Alfabetização
ou Competência Social?
Klaus H. G. Rehfeldt
Os tempos mudaram, o
homem mudou e consequentemente mudaram os requisitos na preparação para a vida.
Novos desafios vêm se impondo já há algum tempo sem, no entanto, com poucas
respostas concretas. Acidentalmente, todo o sistema educacional sofreu severos
impactos e rupturas devido à pandemia do covid-19. Resultaram disso muitas
tentativas de ajuste, algumas com perspectiva de se perpetuarem. Percebe-se um
certo esforço em adaptar métodos e estratégias de ensino aos requisitos
impostos e às facilidades oferecidas pela moderna civilização digital. Nada ou
muito pouco, porém, se vê no sentido de uma reorientação dos conteúdos
ensinados.
Isso
cria realidades absolutamente desfavoráveis à formação da criança. O
extremamente fácil e espontâneo acesso à informação, por exemplo, semeia e
desenvolve na criança um conhecimento impensável até na geração passada, de um
lado sintonizado com o nível de compreensão e interesse individual, de outro, bastante
difuso e desorganizado. Não se observa qualquer preocupação com o ordenamento
desse conhecimento no atual sistema educacional. Inadequações dessa ordem
alimentam cada vez mais respostas como, por exemplo, o home-schooling (no Brasil praticamente desconhecido, onde os
próprios país, na disponibilidade da devida orientação, assumem o ensino dos
filhos).
Igualmente
nas últimas décadas, cresceu constantemente o número de famílias com o casal
ocupado profissionalmente, resultando numa progressiva terceirização da função
familiar – especialmente no aspecto da formação de caráter e adequação
comportamental – para a escola sem que ela estivesse preparada para tal. As
consequências disso não demoraram a aparecer. Problemas de conflito de
convivência, como intolerância, falta de respeito com colegas e professores, bullyimg e outros entraram no cotidiano
escolar – sem encontrar respostas satisfatórias.
Essas
duas realidades conjugadas apontam para a necessidade do desenvolvimento de
Competência Social como primeiro conteúdo na vida escolar da criança. A
competência social da pessoa resulta da combinação da inteligência social, que
consiste na leitura e compreensão o meio social, com a responsabilidade social,
que constitui-se das respostas sociais que resultam dessa compreensão. Em outras
palavras, aprimorar uma apropriada interação social.
O
desenvolvimento da inteligência social é um processo natural na formação da
personalidade da pessoa desde a infância e é especialmente estimulado no
momento em que a criança é inserida em meios sociais mais amplos como a creche
ou escola. Mas é um processo que pode ser influenciado positiva ou
negativamente. Por exemplo, a criança nasce sem medos ou preconceitos. A
criação do medo age positivamente na construção de cautelas, por outro lado,
alimentação de preconceitos contribui, entre outros efeitos, para a segregação e
exclusão de indivíduos ou grupos. Percebe-se claramente a conveniência – talvez
a necessidade – de facilitar na criança uma leitura social apropriada.
Por
seu lado, a responsabilidade social, diferentemente do empirismo observado em
grande parte das práticas do meio empresarial, é a tradução dos resultados
dessa leitura em atos e atitudes socialmente corretos, aceitáveis e
facilitadores. Aspectos centrais na constituição de responsabilidades sociais
são o aprimoramento de uma comunicação clara e autoconfiante (onde o exemplo do
educador tem um papel importante), a aceitação do erro (próprio e alheio, tanto
no aspecto da responsabilidade quanto no da lição e do aprendizado), o lidar
com diferenças e as consequentes críticas positivas ou negativas, bem como a
evitação de conflitos, ou a aceitação de mudanças. No caso do universo infantil
é preciso respeitar e realimentar as motivações espontâneas e a imensa
capacidade criativa inata à criança.
A
construção de uma consistente competência social como ponto de partida na vida
escolar certamente assegurará uma convivência menos conflituosa para educadores
e educandos e, por conseguinte, um aprendizado mais racional, eficiente e
proveitoso. A posterior alfabetização e as primeiras continhas, com toda
certeza, serão mais produtivas.
Nota: Maiores detalhes sobre Competência Social
poderão ser encontrados no livro: Rehfeldt, Klaus H. G., ‘Competência Social – A
interação bem sucedida’, Amazon/Kindle, e-book