sábado, 21 de março de 2020

A Massa Crítica



A Massa Crítica
(‘Critical Mass’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

As maciças nuvens de gases e microparítulas, com elevado teor de enxofre, expelidas na erupção do vulcão Tambora, em abril de 1815 na Indonésia, deram volta ao redor do globo durante alguns anos com graves efeitos climáticas. Entre as consequências dessas anomalias consta a eclosão de uma pandemia de cólera com origem principal nas enchentes anormalmente volumosas no delta do Rio Ganges, onde a bactéria causadora é elemento natural da biosfera. Viajantes, comerciantes e marinheiros levaram a bactéria por terra e por mar ao redor do mundo ao longo dos anos seguintes. A última manifestação (da mesma cepa desse causador) e a mais distante de seu ponto de origem ocorreu de forma epidêmica em Filadélfia, EUA, em 1932 – 17 anos depois do aparecimento inicial.
            A detonação das primeiras bombas nucleares era desencadeada pela junção de duas porção sub-críticas (incapazes de produção uma fissão/explosão, em cadeia) de urânia para uma porção de massa suficiente para iniciar esse processo. É o princípio da massa crítica, ou seja da densidade suficiente para permitir a reação em cadeia.
A atual pandemia de Covid-19 parece evidenciar que a humanidade atingiu sua massa crítica, perlo menos regionalmente, para a propagação de determinados agentes patológicos. Obviamente, diferentes agentes têm diferentes potenciais de contaminação/propagação, também denominados de índice básico de reprodução (1,33 no Covid-19, i.e., duplicação de contaminados em 2 dias), ou seja, exigem diferentes massas críticas de população para causar condições epidêmicas. O que habitava as fantasias de autores de ficção científica e catastrofistas no passado revela-se hoje como perfeitamente possível de acontecer.
Soma-se a isso um fator corriqueiro da vida moderna: a mobilidade de grande número de pessoas a velocidades constantemente crescentes; são hoje 130 mil voos a cada dia e a distância entre Calcutá e Filadélfia é percorrida em menos de 24 horas.
Na constância da nossa realidade demográfica, portanto, seria no mínimo ingênuo e leviano descartar novas e futuras ocorrências sanitárias como a atual. Nas últimas duas décadas surgiu um notável número de epidemias e para sermos realistas precisamos contar com a continuação desse quadro (sem falar de possíveis surpresas como a localização em 2009 de uma ameba desconhecida, que hibernou durante centenas de milhares de anos no permafrost agora em derretimento devido as mudanças climáticas em curso).
Uma efetiva mudança de perspectivas resida redução da massa crítica populacional. Taxas de fertilidade abaixo de 2,1 filho por mulher (mínimo para reposição da populacão) são hoje observadas em 119 dos 221 países do mundo (53,8%), além do Brasil, da China aos Estados Unidos, passando pela quase totalidade da Europa e vários países árabes (Index Mundi/2019). Esta evolução em cursos permite prever um início de crescimento negativo da população mundial dentro de poucas décadas (dependente em parte dos índices do aumento de expectativa de vida ao redor do mundo), reduzindo assim a densidade populacional global. A crescente concentração urbana em megacidades, porém, não eliminará o problema da massa crítica localizada como foco epidêmico.

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