Julgar Quem, Julgar o Quê?
Klaus H. G. Rehfeldt
Observemos
um desfile militar de milhares de militares de ambos os sexos. É um contingente
de iguais milhares de pessoas diferentes, personalidades distintas, de variadas
origens étnicas, mais ou menos jovens, mais ou menos bonitas, mais ou menos simpáticas,
ricas ou pobres, ambiciosas ou letárgicas, inteligentes ou tolas etc., etc., etc.
Todas essas diversidades desparecem sob uniformes idênticos e no cumprimento
simultâneo e sincronizado das ordens dadas. E se um dos soldados no meio desse
desfile marchar fora do passo?
O indivíduo ganha notoriedade como tal apenas
quando sai do passo, seja por descuido, por discordância ou por inconformidade.
De resto, padrões socioculturais, a língua e outros aspectos comuns são os
uniformes que escondem, às vezes mimetizam, as singularidades dos componentes
de uma sociedade.
O imenso universo de desigualdades presentes,
mas não percebidas pelo prisma da coletividade, é essencial para a constituição
e existência da nossa sociedade. Uma coletividade composta de seres
absolutamente iguais se auto-extinguiria. Portanto, a diversidade e consequente
pluralidade nas sociedades é nossa garantia de sobrevida como espécie. Um
aspecto importante é a improvável mutabilidade das personalidades, e mesmo que
um universos de indivíduos receba as mesmas chances em seu preparo para a vida,
cada membro desse universo deverá utilizá-las diferentemente de acordo com suas
inclinações, seu ego, seu caráter e as impressões digitais de sua
singularidade.
Tendo isso em mente, evidencia-se a
insanidade do julgamento da pessoa pelo que ela representa e pelo que ela é
como resultado dos atributos que a natureza lhe conferiu, ou os moldes que a
sociedade e sua condição de vida lhe impuseram. Somos todos imperfeitos. O que,
então, qualifica uma pessoa detentora de seus próprios defeitos a julgar as – supostas
– imperfeições, os – possíveis – senões de seu próximo?
Cada um é o que é em grande parte por razões
que independem de sua vontade, porém, cada um faz o que faz a partir de
deliberações ou por falta delas. Não nos compete julgar o cleptomaníaco pela
sua condição, mas cabe, sim, julgá-lo pela omissão do exercício de controle
sobre seus impulsos. Salvo quando inimputáveis, somos todos responsáveis pelos
nossos atos, sua justeza e suas consequências, ou as omissões dos atos que a
vida em sociedade nos impõe. Meus atos, minhas atitudes e meu comportamento,
estes sim, devem obedecer às normas da convivência que a coletividade espera de
mim. Quando a harmoniosa relação de submissão do eu ao nós for quebrada
exponho-me ao juízo da sociedade, seja pela autoridade instituída, seja pela
manifestação do cidadão.
Embora haja uma absoluta e inquestionável clareza
sobre a diferença entre o ‘ser’ e o ‘fazer’ (ou deixar de fazer), surpreende o enorme
número de pessoas que não fazem, ou não conseguem fazer, o discernimento entre
estes dois conceitos. Nos tempos da vida social exclusivamente real os julgamentos,
cabíveis e indevidos, difundiam-se no restrito círculos de pessoas relacionadas,
hoje eles são propagados entre universos imensuráveis pelos canais virtuais das
redes (anti)sociais, por ignorância, por leviandade, por necessidade de
autoafirmação ou autprojeção, ou por pura má-fé. Não sabem, aparentemente,
estas pessoas que se envolvem num ato deliberado e, com isto, se tornam objeto
de julgamento justificado pelas suas conceituações, tanto justas, quanto
descabidas, impertinentes e intoleráveis – senão criminosos, quando tais juízos
deixam a intimidade de suas mentes. Nas dimensões que a mídia moderna permite.
Quem eu sou só, cabe a mim julgar, o que faço,
qualquer pessoas pode aprovar ou desaprovar. Cabe refletir!
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