A Sala de Visitas
Klaus H. G. Rehfeldt
Quando
conheci o Brasil, lá nos anos de 1950, uma peça indispensável das casas
brasileiras era a sala de visita, a vitrina da casa. E essa peça fazia jus ao
nome. Mesmo que ocupasse boa parte do espaço da casa e mobiliada e decorada com
certo luxo, seu uso se restringia ao recebimento de visitas e a raros momentos de
celebração, como o Natal, uma batismo, ou o casamento da filha. Durante o resto
do tempo, esse recinto permanecia com a porta fechada e, eventualmente,
chaveada.
A mudança desvirtuadora nessa realidade
tradicional decorreu de uma invenção tecnológica e de efeito revolucionário na
vida familiar: a televisão. Essa maravilha, o mundo visível na minha casa, objeto
caro e de distinção social, não podia receber pedestal melhor que o balcão na
sala de visita. Com isso caiu a inacessibilidade desse recinto restrito, pelos
membros da casa – e os televizinhos.
A mais recente racionalização de espaços,
mormente em apartamentos, criou um novo ambiente, nas plantas designado como
‘Estar”, a sala de estar e sala de jantar conjugadas com a televisão visível de
ambos. As moradias encolheram.
Repentinamente, por ação do ‘novo caronavirus’,
conceitos que lentamente germinavam nos respectivos ambientes projetaram-se
para dentro das moradias: o ensino remoto, ou a distância, e o home working. O ‘fique-em-casa’ atribuiu
novas funções ao ‘estar’: o home office,
a sala de aula e o playground. O ‘fique-em-casa” é transitório, os efeitos, parece
que não.
Considerando que esse não deverá ser o último
vírus, algumas decorrências do isolamento social revelaram na sua aplicação
vantagens já imaginadas pelos futurólogos.
O home
schooling, por exemplo, não é exatamente uma novidade, e existe em pequena
escala e em diversas modalidades há muito tempo nos Estados Unidos e na Europa.
Recursos digitais e modernas estratégias pedagógicas em ensino remoto reforçaram
a validade da concepção, que, naturalmente, requer ajustes em combinação com o
ensino presencial, independentemente de uma reforma radical do ensino e de seus
conteúdos. Certamente, o ensino não voltará por muito tempo ao padrão
tradicional, transferindo boa parte de sua programação para fora da sala de
aula – e para dentro de casa. A alfabetização pelo smartphone continuará ilusão
por muito tempo?
O home
working, no entanto, parece prometer resultados mais imediatos e concretos,
até porque a ideia já está sendo praticada em pequena escala. A Covid-19 forçou
muitas empresas a medidas e soluções quase imediatas, aparentemente com
resultados positivos. De repente surgiram racionalidades e produtividades surpreendentes
e não necessariamente imaginadas ou dimensionadas em eventuais projetos de home working pré-coronavírus. Tudo
indica que se trata de uma nova realidade em consolidação e expansão.
Ambas as transferências para dentro do lar
compensam efeitos colaterais cada vez mais problemáticos como a sobrecarga dos
sistemas de mobilidade e a consequente perda de tempo nas idas e vindas entre a
casa e o local de trabalho ou a escola, mas também permitem a cogitação de uma interiorização,
evadindo-se das concentrações urbanas.
A sala de visitas não voltará e a moradia
tenderá a ser um mero dormitório familiar. O lar ganhou uma nova dimensão – ou
recuperou aquela, há muito, perdida, se lembramos a antiga reunião da oficina
do artífice ou da loja do comerciante com as respectivas moradias debaixo de um
mesmo telhado. Moradias de 100 ou 120 metro quadrados talvez não conseguirão
abrigar as dimensões da nova vida familiar, exigindo respostas novas no âmbito
unitário ou nos espaços comuns – com uma garagem a menos. Arquitetura e mercado
imobiliário terão novos desafios.
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