O Protocolo “V”
Klaus H. G. Rehfeldt
Vale
uma aposta sobre o nome, pois ele virá, o vírus de uma próxima e diferente epidemia.
Nada mudou nas nossas condições civilizatórias ou nos ecossistemas que
permitisse assegurar o não surgimento de uma nova cepa de vírus ou da mutação
de um vírus anterior, já inofensivo ao homem.
A única mudança que continua em curso desde
os primórdios do homem sobre a Terra e com reflexos sobre a aparição e
disseminação de uma nova epidemia é a permanente dinâmica demográfica. E esta é
absolutamente desfavorável com relação ao aspecto epidemiológico em virtude da contínua
expansão populacional, embora ultimamente mais modesta. Ao crescimento absoluto
da população mundial soma-se um agravante igualmente em progressão: a crescente
urbanização com um simultâneo e perigoso aumento da densidade populacional no
próprio ambiente urbano devido ao crescimento vertical com unidades
habitacionais cada vez menores.
O covid-19, com sua incidência potencializada
nos centros urbanos, parece ter provado que nestes ambientes ultrapassamos a
massa crítica, permitindo uma irrupção e expansão em cadeia e resultando em
dimensões epidémicas em rápida propagação. Alguns mais, outros menos,
dependendo de onde os países se encontravam na cadeia de alastramento da doença,
todos foram pegos de imprevisto e em variáveis estados de despreparo. Assim, sobre
as medidas a tomar apareceram as mais
controvertidas opiniões, entre técnico-cientificas e leigas, com e sem
interesses específicos, chegando a manifestações de absoluta leviandade e clara
irresponsabilidade. Isso contribuiu para que além do medo natural se instalasse
na população uma imensa incerteza e insegurança, continuamente alimentadas por
indefinições e vacilações por parte de muitas lideranças. A falta de um preparo
específico para o combate da doença resultou em confrontação dos princípios
sanitárias com as concepções econômicas em vez da busca de uma junção
conciliatória entre os dois. Vimos como a falta de clareza para o povo gera
atos e atitudes inconsequentes e inadmissíveis.
Esta pandemia, com certeza passará como todas
as anteriores da nossa história, porém, a eclosão de uma nova epidemia, ou pandemia,
é igualmente certa e apenas uma questão de tempo. Diante disso, cabe que desta
vez se tome uma iniciativa nunca antes considerada seriamente. Não sabendo o
momento do próximo evento, seja ele uma nova epidemia com um novo patógeno,
seja a replicação de um anterior, urge a imediata elaboração de um protocolo de
prevenção e de enfrentamento e de prevenção; de enfrentamento para quando e onde
a doença já eclodiu e de prevenção para quando e onde ela pode se alastrar. E
isto com a perspectiva em mente que enquanto e onde a população estiver aumentando
os efeitos de expansão tenderão a ser mais graves.
Os ministérios de defesa das nações possuem
seus protocolos de prevenção e de resposta a qualquer tipo de agressão bélica,
cabe aos ministérios de saúde ter os seus para agressões patológicas.
Certamente deverão constar dos mesmos tópicos como poderes e atribuições, estoques
mínimos e rotativos e reservas estratégicas de instalações emergenciais,
materiais e aparelhamentos, mas também procedimentos claramente definidos de
intervenção e modalidades de isolamentos e distanciamentos sociais, manutenção
medicinalmente assistida de atividades essenciais, restrições de mobilidade, enfim,
cobrir todas as fragilidades constatadas no corrente episódio e seus
desdobramentos possíveis.
Rotinas e medidas assim definidas e
estabelecidas trarão, sem dúvida, respostas complementares de políticas de
assistência socioeconômica, a assumpção do eventual ônus da criação de
independência de fornecedores mono- ou oligopolistas globais no caso de
produtos de curta validade, entre muitas outras. Além de evitar improvisações,
atropelos e assintonias em decisões emergenciais, o saber da existência de um
protocolo ampla e detalhadamente preparado e aplicado garante maior
tranquilidade na população, extremamente necessária em momentos dessa natureza
– e os sadios e os curados agradecem. O que o cidadão mais deseja em momento de crise é poder confiar em seus líderes.
Pode surgir o argumento que tudo isso ser
coisa para país rico. Não é. A prevenção, especialmente na saúde, sempre é mais
barata que a remediação, sabendo que para óbitos não há remediação.
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