sexta-feira, 12 de junho de 2020

A Sala de Visitas



A Sala de Visitas

Klaus H. G. Rehfeldt

Quando conheci o Brasil, lá nos anos de 1950, uma peça indispensável das casas brasileiras era a sala de visita, a vitrina da casa. E essa peça fazia jus ao nome. Mesmo que ocupasse boa parte do espaço da casa e mobiliada e decorada com certo luxo, seu uso se restringia ao recebimento de visitas e a raros momentos de celebração, como o Natal, uma batismo, ou o casamento da filha. Durante o resto do tempo, esse recinto permanecia com a porta fechada e, eventualmente, chaveada.
A mudança desvirtuadora nessa realidade tradicional decorreu de uma invenção tecnológica e de efeito revolucionário na vida familiar: a televisão. Essa maravilha, o mundo visível na minha casa, objeto caro e de distinção social, não podia receber pedestal melhor que o balcão na sala de visita. Com isso caiu a inacessibilidade desse recinto restrito, pelos membros da casa – e os televizinhos.
A mais recente racionalização de espaços, mormente em apartamentos, criou um novo ambiente, nas plantas designado como ‘Estar”, a sala de estar e sala de jantar conjugadas com a televisão visível de ambos. As moradias encolheram.
Repentinamente, por ação do ‘novo caronavirus’, conceitos que lentamente germinavam nos respectivos ambientes projetaram-se para dentro das moradias: o ensino remoto, ou a distância, e o home working. O ‘fique-em-casa’ atribuiu novas funções ao ‘estar’: o home office, a sala de aula e o playground. O ‘fique-em-casa” é transitório, os efeitos, parece que não.
Considerando que esse não deverá ser o último vírus, algumas decorrências do isolamento social revelaram na sua aplicação vantagens já imaginadas pelos futurólogos.
O home schooling, por exemplo, não é exatamente uma novidade, e existe em pequena escala e em diversas modalidades há muito tempo nos Estados Unidos e na Europa. Recursos digitais e modernas estratégias pedagógicas em ensino remoto reforçaram a validade da concepção, que, naturalmente, requer ajustes em combinação com o ensino presencial, independentemente de uma reforma radical do ensino e de seus conteúdos. Certamente, o ensino não voltará por muito tempo ao padrão tradicional, transferindo boa parte de sua programação para fora da sala de aula – e para dentro de casa. A alfabetização pelo smartphone continuará ilusão por muito tempo?
O home working, no entanto, parece prometer resultados mais imediatos e concretos, até porque a ideia já está sendo praticada em pequena escala. A Covid-19 forçou muitas empresas a medidas e soluções quase imediatas, aparentemente com resultados positivos. De repente surgiram racionalidades e produtividades surpreendentes e não necessariamente imaginadas ou dimensionadas em eventuais projetos de home working pré-coronavírus. Tudo indica que se trata de uma nova realidade em consolidação e expansão.  
Ambas as transferências para dentro do lar compensam efeitos colaterais cada vez mais problemáticos como a sobrecarga dos sistemas de mobilidade e a consequente perda de tempo nas idas e vindas entre a casa e o local de trabalho ou a escola, mas também permitem a cogitação de uma interiorização, evadindo-se das concentrações urbanas.  
A sala de visitas não voltará e a moradia tenderá a ser um mero dormitório familiar. O lar ganhou uma nova dimensão – ou recuperou aquela, há muito, perdida, se lembramos a antiga reunião da oficina do artífice ou da loja do comerciante com as respectivas moradias debaixo de um mesmo telhado. Moradias de 100 ou 120 metro quadrados talvez não conseguirão abrigar as dimensões da nova vida familiar, exigindo respostas novas no âmbito unitário ou nos espaços comuns – com uma garagem a menos. Arquitetura e mercado imobiliário terão novos desafios.


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