Desigualdade, Qual Delas?
(Inequality - Which One? - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)
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Klaus H. G. Rehfeldt
Condições,
ou causas desiguais geram efeitos desiguais. Esta verdade lapidar acompanha a
humanidade desde seus primórdios. Por mais uniforme, inalterada e repetitiva a
vida em comunidades do início da civilização possa ter sido, no plano
individual dos seus componentes encontramos pessoas fortes e fracas, corajosas
e medrosas, ambiciosas e acomodadas, mais ou menos hábeis – a lista é longa.
Por outro lado, nem todas as terras eram igualmente férteis, nem todos os
animais eram igualmente saudáveis, e assim por diante. Portanto, condições
iguais definitivamente não existiam, jamais. E esta realidade traduz-se
fatalmente em resultados, ou efeitos econômicos desiguais – e, consequentemente,
sociais
Com a cada vez mais sofisticada organização das
sociedades, somaram-se às iniquidades naturais àquelas de ordem hierárquica.
Poderes e privilégios concedidos pela sociedade, ou dela tomados,
converteram-se igualmente em riquezas pessoais – e desigualdade. Esta
desigualdade, que vem acompanhando a humanidade ao longo de sua história, é
inerente a qualquer processo de avanço econômico simplesmente em função das
diversidades já apontadas dos agentes individuais desse processo. E ela tende a
aumentar especialmente quando progressos tecnológicos e econômicos ganham
velocidade enquanto seus efeitos multiplicadores não conseguem acompanhar esse
ritmo. Por exemplo, o Brasil produziu somente nos anos 2018/19 dez
empreendimentos startup, de curtíssima existência, com dimensão de unicórnio (i.e.,
eles atingiram a marca de US$ 1 bilhão em avaliação de mercado), ou seja, gerou-se
em dois anos uma riqueza adicional de mais de R$ 40 bilhões na ponta da
pirâmide; obviamente, os impactos positivos e benefícios econômicos para as
populações mais pobres deverão levar um prazo bem maior para chegar lá. Por
outro lado, ideias e tentativas de reduzir este problema são muitas e habitam
as mentes de políticos e cientistas sociais nos últimos dois séculos e meio; aparentemente
estão se aproximando de opções viáveis de amenizá-lo (por exemplo, a renda
universal básica).
Por longos tempos ignorada, mas ganhando
evidências alarmantes, convivemos com outra desigualdade, não menos profunda e
com reflexos mais amplos, porque compromete nosso grau de importância no
contexto mundial: a desigualdade educacional. Enquanto em regiões mais
desenvolvidas e mais prósperas do país os alunos deixam o ensino fundamental
razoavelmente preparados para o mundo do trabalho de menor exigência qualificativa
ou o ingresso em outros níveis de ensino, grande – se não a maior – parte do
país prepara o jovem brasileiro de maneira absolutamente precária e insatisfatória,
conforme mostram ano a ano os resultados do Estudo PISA. Ocorre que, há
décadas, o mercado de trabalho demanda cada vez mais trabalho cognitivo em
prejuízo do trabalho físico deixado para autómatos e robôs. Os próprios
conceitos de ensino não atendem mais aos requisitos do trabalhador moderno,
menos ainda, daquele do futuro. Continuando assim, a abismal desigualdade educacional
em relação a países como Correa do Sul, Finlândia, Dinamarca, que a muitos anos
trabalham na modernização dos seus sistemas de ensino (e que não se incomodam
em ser copiados), ganhará dimensões simplesmente irrecuperáveis. Corremos o
risco de jamais seremos locomotiva, apenas vagão – de soja e de gado.
As políticas, as estratégias e a execução do
ensino estão em sua grande maioria na mão do Estado e por isso cabe a ele encontrar
e aplicar urgentemente as respostas adequadas para manter o Brasil (sem um
Prêmio Nobel, sequer) no conjunto dos países emergentes e com chances de
acompanhar o desenvolvimento global. -
Aliás, um Real investido na educação poupa quatro Reais na saúde
pública.
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