segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Demografia e Prosperidade

Demografia e Prosperidade

(‘Demographics and Prosperity’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Durante muito tempo da civilização humana, preponderantemente agrícola, a prosperidade da família dependia fortemente do tamanho da família. A riqueza da família, mas também do grupo, consistia na grande quantidade de filhos, na verdade, acompanhada de expressivos índices de mortandade infantil. Em tempos em que toda a energia provinha das mão do homem, eventualmente reforçada com a tração animal, mesmo o trabalho infantil produzia mais do que consumia. As populações cresciam a taxas em torno de 3% ao ano devido a também elevadas taxas de mortandade na média idade decorrentes de epidemias, fenômenos naturais e guerras. Resultavam daí baixas expectativas de vida.

Essa realidade perdurou até a invenção de nova fontes de energia e o surgimento de mais avançadas modalidades de ganho do sustento com a figura do assalariado, de oportunidades e modos de vida, mas especialmente de uma profunda mudança nos padrões sanitários e medicinais. Observa-se uma radical evolução de recursos existenciais pela disponibilidade de meios para uma vida em crescente prosperidade. De geração a geração aumenta a prosperidade e a conjuntura caminha em direção ao consumismo.

O que não mudou foi o modelo familiar com numerosos filhos, agora com taxas mais reduzidas de mortandade infantil e absorção da disponibilidade de mão-de-obra pelas atividades industriais em plena expansão. O avanço tecnológico serviu de combustível para uma economia de consumo cada vez mais intenso e extenso.

A combinação de dois fatores, na verdade interligados, causaram uma ruptura na evolução demográfica até aqui observada: uma disposição inusitada na mulher em buscar uma melhor educação e vontade de participar ativamente no mercado de trabalho, e o surgimento da pílula que permitiu um planejamento familiar beneficiando essa iniciativa.

As consequência não demoraram a aparecer. No curto espaço de duas gerações, as netas de avós com 6 filhos tiveram somente 2 ou apenas 1 filho. Um estudo longitudinal em 195 países (praticamente a nível mundial) de 1950 a 2019 concluiu que a taxa média de fecundidade despencou de 4,7 para 2,4 filhos por mulher, e em quase metade desses países essa taxa caiu para menos de 2 filhos, ou seja, abaixo da taxa de reposição da população (Brasil, 1,7 filho por mulher).

Por outro lado aumentou a expectativa de vida média mundial desde 1960 de 52,6 para atuais 72 anos, com valor máxima de 83 anos no Japão (Brasil, 76 anos). No entanto, o aumento da expectativa de vida não resulta apenas do prolongamento da vida dos idosos, mas também a meia idade ganha em extensão, incrementando a produtividade de vida das pessoas.

É importante notar, porém, que ambas as evoluções têm limite: a taxa de fertilidade deverá se estabelecer ao redor de 1,5 filho por mulher, e a expectativa de vida (hoje já fortemente sustentada por meios medicinais) dificilmente deverá ir muito além dos 90 anos por simples determinação biológica. Quanto mais a humanidade se aproximar desses valores, maior será o restabelecimento de um equilíbrio entre nascimentos e mortes, porém, com clara e inexorável queda da população.

Isso é ruim? Tudo indica que não. Numa economia de consumo, obviamente um crescimento negativo da população obviamente se traduz em consumo menor de bens e serviços, mas também de recursos e matérias primas, consequentemente de produção menor e – redução da mão-de-obra. Essa redução, entretanto, será compensado tanto pela diminuição da população, quanto pela automação e robotização das atividades já em curso, embora não se saiba hoje em que grau tal compensação se dará.

Outrossim, a transferência de bens para gerações cada vez menores resulta em natural aumento de patrimônio. Enquanto tradicionalmente o patrimônio dos pais era retalhado na distribuição entre 4, 5 ou mais filhos, com uma taxa de fertilidade abaixo de dois filhos por mulher haverá uma concentração de patrimônio acumulado com o trabalho de gerações anteriores.

No plano coletivo, futuras gerações encontrarão uma já existente infraestrutura, beneficiando uma população cada vez menor, assim proporcionando maior conforto em usá-la. Isso terá efeitos expressivos, por exemplo, na educação e formação das próximas gerações, mas também na qualidade de vida geral.

A perspectiva é essa: viver no Brasil daqui a uma geração com talvez 10 milhões a menos de habitantes, mas com toda a riqueza construída nesse período e anteriormente. Uma projeção animadora!

 

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