quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Julgar Quem, Julgar o Quê?



Julgar Quem, Julgar o Quê?

Klaus H. G. Rehfeldt

Observemos um desfile militar de milhares de militares de ambos os sexos. É um contingente de iguais milhares de pessoas diferentes, personalidades distintas, de variadas origens étnicas, mais ou menos jovens, mais ou menos bonitas, mais ou menos simpáticas, ricas ou pobres, ambiciosas ou letárgicas, inteligentes ou tolas etc., etc., etc. Todas essas diversidades desparecem sob uniformes idênticos e no cumprimento simultâneo e sincronizado das ordens dadas. E se um dos soldados no meio desse desfile marchar fora do passo?
O indivíduo ganha notoriedade como tal apenas quando sai do passo, seja por descuido, por discordância ou por inconformidade. De resto, padrões socioculturais, a língua e outros aspectos comuns são os uniformes que escondem, às vezes mimetizam, as singularidades dos componentes de uma sociedade.
O imenso universo de desigualdades presentes, mas não percebidas pelo prisma da coletividade, é essencial para a constituição e existência da nossa sociedade. Uma coletividade composta de seres absolutamente iguais se auto-extinguiria. Portanto, a diversidade e consequente pluralidade nas sociedades é nossa garantia de sobrevida como espécie. Um aspecto importante é a improvável mutabilidade das personalidades, e mesmo que um universos de indivíduos receba as mesmas chances em seu preparo para a vida, cada membro desse universo deverá utilizá-las diferentemente de acordo com suas inclinações, seu ego, seu caráter e as impressões digitais de sua singularidade.
            Tendo isso em mente, evidencia-se a insanidade do julgamento da pessoa pelo que ela representa e pelo que ela é como resultado dos atributos que a natureza lhe conferiu, ou os moldes que a sociedade e sua condição de vida lhe impuseram. Somos todos imperfeitos. O que, então, qualifica uma pessoa detentora de seus próprios defeitos a julgar as – supostas – imperfeições, os – possíveis – senões de seu próximo?
Cada um é o que é em grande parte por razões que independem de sua vontade, porém, cada um faz o que faz a partir de deliberações ou por falta delas. Não nos compete julgar o cleptomaníaco pela sua condição, mas cabe, sim, julgá-lo pela omissão do exercício de controle sobre seus impulsos. Salvo quando inimputáveis, somos todos responsáveis pelos nossos atos, sua justeza e suas consequências, ou as omissões dos atos que a vida em sociedade nos impõe. Meus atos, minhas atitudes e meu comportamento, estes sim, devem obedecer às normas da convivência que a coletividade espera de mim. Quando a harmoniosa relação de submissão do eu ao nós for quebrada exponho-me ao juízo da sociedade, seja pela autoridade instituída, seja pela manifestação do cidadão.
Embora haja uma absoluta e inquestionável clareza sobre a diferença entre o ‘ser’ e o ‘fazer’ (ou deixar de fazer), surpreende o enorme número de pessoas que não fazem, ou não conseguem fazer, o discernimento entre estes dois conceitos. Nos tempos da vida social exclusivamente real os julgamentos, cabíveis e indevidos, difundiam-se no restrito círculos de pessoas relacionadas, hoje eles são propagados entre universos imensuráveis pelos canais virtuais das redes (anti)sociais, por ignorância, por leviandade, por necessidade de autoafirmação ou autprojeção, ou por pura má-fé. Não sabem, aparentemente, estas pessoas que se envolvem num ato deliberado e, com isto, se tornam objeto de julgamento justificado pelas suas conceituações, tanto justas, quanto descabidas, impertinentes e intoleráveis – senão criminosos, quando tais juízos deixam a intimidade de suas mentes. Nas dimensões que a mídia moderna permite.
Quem eu sou só, cabe a mim julgar, o que faço, qualquer pessoas pode aprovar ou desaprovar. Cabe refletir!         

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