sexta-feira, 3 de abril de 2020

Haverá um Depois.



Haverá um Depois
(‘There Will Be an Afterwards’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

“Através do Corona adaptaremos nossa inteira atitude diante da vida – no sentido de nossa existência como seres vivos no meio de outras formas de vida.” Slavoj Zizek, filósofo esloveno, março 2020.
Crises costumam evidenciar os aspectos que ficaram nas sombras do brilho dos bem sucedidos avanços e evoluções. Não foi diferente com a crise do Covid-19.
Ela evidenciou que a ponta da civilização humana pode estar se aproximando perigosamente de situações limite. A urbanização extrema, a mobilidade de massas, a velocidade de processos e mudanças, a concentração de ramos econômicos inteiros em poucos megaempreendimentos, para citar alguns tópicos, geraram fragilidades e vulnerabilidades por muito tempo negligenciados, ou então projetadas para planos de irrelevância.
Mas, ela evidenciou também uma enorme capacidade de adaptação diante de ameaças à saúde, segurança e à própria vida, seja no plano individual, seja no coletivo. As populações de vários países com várias colorações políticas conseguiram impor o bom senso, demonstrar solidariedades de toda natureza e aceitar restrições pessoais mesmo contra orientações dos respectivos governos na defesa de interesses meramente econômicos.
Nossas vidas são regidas por aqueles aspectos vitais e prioridades que julgamos importantes em cada momento e ambiente local. É natural, portanto, que crises consigam redimensionar as importâncias e relevâncias tanto pessoais, quanto coletivas. Guerras, epidemias e fenômenos naturais têm causado profundos mudanças estruturais e comportamentais ao longo da nossa história. Exemplos recentes foram uma onda de euforia e futilidades depois da Primeira Guerra Mundial, logo depois seguida por uma explosão de suicídios na crise econômica de 1929. Ou então o baby boom na Europa com a nova prosperidade dos anos 1950.
E não será diferente com a atual pandemia. Evidentemente é difícil precisar tais mudanças, mas, desde já, cabem alguns questionamentos sobre o futuro:
- Que efeitos terá a experiência de uma estreita convivência no âmbito familiar, provavelmente por um período de várias semanas, sobre a vida futura de crianças e jovens, (uma situação jamais vivida por seus pais)? A necessidade de mais disciplina, maior tolerância e respeito pelo próximo certamente destoa com o atual padrão de vida de muitas famílias. É valido esperar um fortalecimento de laços intrafamiliares. A normalidade no meio rural de os filhos acompanharem o trabalho dos pais invade a família urbana; de repente os filhos veem como os pais ganham o dinheiro para seu sustento – e suas diversões. Poderá perfeitamente surgir uma maior procura por moradias com espaço privativo para home office. - Por outro lado, porém, a repentina cristalização de incompatibilidades pode sugerir uma maior cautela em futuros relacionamentos. Será que a leitura ganha uma nova chance? 
- A superficialidade, futilidade, volatilidade e falta de comprometimento das ‘desbocadas’ amizades virtuais sobreviverão à volta dos diálogos telefônicos ‘ouvido no ouvido’ e ‘olho no olho’? Provavelmente sim, possivelmente mais filtradas. Em contrapartida, na comunicação séria e de caráter funcional, as teleconferências e videoconferências, ainda com variável relutância entre profissionais e funcionários, revelar-se-ão como bastante racionais e práticas. A desnecessidade da presença física pode representar ganhos (menos mobilidade), mas também gerar a falta de contatos pessoais, às vezes decisivos em tomadas de decisão.
- Que efeitos terá a solidificação social, um fenômeno observado no decorrer e como consequência de grandes crises? O debate sobre o politicamente correto continuará relevante? Que importância negativa ou positiva terão diversidades culturais? Talvez nos surpreenderemos com as frivolidades e as ‘picuinhas’ do passado. Quanto estamos todos num pequeno barco e as ondas crescem desaparecem os preconceitos e as diferenças e, dando lugar à relevância dos valores do outro. Isso, seguramente reduzirá a receptividade para fenômenos com racismo, xenofobia e outras hostilidades intra-sociais.
- Até que grau podemos contar com a ciência diante repentinas situações emergenciais? A inteligência científica tem suas normas e seus protocolos a serem atendidos; a inteligência social, no entanto, reage quase instantaneamente, resultando em atos de responsabilidade social imediatos, flexíveis e ajustáveis. O covid-19 mostrou que o bom-senso emergencial pode ser mais eficaz que a esperança por respostas da ciência. A lição que fica: inteligência artificial sim, para um futuro próspero e confortável, a redenção social, entretanto, está na essência humana, na garantia da coexistência.
- A economia voltará a uma normalidade? Certamente voltará, como sempre voltou depois de revezes históricos, que, aliás, nunca chegaram a um colapso absoluto. A questão é qual será essa normalidade. Ela certamente excluirá os excessos e as sofisticações de modernos conceitos econômicos e administrativos como o just-in-time global, cadeias de produção de grandes ramificações (o grupo Siemens alemão possui hoje 90 mil subfornecedores localizados ao redor do mundo), Teremos, sem dúvida, maiores reservas intermediárias, mas, por outro lado, sensíveis desconcentrações com consequentes retornos à produção local, com óbvias reestruturações dos mercados, incluindo reflexos sobre o de trabalho. A própria economia de consumo deverá entrar discussões mais conclusivas.
- O vírus acelerou mudanças que na verdade já despontaram no horizonte? A felicidade em pedestal de prosperidade material vem sendo questionada há tempos. A repentina e explosiva aparição de uma desgraça de âmbito mundial, destruindo vidas e valores materiais, não deverá passar sem deixar reflexões sobre nossos valores, nosso estilo de vida, ambições e projetos, enfim, um novo modelo existencial.
Além desses enfoques, muitas outras questões, como a banalização da vida, o populismo político, a mobilidade abusiva, por exemplo, ganharão respostas, talvez inusitadas. .
Não sabemos se nos encontramos ainda no começo, no meio ou já próximo da superação desta provação. Mas ela passará. Entende-la não como o fim, mas como um novo começo fará toda a diferença – agora e depois!
Acredito na perspectiva de um mundo mais humano!

Nenhum comentário:

Postar um comentário