sábado, 27 de junho de 2020

Uma Catástrofe Natural



Uma Catástrofe Natural

(‘A Natural Catastrophe’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

Embora tivesse havido alguma relutância inicia, existe hoje consenso de que no caso da pandemia Covid-19 não se trata de uma simples surto que permita compromissos em prejuízo de medidas sanitárias radicais e consequentes, mas de umas catástrofe natural a ser enfrentada com todo rigor..
O que tem dificultado a compreensão da gravidade da situação, seja por parte das autoridades governamentais, seja pela própria população em risco, são particularidades da atual calamidade, diferentes daquilo que conhecemos como catástrofe. Tsunamis, erupções vulcânicas ou excessos climáticos. Tais fenômenos costumam ter delimitações geográficas e temporais com impactos maciços sobre as áreas atingidas e com duração relativamente curta, e com perdas trágicas em vidas e valores. São milhares, dezenas de milhares de vidas perdidas e destruições quase instantâneas, mas sem o efeito de uma propagação territorial e de número de óbitos. Na época da comunicação digital, episódios dessa natureza ganham visibilidade imediata e dramática.  
A catástrofe do coronavírus é diferente. Ela apresenta-se inicialmente de forma concentrada e bem delimitada. Não demorou, contudo, sua expansão territorial, não avançando de país em país como os exércitos mongóis de Genghis Khan, mas seguindo as modernas rotas aéreas intercontinentais. Resultou daí em curto prazo o surgimento da doença em inúmeros lugares pontuais ao redor do planeta. A epidemia evoluiu para uma pandemia, especialmente nos centros urbanos.
Nessa expansão difusa reside um dos motivos da relativa indiferença da população e de alguns governos, numa relação dialética, diante da catástrofe. Mas também a incredulidade quanto à sua gravidade e aos enfrentamentos necessários devido à diversidade de discursos encontra suporte em diversos fenômenos presentes no ambiente social. São teorias de conspiração que geram insegurança, é a indiferença diante da desgraça do outro e a banalização do sofrimento e da morte, que começa nos games e chega à rua em frente de casa. É a atitude do capitão de navio em perigo que se preocupa mais com a carga do que com a vida dos passageiros, ou o difundido descrédito a mídia profissional, mais também é a simples falta de civilidade.
Há até hoje no mundo quase 10 milhões de pessoas contaminadas e perto dos 500 mil óbitos (no Brasil, perto de 1,3 milhão e 56 mil, respectivamente) e a garantia para a subsistência e expansão do vírus são sempre novas pessoas vulneráveis (ainda não imunes). Encontramo-nos numa evolução pandêmica sem fim previsível. Por uma lado falta uma medicação específica e eficaz, por outro, a solução definitiva reside na ansiosamente aguardada descoberta de uma vacina eficiente, mas cabe lembrar que ainda não temos vacinas contra o HIV e a dengue depois de décadas de pesquisa.
A história nos ensina que o menosprezo a riscos e perigos reais só tem agravado os problemas. Teoricamente, a identificação no surgimento dos primeiros casos com as devidas medidas de isolamento poderia ter extinto a propagação do vírus na origem. Na prática, ele prosperou devido ao despreparo – perfeitamente justificável por se tratar de vírus desconhecido – das autoridades sanitárias. A conjugação desses dois fatos autoriza uma conclusão: quanto mais rigor na aplicação dos (lamentavelmente, poucos) recursos disponíveis, melhores as chances de refrear o avanço da pandemia.
Diante da amplitude do fenômeno cabe às competentes autoridades governamentais assumir o comando sobre o controle e as medidas de enfrentamento do próprio problema e das consequências. O êxito dessas medidas, porém, está nas mãos, melhor, na cabeça, de cada cidadão, agindo e se comportando de maneira sensata, responsável e cívica na proteção da própria integridade física e em defesa da saúde alheia. A catástrofe expande-se de pessoa em pessoa, não de decreto em decreto. Cada um pode, por leviandade ou descuido próprio, ou de outrem, levar a qualquer momento o vírus para dentro de sua família ou círculo de amigos.
Nunca vivemos tão densamente concentrados. Isso suscita um corolário: nunca foi tão importante pensar e agir tão coletiva e solidariamente, com tanto respeito pelo próximo. Não há catástrofe sem perdas. Mas, quantas perdas, depende do grau de responsabilidade civil e social de cada um – depende da minha máscara e da minha distância aos outros.   


sábado, 20 de junho de 2020

O Suicídio das Mídias Sociais



O Suicidio das Redes Sociais

(‘The Suicide of Social Medias’ – This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)


Klaus H. G. Rehfeldt

Era um encanto na comunicação interpessoal. A comunicação em tempo real, sem custo, sem “Caro Senhor...”, “Prezada Tia...” e outras formalidades flui fácil, basta um “oi” ou ”olá”. A leveza da forma, combinada com a amenidade dos conteúdos, tornam a participação prazerosa e divertida. Lembretes de aniversário ou compromissos, misturados com receitas de bolo, anedotas, curiosidades e até esquesitices, despertam os mais diversos interesses, atrativos e fascínios. Fotos, vídeos e versos completam o cenário.
            Algumas mais cedo, outras mais tarde, as pessoas ativas nas redes sociais descobriram que, sem maior esforço, tinham conquistado palcos e auditórios – e muito mais aplausos do que críticas. Mas, emerge um problema: como preencher esse palco e abastecer o público continuamente com matéria nova, e como manter e aumentar as ‘curtidas’ e os ‘compartilhamentos’?
A resposta era fácil de encontrar: mensagens mais sensacionais, mais bombásticas, mais catastróficas – e nem sempre verdadeiras. Nasceu a fake news, embora o batismo pelo presidente Trump tenha demorado alguns anos. E na falta de material próprio, existe o ‘encaminhado’ – sem critério, sem verificação de fonte ou de veracidade.
A infeliz e condenável divisão política da nação em ‘nós’ e ‘eles’ proporciona e reforça uma nova dimensão à mídia social – xingamentos, baixaria, injúrias, ofensas e difamações que ‘nós’ jamais dirigiríamos a ‘eles’ em contato pessoal Só falta a bruxartia (será que falta?). O que deveria ser uma discussão civilizada e democrática sobre diferenças descambou para o ódio ‘encaminhado’ e anônimo. Fanatismos cegos produzem postagens inconsequentes e frequentemente inverídicas que, quando questionadas, são, por falta de argumentos, respondidos com grosserias. Ao lado disso e operando de maneira semelhante, as redes sociais transformam-se em plataformas para a divulgação de teorias de conspiração.
O que era inicialmente um meio de entretenimento, de diversão e de comunicação fácil, eficiente e sem complicações torna-se um campo de batalha de ideologias, de fake news irresponsáveis e de exteriorização de baixezas e futilidades absolutamente desprezíveis. Um stress total.
São cada vez mais raras hoje as contribuições e postagens de cunho realmente social, interessantes, construtivas, genuinamente curiosas e divertidas. Deram espaço à radicalização, confrontação e segregação. Fato é que tais manifestações não condizem com a postura da maioria das pessoas, que preferem um clima mais harmonioso, mais tolerante e mais social.
Resultam daí algumas perguntas e respostas razoavelmente presumíveis:
- Pode se esperar uma mudanças nesses comportamentos desvirtuados? Não há sinais nessa direção.
- As pessoas costumam torturar-se voluntariamente com aquilo que as desagrada? O masoquismo é fenômeno raro.
- Há algum aspecto positivo na evolução qualitativa das postagens? Definitivamente não, com tendência a piorar.
Diante disso, a conclusão parece bastante clara. As redes sociais merecem cada vez menos fé. Consequentemente, as redes sociais atualmente em uso tenderão a auto-extinguir-se, ou, no máximo, prevalecer entre os apreciadores de baixo padrão e baixo calão. A constante queda de ‘curtidas’ dá uma mensagem clara; outro indicador é a ausência, há muito tempo, de anúncios pelas redes de novos usuários. Tudo indica que as atuais redes sociais serão outro fenômeno digital de curta duração.       






sexta-feira, 12 de junho de 2020

A Sala de Visitas



A Sala de Visitas

Klaus H. G. Rehfeldt

Quando conheci o Brasil, lá nos anos de 1950, uma peça indispensável das casas brasileiras era a sala de visita, a vitrina da casa. E essa peça fazia jus ao nome. Mesmo que ocupasse boa parte do espaço da casa e mobiliada e decorada com certo luxo, seu uso se restringia ao recebimento de visitas e a raros momentos de celebração, como o Natal, uma batismo, ou o casamento da filha. Durante o resto do tempo, esse recinto permanecia com a porta fechada e, eventualmente, chaveada.
A mudança desvirtuadora nessa realidade tradicional decorreu de uma invenção tecnológica e de efeito revolucionário na vida familiar: a televisão. Essa maravilha, o mundo visível na minha casa, objeto caro e de distinção social, não podia receber pedestal melhor que o balcão na sala de visita. Com isso caiu a inacessibilidade desse recinto restrito, pelos membros da casa – e os televizinhos.
A mais recente racionalização de espaços, mormente em apartamentos, criou um novo ambiente, nas plantas designado como ‘Estar”, a sala de estar e sala de jantar conjugadas com a televisão visível de ambos. As moradias encolheram.
Repentinamente, por ação do ‘novo caronavirus’, conceitos que lentamente germinavam nos respectivos ambientes projetaram-se para dentro das moradias: o ensino remoto, ou a distância, e o home working. O ‘fique-em-casa’ atribuiu novas funções ao ‘estar’: o home office, a sala de aula e o playground. O ‘fique-em-casa” é transitório, os efeitos, parece que não.
Considerando que esse não deverá ser o último vírus, algumas decorrências do isolamento social revelaram na sua aplicação vantagens já imaginadas pelos futurólogos.
O home schooling, por exemplo, não é exatamente uma novidade, e existe em pequena escala e em diversas modalidades há muito tempo nos Estados Unidos e na Europa. Recursos digitais e modernas estratégias pedagógicas em ensino remoto reforçaram a validade da concepção, que, naturalmente, requer ajustes em combinação com o ensino presencial, independentemente de uma reforma radical do ensino e de seus conteúdos. Certamente, o ensino não voltará por muito tempo ao padrão tradicional, transferindo boa parte de sua programação para fora da sala de aula – e para dentro de casa. A alfabetização pelo smartphone continuará ilusão por muito tempo?
O home working, no entanto, parece prometer resultados mais imediatos e concretos, até porque a ideia já está sendo praticada em pequena escala. A Covid-19 forçou muitas empresas a medidas e soluções quase imediatas, aparentemente com resultados positivos. De repente surgiram racionalidades e produtividades surpreendentes e não necessariamente imaginadas ou dimensionadas em eventuais projetos de home working pré-coronavírus. Tudo indica que se trata de uma nova realidade em consolidação e expansão.  
Ambas as transferências para dentro do lar compensam efeitos colaterais cada vez mais problemáticos como a sobrecarga dos sistemas de mobilidade e a consequente perda de tempo nas idas e vindas entre a casa e o local de trabalho ou a escola, mas também permitem a cogitação de uma interiorização, evadindo-se das concentrações urbanas.  
A sala de visitas não voltará e a moradia tenderá a ser um mero dormitório familiar. O lar ganhou uma nova dimensão – ou recuperou aquela, há muito, perdida, se lembramos a antiga reunião da oficina do artífice ou da loja do comerciante com as respectivas moradias debaixo de um mesmo telhado. Moradias de 100 ou 120 metro quadrados talvez não conseguirão abrigar as dimensões da nova vida familiar, exigindo respostas novas no âmbito unitário ou nos espaços comuns – com uma garagem a menos. Arquitetura e mercado imobiliário terão novos desafios.


sábado, 6 de junho de 2020

A Inovação, de Perene a Natimorta



A Inovação, de Perene a Natimorta


(‘Innovation, from Prennenial to Stillborn‘ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

Uma interminável sequência de descobertas e inovações tem caracterizada a existência do homem sobre a Terra desde o tempo da pedra lascada. Ao longo de dezenas, centenas de milhares de anos, ferramentas rudes e armas simples foram aperfeiçoados enquanto o homem avançava sobre os continentes, enfrentando novos climas, novos biomas e encontrando novas fontes de recursos naturais. A lentidão com que as invenções aconteciam fica evidenciada com o espaço de tempo de cerca de 5.000 anos que transcorreram entre as primeiras formas de escrita e a imprensa inventada por Gutemberg. Mesmo em tempos mais recentes, as invenções ocorreram em ritmo extremamente moroso: a adaptação do aproveitamento do vento através das velas de embarcações para uso em moinhos de vento levou cerca de 800 anos.
Entre as incontáveis inovações com o fim de tornar a vida humana mais segura e confortável, algumas tiveram impactos revolucionários e resultados que dinamizaram e mudaram o curso da história. A roda, o arado, o papel, a tipografia, a máquina a vapor, o telégrafo, a calculadora analógica, o automóvel, a lâmpada elétrica e o computador talvez sejam as mais importantes. Todos estes inventos, ou suas versões aperfeiçoadas, fazem parte da nossa vida até hoje. Um fator marcante na sequência dessas inovações é o progressivo encurtamento de intervalos entre seus surgimentos.
Significativo nessa aceleração é que os milênios ou séculos que inicialmente separaram uma invenção da outra reduziram-se a gerações até, em seus últimos eventos, acabaram a concentrar-se no espaço de uma única geração. A adaptação a novos condicionantes e padrões de vida que transcorria lentamente na passagem de civilizações inteiras, depois ao longo de várias gerações, ultimamente exigem que as mesmas pessoas precisam ajustar-se em diversos momentos de sua vida a novos conhecimentos e inusitados paradigmas de comportamento.
Especialmente, desdobramentos de invenções anteriores, às vezes de antigos conhecimentos em modernos contextos técnicos, econômicos e sociais, brotam a cada instante, contribuindo para novas facilidades – reais e imaginárias – da vida, obviamente com novos requisitos cognitivos e habilidades para o usuário – e novos custos. Nossa atual economia de consumo gira em torno desse fenômeno de permanentes invenções, reinvenções e reformatações.
Mas, a velocidade com que surgem – e desaparecem – novos inventos e seus efeitos abriga uma armadilha; a saturação do interesse e um consequente indiferença. As montadoras de automóveis têm as gavetas cheias de patentes de inovações que aplicam lentamente em seus novos modelos, evitando excessos de inovações. Elon Musk, dono da Tesla, SpaceX e outros empreendimentos de ponta, não registra mais patentes de suas invenções pelo simples fato das mesmas serem superadas tão rapidamente que qualquer cópia chega tarde e desatualizada ou superada ao mercado.
Smartphone, smartwatch, smart-qualquer-coisa, a próxima versão é projetada enquanto a anterior ainda está sendo lançada. A moderna invenção: prólogo e epílogo no mesmo parágrafo, na mesma frase, na mesma concepção, na mesma ideia.