terça-feira, 7 de abril de 2020

O Protocolo "V"



O Protocolo “V”

Klaus H. G. Rehfeldt

Vale uma aposta sobre o nome, pois ele virá, o vírus de uma próxima e diferente epidemia. Nada mudou nas nossas condições civilizatórias ou nos ecossistemas que permitisse assegurar o não surgimento de uma nova cepa de vírus ou da mutação de um vírus anterior, já inofensivo ao homem.
A única mudança que continua em curso desde os primórdios do homem sobre a Terra e com reflexos sobre a aparição e disseminação de uma nova epidemia é a permanente dinâmica demográfica. E esta é absolutamente desfavorável com relação ao aspecto epidemiológico em virtude da contínua expansão populacional, embora ultimamente mais modesta. Ao crescimento absoluto da população mundial soma-se um agravante igualmente em progressão: a crescente urbanização com um simultâneo e perigoso aumento da densidade populacional no próprio ambiente urbano devido ao crescimento vertical com unidades habitacionais cada vez menores.
O covid-19, com sua incidência potencializada nos centros urbanos, parece ter provado que nestes ambientes ultrapassamos a massa crítica, permitindo uma irrupção e expansão em cadeia e resultando em dimensões epidémicas em rápida propagação. Alguns mais, outros menos, dependendo de onde os países se encontravam na cadeia de alastramento da doença, todos foram pegos de imprevisto e em variáveis estados de despreparo. Assim, sobre as medidas a tomar  apareceram as mais controvertidas opiniões, entre técnico-cientificas e leigas, com e sem interesses específicos, chegando a manifestações de absoluta leviandade e clara irresponsabilidade. Isso contribuiu para que além do medo natural se instalasse na população uma imensa incerteza e insegurança, continuamente alimentadas por indefinições e vacilações por parte de muitas lideranças. A falta de um preparo específico para o combate da doença resultou em confrontação dos princípios sanitárias com as concepções econômicas em vez da busca de uma junção conciliatória entre os dois. Vimos como a falta de clareza para o povo gera atos e atitudes inconsequentes e inadmissíveis.
Esta pandemia, com certeza passará como todas as anteriores da nossa história, porém, a eclosão de uma nova epidemia, ou pandemia, é igualmente certa e apenas uma questão de tempo. Diante disso, cabe que desta vez se tome uma iniciativa nunca antes considerada seriamente. Não sabendo o momento do próximo evento, seja ele uma nova epidemia com um novo patógeno, seja a replicação de um anterior, urge a imediata elaboração de um protocolo de prevenção e de enfrentamento e de prevenção; de enfrentamento para quando e onde a doença já eclodiu e de prevenção para quando e onde ela pode se alastrar. E isto com a perspectiva em mente que enquanto e onde a população estiver aumentando os efeitos de expansão tenderão a ser mais graves.
Os ministérios de defesa das nações possuem seus protocolos de prevenção e de resposta a qualquer tipo de agressão bélica, cabe aos ministérios de saúde ter os seus para agressões patológicas. Certamente deverão constar dos mesmos tópicos como poderes e atribuições, estoques mínimos e rotativos e reservas estratégicas de instalações emergenciais, materiais e aparelhamentos, mas também procedimentos claramente definidos de intervenção e modalidades de isolamentos e distanciamentos sociais, manutenção medicinalmente assistida de atividades essenciais, restrições de mobilidade, enfim, cobrir todas as fragilidades constatadas no corrente episódio e seus desdobramentos possíveis.
Rotinas e medidas assim definidas e estabelecidas trarão, sem dúvida, respostas complementares de políticas de assistência socioeconômica, a assumpção do eventual ônus da criação de independência de fornecedores mono- ou oligopolistas globais no caso de produtos de curta validade, entre muitas outras. Além de evitar improvisações, atropelos e assintonias em decisões emergenciais, o saber da existência de um protocolo ampla e detalhadamente preparado e aplicado garante maior tranquilidade na população, extremamente necessária em momentos dessa natureza – e os sadios e os curados agradecem. O que o cidadão mais deseja em momento de crise é poder confiar em seus líderes.
Pode surgir o argumento que tudo isso ser coisa para país rico. Não é. A prevenção, especialmente na saúde, sempre é mais barata que a remediação, sabendo que para óbitos não há remediação.  

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