Vínculo Empregatício – Um Futuro Incerto
("Employment - An Uncertain Future" - This text was written in a way to ease comprehensive
electronic translations.)
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Klaus H. G. Rehfeldt
Não
há vida, de fauna ou flora, sem geração e dispêndio de energia. E esta energia endógena
é limitada, em geral, suficiente para garantir a sobrevida e o desenvolvimento
na fase inicial da vida. Também nos seres humanos, o balanço energético do
indivíduo sofre as mesmas limitações, restringindo-se ao saciar da fome e da garantia
de segurança. Com a evolução, o homem lavrador e criador, consequentemente mais
sedentário, desenvolveu o conceito da posse individual, e a busca pelo aumento
de propriedades e por mais conforto dependia essencialmente de maiores recursos
energéticos. A energia suplementar gerada por animais domesticados era limitada,
portanto, a resposta residia na apropriação da energia de outros humanos. O
caminho para esta resposta consistia na subjugação pelas armas de grupos,
sociedades ou nações mais fracas – e a resultante escravatura. Grandes
civilizações como a egípcia, persa, grega e romana, entre outras, foram
construídas, e desenvolveram e mantiveram seu poder econômico e militar,
produzindo imensas riquezas através do trabalho escravo.
Depois
da queda do império romano predominava na Europa da Idade Média a sociedade
agrícola familiar no formato da servidão em terras da estrutura feudal. Regimes
de vassalagem, servidão e de serviços militares obrigatórios eram, em muitos
caos, uma escravidão sem correntes. As revoltas e ‘guerras dos camponeses’ dos
séculos XV a XVII resultaram das condições de exploração desses sistemas de
subjugação.
Enquanto ainda no século XVI recrudesceu o
comércio de escravos originários da África – onde este tráfico existia desde o
século V – para o novo mundo, em fins do século XVIII, como efeito da revolução
industrial, expandiu-se um regime de trabalho até então só comum no serviço
público e nas oficinas dos artesãos, o trabalho assalariado, ou seja, a relação
de emprego. Inicialmente caracterizada por um capitalismo selvagem e em
condições extremamente desfavoráveis para o trabalhador, ao longo de mais de
dois séculos estabeleceu e fortificou-se um conjunto de direitos e seguranças
para o empregado, chegando a um razoável equilíbrio de interesses. Esta evolução
na convivência de capital e trabalho vem se desenvolvendo até os dias atuais,
quando apenas os detentores de capital, os profissionais autônomos, o comércio
e a agriculturas familiar e outros profissionais de pouca expressão numérica
não fazem parte do enorme universo do trabalho com vínculo empregatício,
público e privado. A imensa maioria das atividades profissionais executam-se
nesse formato.
O recente e contínuo fortalecimento do setor
de prestação de serviços, a crescente automação e robotização dos processos
industrias e um mercado de trabalho de futuro cada vez mais incerto estão
mudando este quadro. Uma característica central no trabalho, que consistia nas
profissões e atividades vitalícias, sucumbiu para uma dinâmica inusitada de
desaparecimento de carreiras e o surgimento de novas ocupações com novos
requisitos e aptidões, e muitas vezes de pouca duração. Incertezas e
instabilidades invadiram o mundo do trabalho.
Um novo perfil de trabalhador é procurado no
mercado de trabalho. Num ambiente de ausência de dispendiosos investimentos
materiais, ou seja, necessidade de pouco - ou nenhum - capital, tornam-se
indispensáveis a flexibilidade no acompanhamento das evoluções tecnológicas, o
contato direto com o consumidor final, criatividade na solução de problemas,
entre muitos outros, enfim, habilidades essenciais que beneficiam o empreendimento,
frequentemente de pequeno ou médio porte. Os novos desafios profissionais
requerem, além do conhecimento específico, o domínio de competências sociais.
Contratos temporários, microempresas
individuais, sociedades comerciais em substituição à relação empregatícias, a
constituição individual de pessoa jurídica, o serviço subcontratado, estas e
outras formas de realização profissional rompem com os tradicionais paradigmas
da figura do emprego, apesar dos engessamentos legais e das resistências
impostas por organizações sindicais (onde a ameaça à própria sobrevida tem um
papel importante). Os mencionados desafios podem ser entendidos como obstáculos
e restrições, no entanto, em inúmeros casos têm se revelado como incitações e
estímulos e têm levado a realizações profissionais dificilmente alcançáveis num
regime de emprego.
O trabalhador moderno, seja ele um operador
de uma máquina de costura ou um executivo de uma desenvolvedora de software,
dispõe de informações em quantidade e qualidade jamais experimentadas pela
humanidade, o que lhe confere uma capacidade e um poder de decisão igualmente
inéditos. O enfrentamento dessa inusitada realidade certamente exige esforço
pessoal inabitual, porém, com benefício pessoal direto – e não para o
empregador. Por outro lado envolve disposição para assumir riscos e
experimentar erros e acertos, que, surpreendentemente, nunca foi tão presente
como na atual juventude, não por último em decorrência das profundas mudanças
na vida e nas estruturas familiares (casamentos tardios, poucos filhos,
mobilidade etc.)
Sempre haverá relações de trabalho com
vínculo empregatício, especialmente nas funções públicas, mas a sociedade
trabalhadora e, mormente, o legislador devem estar atentos para um futuro não
muito longe em que o emprego, na sua forma clássica, não será mais o modelo
predominante de trabalho.
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