Critica Incomoda?
Klaus H. G. Rehfeldt
Crítica*) incomoda? Incomoda sim, senão não seria crítica. Mas
exatamente pelo fato de incomodar nos faz ponderar, nos faz pensar, nos faz
refletir – salvo se nós nos julgarmos acima de qualquer crítica (neste caso, o
texto acaba aqui!).
A vida em
sociedade exige um comportamento, individual e coletivo, suficientemente ajustado,
que garanta a sobrevida e o bem-estar dessa sociedade e de seus membros. A
consequência inequívoca desse requisito é a harmonização de atos e atitudes dos
membros dessa sociedade no sentido de assegurar uma convivência aceitável a
todos. Entretanto, por vezes a natureza das pessoas, pelas mais diversas
causas, pode divergir com o socialmente aceitável e, assim, levar a críticas
com o simples objetivo de minimizar atritos e desavenças. Na maioria das vezes,
a sensatez das pessoas leva a revisões de suas posturas, ou a uma plausível
justificativa. A infalibilidade existe apenas na versão dogmática. Assim visto,
não há como negar o efeito construtivo da crítica justa. Para a injusta basta
descarta-la e ela geralmente acaba por desacreditar o crítico.
Imaginemos a
ausência de crítica. O resultado disso encontramos nos inúmeros casos
históricos de autocratas que, ao não admitir qualquer crítica de seus atos, resultaram
nos tiranos que a história conhece. Esses levantaram verdadeiras muralhas
contra contestações, e calabouços para o contestadores. E o exemplo dos
mandatários espelhava-se com frequência nos microcosmos – sacerdote,
empregador, pai e marido não toleravam crítica. Estruturas militares, nem
pensar.
O humanismo,
com a concepção da democracia como seu rebento político, começou a questionar e
colocar em dúvida tal infalibilidade autoconferida. O efeito não demora a aparecer.
A presença e atuação reguladora, fiscalizadora e jurídica dos poderes
legislativo e judiciário é inegavelmente benéfica à sociedade. O contencioso
político (de preferência com a proposta de alternativas) é parte inerente do
processo democrático em busca do melhor atendimento dos interesses e das
aspirações da maioria da população. Isto confere à crítica autenticidade objetiva
e desapaixonada, essencialmente necessária e permanentemente presente. E o
exercício de crítica é direito irrestrito de qualquer cidadão, coletivo ou
entidade. A negação desse direito significaria a ausência das condições mínimas
para a existência de qualquer sistema democrático. A crítica é peça central do
jogo democrático. Sua supressão abriria as portas a todo tipo de arbitrariedade,
abuso, prepotência e insanidade, culminando com alguma forma de totalitarismo e
tragédia social.
A crítica
incomoda? Incomoda, sim, mas disciplina e amadurece as decisões, controla os
atos e conduz o cidadão a uma vida respeitosa, tolerante e responsável em seu
meio. Aceitá-la ou não é fundamentalmente uma questão de maturidade,
discernimento e equilíbrio
*) Critica contestatória, fundamentada, isenta
e direcionada ao exercício e aos atos da função, não à pessoa autora.
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