quarta-feira, 15 de abril de 2020

Crítica Incomoda?



Critica Incomoda?

Klaus H. G. Rehfeldt

Crítica*) incomoda? Incomoda sim, senão não seria crítica. Mas exatamente pelo fato de incomodar nos faz ponderar, nos faz pensar, nos faz refletir – salvo se nós nos julgarmos acima de qualquer crítica (neste caso, o texto acaba aqui!).
A vida em sociedade exige um comportamento, individual e coletivo, suficientemente ajustado, que garanta a sobrevida e o bem-estar dessa sociedade e de seus membros. A consequência inequívoca desse requisito é a harmonização de atos e atitudes dos membros dessa sociedade no sentido de assegurar uma convivência aceitável a todos. Entretanto, por vezes a natureza das pessoas, pelas mais diversas causas, pode divergir com o socialmente aceitável e, assim, levar a críticas com o simples objetivo de minimizar atritos e desavenças. Na maioria das vezes, a sensatez das pessoas leva a revisões de suas posturas, ou a uma plausível justificativa. A infalibilidade existe apenas na versão dogmática. Assim visto, não há como negar o efeito construtivo da crítica justa. Para a injusta basta descarta-la e ela geralmente acaba por desacreditar o crítico.
Imaginemos a ausência de crítica. O resultado disso encontramos nos inúmeros casos históricos de autocratas que, ao não admitir qualquer crítica de seus atos, resultaram nos tiranos que a história conhece. Esses levantaram verdadeiras muralhas contra contestações, e calabouços para o contestadores. E o exemplo dos mandatários espelhava-se com frequência nos microcosmos – sacerdote, empregador, pai e marido não toleravam crítica. Estruturas militares, nem pensar.
O humanismo, com a concepção da democracia como seu rebento político, começou a questionar e colocar em dúvida tal infalibilidade autoconferida. O efeito não demora a aparecer. A presença e atuação reguladora, fiscalizadora e jurídica dos poderes legislativo e judiciário é inegavelmente benéfica à sociedade. O contencioso político (de preferência com a proposta de alternativas) é parte inerente do processo democrático em busca do melhor atendimento dos interesses e das aspirações da maioria da população. Isto confere à crítica autenticidade objetiva e desapaixonada, essencialmente necessária e permanentemente presente. E o exercício de crítica é direito irrestrito de qualquer cidadão, coletivo ou entidade. A negação desse direito significaria a ausência das condições mínimas para a existência de qualquer sistema democrático. A crítica é peça central do jogo democrático. Sua supressão abriria as portas a todo tipo de arbitrariedade, abuso, prepotência e insanidade, culminando com alguma forma de totalitarismo e tragédia social.
A crítica incomoda? Incomoda, sim, mas disciplina e amadurece as decisões, controla os atos e conduz o cidadão a uma vida respeitosa, tolerante e responsável em seu meio. Aceitá-la ou não é fundamentalmente uma questão de maturidade, discernimento e equilíbrio

*) Critica contestatória, fundamentada, isenta e direcionada ao exercício e aos atos da função, não à pessoa autora.

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