promessas – voltaremos a viver na e com a natureza – não dela. A
natureza é um conjunto vivo e, portanto, é vulnerável. Ela certamente não
abandonará seus caprichos, mas estes não serão consequências de posturas irresponsáveis
e inconsequentes da humanidade e, talvez, poderemos atenuá-los.
Aquelas previsões de catástrofes de 30 ou 40 anos atrás, tornaram-se realidade. As experiências nucleares da França no Atol de Bikini, na Polinésia, só ajudaram a apressar a calamidade presente, fato convenientemente "esquecido" por mácron. A verdade é que, em decorrência de toda essa exploração louca e desenfreada, veremos ainda grandes e terríveis coisas acontecerem.
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