Haverá um Depois
(‘There Will Be an Afterwards’
- This text was written in a way
to ease comprehensive electronic translations.)
Klaus H. G. Rehfeldt
“Através
do Corona adaptaremos nossa inteira atitude diante da vida – no sentido de
nossa existência como seres vivos no meio de outras formas de vida.” Slavoj
Zizek, filósofo esloveno, março 2020.
Crises costumam evidenciar os aspectos que
ficaram nas sombras do brilho dos bem sucedidos avanços e evoluções. Não foi
diferente com a crise do Covid-19.
Ela evidenciou que a ponta da civilização humana
pode estar se aproximando perigosamente de situações limite. A urbanização
extrema, a mobilidade de massas, a velocidade de processos e mudanças, a
concentração de ramos econômicos inteiros em poucos megaempreendimentos, para
citar alguns tópicos, geraram fragilidades e vulnerabilidades por muito tempo
negligenciados, ou então projetadas para planos de irrelevância.
Mas, ela evidenciou também uma enorme
capacidade de adaptação diante de ameaças à saúde, segurança e à própria vida,
seja no plano individual, seja no coletivo. As populações de vários países com
várias colorações políticas conseguiram impor o bom senso, demonstrar
solidariedades de toda natureza e aceitar restrições pessoais mesmo contra
orientações dos respectivos governos na defesa de interesses meramente
econômicos.
Nossas vidas são regidas por aqueles aspectos
vitais e prioridades que julgamos importantes em cada momento e ambiente local.
É natural, portanto, que crises consigam redimensionar as importâncias e
relevâncias tanto pessoais, quanto coletivas. Guerras, epidemias e fenômenos
naturais têm causado profundos mudanças estruturais e comportamentais ao longo
da nossa história. Exemplos recentes foram uma onda de euforia e futilidades
depois da Primeira Guerra Mundial, logo depois seguida por uma explosão de
suicídios na crise econômica de 1929. Ou então o baby boom na Europa com a nova
prosperidade dos anos 1950.
E não será diferente com a atual pandemia.
Evidentemente é difícil precisar tais mudanças, mas, desde já, cabem alguns
questionamentos sobre o futuro:
- Que efeitos terá a experiência de uma
estreita convivência no âmbito familiar, provavelmente por um período de várias
semanas, sobre a vida futura de crianças e jovens, (uma situação jamais vivida
por seus pais)? A necessidade de mais disciplina, maior tolerância e respeito
pelo próximo certamente destoa com o atual padrão de vida de muitas famílias. É
valido esperar um fortalecimento de laços intrafamiliares. A normalidade no
meio rural de os filhos acompanharem o trabalho dos pais invade a família
urbana; de repente os filhos veem como os pais ganham o dinheiro para seu
sustento – e suas diversões. Poderá perfeitamente surgir uma maior procura por
moradias com espaço privativo para home office. - Por outro lado, porém, a
repentina cristalização de incompatibilidades pode sugerir uma maior cautela em
futuros relacionamentos. Será que a leitura ganha uma nova chance?
- A superficialidade, futilidade,
volatilidade e falta de comprometimento das ‘desbocadas’ amizades virtuais
sobreviverão à volta dos diálogos telefônicos ‘ouvido no ouvido’ e ‘olho no
olho’? Provavelmente sim, possivelmente mais filtradas. Em contrapartida, na
comunicação séria e de caráter funcional, as teleconferências e
videoconferências, ainda com variável relutância entre profissionais e
funcionários, revelar-se-ão como bastante racionais e práticas. A desnecessidade
da presença física pode representar ganhos (menos mobilidade), mas também gerar
a falta de contatos pessoais, às vezes decisivos em tomadas de decisão.
- Que efeitos terá a solidificação social, um
fenômeno observado no decorrer e como consequência de grandes crises? O debate
sobre o politicamente correto continuará relevante? Que importância negativa ou
positiva terão diversidades culturais? Talvez nos surpreenderemos com as
frivolidades e as ‘picuinhas’ do passado. Quanto estamos todos num pequeno
barco e as ondas crescem desaparecem os preconceitos e as diferenças e, dando
lugar à relevância dos valores do outro. Isso, seguramente reduzirá a
receptividade para fenômenos com racismo, xenofobia e outras hostilidades
intra-sociais.
- Até que grau podemos contar com a ciência
diante repentinas situações emergenciais? A inteligência científica tem suas
normas e seus protocolos a serem atendidos; a inteligência social, no entanto,
reage quase instantaneamente, resultando em atos de responsabilidade social
imediatos, flexíveis e ajustáveis. O covid-19 mostrou que o bom-senso
emergencial pode ser mais eficaz que a esperança por respostas da ciência. A
lição que fica: inteligência artificial sim, para um futuro próspero e
confortável, a redenção social, entretanto, está na essência humana, na garantia
da coexistência.
- A economia voltará a uma normalidade? Certamente
voltará, como sempre voltou depois de revezes históricos, que, aliás, nunca
chegaram a um colapso absoluto. A questão é qual será essa normalidade. Ela
certamente excluirá os excessos e as sofisticações de modernos conceitos
econômicos e administrativos como o just-in-time
global, cadeias de produção de grandes ramificações (o grupo Siemens alemão
possui hoje 90 mil subfornecedores localizados ao redor do mundo), Teremos, sem
dúvida, maiores reservas intermediárias, mas, por outro lado, sensíveis
desconcentrações com consequentes retornos à produção local, com óbvias
reestruturações dos mercados, incluindo reflexos sobre o de trabalho. A própria
economia de consumo deverá entrar discussões mais conclusivas.
- O vírus acelerou mudanças que na verdade já
despontaram no horizonte? A felicidade em pedestal de prosperidade material vem
sendo questionada há tempos. A repentina e explosiva aparição de uma desgraça de
âmbito mundial, destruindo vidas e valores materiais, não deverá passar sem
deixar reflexões sobre nossos valores, nosso estilo de vida, ambições e projetos,
enfim, um novo modelo existencial.
Além desses enfoques, muitas outras questões,
como a banalização da vida, o populismo político, a mobilidade abusiva, por
exemplo, ganharão respostas, talvez inusitadas. .
Não sabemos se nos encontramos ainda no
começo, no meio ou já próximo da superação desta provação. Mas ela passará.
Entende-la não como o fim, mas como um novo começo fará toda a diferença –
agora e depois!
Acredito na perspectiva de um mundo mais humano!
Acredito na perspectiva de um mundo mais humano!
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