sexta-feira, 16 de outubro de 2020

China

 China

 

(“China” – This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Muito se discuta sobre o poder econômico e político da China na atualidade sob um aspecto central: a ameaça comunista que ela representa para o mundo. Uma argumentação, nem sempre baseado em maiores conhecimentos sobre esse pais.

A China já existiu como País do Meio nos tempos da guerra de Troia. Já fornecia seda para as damas do Império Romano através da Estrada da Seda de 6.400 quilómetros e viagens que levavam até dois anos. Existia na penumbra da história durante séculos até ser redescoberta com a expansão das rotas marítimas. Governos autocráticos fracos e corruptos permitiram uma colonização sui generis por parte da França, Inglaterra, Alemanha, dos Estados Unidos e do Japão. Enquanto persistia a nação politicamente independente, a ‘economia’ passou a ser realizada completamente por tais países, inclusive sob a legislação dos mesmos. Nos séculos 18 e 19, grandes partes do território chinês foram desmembradas e transformadas em territórios ultramarinos. Com direitos amputados no próprio país, a população, predominantemente agrícola, foi deixada numa pobreza extrema. Exemplo do grau de humilhação do povo chinês foi a praça no centro de Shanghai, frente ao Banco da China, ‘vedada a cachorros e chineses”.

 Com o fim da segunda guerra mundial e da ocupação japonesa surgiu um sentimento nacionalista forte e amplo. Novas lideranças políticas substituíram o regime imperial e na absoluta ausência de ativos públicos e privados, a venda do ideal comunista encontrou eco favorável no país e foi adotado como matriz política, até mesmo porque somente uma capitalização do estado oferecia chances de algum desenvolvimento. Não foi o modelo de comunismo russo envolvendo a demolição de uma estrutura social (embora precária), inexistente na China de então. Além disso, os causadores da situação calamitosa eram estrangeiros, o que muito contribuiu para um nacionalismo emergente, o que num regime socialista mais resultou em nacional-socialismo (o termo foi inviabilizado pela sua aplicação no Terceiro Reich) do que em comunismo na sua concepção clássica.

Levou algumas décadas para a constituição – com muito sacrifício para a população – de um capital de Estado suficientemente consistente para iniciar a realização de investimentos que permitissem uma nova realidade econômica direcionada para a formação de infraestruturas e a industrialização do país e que em curto espaço de tempo redundou num novo modelo de regime: uma nação, dois sistemas, onde o estado ‘comunista’ convive com uma economia de mercado, e isso com muito sucesso.

Há efetivas máculas inerentes a governos autoritários (violação de direitos humanos, intolerância a manifestações críticas, etc.) que merecem ser questionadas, mas o enfrentamento desses problemas é assunto estritamente interno da China.

O desconhecimento de todo esse passado e da história recente do país leva fatalmente a juízos falsos e conclusões equivocadas. Capitalismo e socialismo convergem cada vez mais para uma síntese social-capitalista. As economias capitalistas de mercado abrem-se cada vez mais para iniciativas em busca de melhorias sociais e regimes socialistas gradualmente incorporam princípios da livre iniciativa capitalista, e observa-se uma clara diluição nas frentes ideológicas.

Diferentemente da União Soviética na guerra fria, a China não tem qualquer interesse em ter o comunismo em sua agende de exportação. Seu único objetivo é firmar-se e expandir suas posições no mercado mundial e consolidar seu poder político, seguindo estratégias precisamente planejadas e executadas, sabidamente com muita frieza, energia e determinação. Atitudes consequentes sem concessões. “China first”, mas discretamente. Com condições geopolíticas para tal, o alcance de uma futura hegemonia mundial é mera consequência e segue a lei histórica da alternação dessa posição. No passado, tais mudanças eram causa ou consequência de conflitos bélicos, um cenário altamente improvável em nossos tempos. Alguém sempre estará na ponta. A forma de governo pouco influi nisso.

Fica evidente, assim, a inutilidade de querer refrear ou até impedir um processo evolutivo solidamente configurado. Ao contrário, cabe reconhecer essa realidade e estudar o quanto antes as formulas que permitam a melhor forma de convivência com novas realidades de política e economia internacional, garantindo progresso e prosperidade dentro da nova situação factual.

A China garantiu sua posição como player poderoso no mercado global com o qual a conciliação de interesses mútuos é essencial. O ‘nacional-comunismo chinês’ é antes de mais nada uma assunto interno da China. Divergências ideológicas são absolutamente secundárias, jamais devendo interferir num relacionamento respeitoso, pragmático e proveitosa entre as nações.          

 

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