sábado, 28 de dezembro de 2019

Desigualdade - Qual Delas?



Desigualdade, Qual Delas?

(Inequality - Which One? - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

Condições, ou causas desiguais geram efeitos desiguais. Esta verdade lapidar acompanha a humanidade desde seus primórdios. Por mais uniforme, inalterada e repetitiva a vida em comunidades do início da civilização possa ter sido, no plano individual dos seus componentes encontramos pessoas fortes e fracas, corajosas e medrosas, ambiciosas e acomodadas, mais ou menos hábeis – a lista é longa. Por outro lado, nem todas as terras eram igualmente férteis, nem todos os animais eram igualmente saudáveis, e assim por diante. Portanto, condições iguais definitivamente não existiam, jamais. E esta realidade traduz-se fatalmente em resultados, ou efeitos econômicos desiguais – e, consequentemente, sociais
Com a cada vez mais sofisticada organização das sociedades, somaram-se às iniquidades naturais àquelas de ordem hierárquica. Poderes e privilégios concedidos pela sociedade, ou dela tomados, converteram-se igualmente em riquezas pessoais – e desigualdade. Esta desigualdade, que vem acompanhando a humanidade ao longo de sua história, é inerente a qualquer processo de avanço econômico simplesmente em função das diversidades já apontadas dos agentes individuais desse processo. E ela tende a aumentar especialmente quando progressos tecnológicos e econômicos ganham velocidade enquanto seus efeitos multiplicadores não conseguem acompanhar esse ritmo. Por exemplo, o Brasil produziu somente nos anos 2018/19 dez empreendimentos startup, de curtíssima existência, com dimensão de unicórnio (i.e., eles atingiram a marca de US$ 1 bilhão em avaliação de mercado), ou seja, gerou-se em dois anos uma riqueza adicional de mais de R$ 40 bilhões na ponta da pirâmide; obviamente, os impactos positivos e benefícios econômicos para as populações mais pobres deverão levar um prazo bem maior para chegar lá. Por outro lado, ideias e tentativas de reduzir este problema são muitas e habitam as mentes de políticos e cientistas sociais nos últimos dois séculos e meio; aparentemente estão se aproximando de opções viáveis de amenizá-lo (por exemplo, a renda universal básica).
Por longos tempos ignorada, mas ganhando evidências alarmantes, convivemos com outra desigualdade, não menos profunda e com reflexos mais amplos, porque compromete nosso grau de importância no contexto mundial: a desigualdade educacional. Enquanto em regiões mais desenvolvidas e mais prósperas do país os alunos deixam o ensino fundamental razoavelmente preparados para o mundo do trabalho de menor exigência qualificativa ou o ingresso em outros níveis de ensino, grande – se não a maior – parte do país prepara o jovem brasileiro de maneira absolutamente precária e insatisfatória, conforme mostram ano a ano os resultados do Estudo PISA. Ocorre que, há décadas, o mercado de trabalho demanda cada vez mais trabalho cognitivo em prejuízo do trabalho físico deixado para autómatos e robôs. Os próprios conceitos de ensino não atendem mais aos requisitos do trabalhador moderno, menos ainda, daquele do futuro. Continuando assim, a abismal desigualdade educacional em relação a países como Correa do Sul, Finlândia, Dinamarca, que a muitos anos trabalham na modernização dos seus sistemas de ensino (e que não se incomodam em ser copiados), ganhará dimensões simplesmente irrecuperáveis. Corremos o risco de jamais seremos locomotiva, apenas vagão – de soja e de gado.
As políticas, as estratégias e a execução do ensino estão em sua grande maioria na mão do Estado e por isso cabe a ele encontrar e aplicar urgentemente as respostas adequadas para manter o Brasil (sem um Prêmio Nobel, sequer) no conjunto dos países emergentes e com chances de acompanhar o desenvolvimento global. -  Aliás, um Real investido na educação poupa quatro Reais na saúde pública.  


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