sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Vacinas

 Vacinas

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Quem não conhece o passado não compreende o presente, muito menos consegue projetar um futuro.

Vacinas não são novidade como podíamos imaginar. Acredita-se que os experimentos com essa técnica começaram na China (talvez na Índia) já em torno de 200 a.C. Médicos chineses selecionaram pessoas com casos leves de varíola para obter uma proteção imunizante, removendo nos infectados crostas das marcas da doença. Os pedaços foram moídos em pó e inseridos no nariz da pessoa a ser imunizada. Uma ‘vacina’ que nunca saiu da Ásia e se perdeu nos tempo.

Na medicina mais moderna, porém, os médicos na Europa viam-se até o século XIX geralmente impotentes contra as epidemias generalizadas e recorrentes. Uma dessas doenças infecciosas generalizadas era a varíola, que matou cerca de 30% dos afetados ou deixou os sobreviventes frequentemente desfigurados por cicatrizes. Por outro lado, percebeu-se cedo que pessoas uma vez infectadas se tornaram imunes contra novos contágios. Esse conhecimento e outras suspeitas na mesma direção se tornariam a base para todos os trabalhos futuros em busca de imunizações.

Tais esforços eram desenvolvidos por médicos que dedicaram longos e longos anos a estudos, pesquisas, reformulações e recomeços, enfrentando riscos e fracassos paricias até chegar a resultados positivos. Edward Jenner, Theodor C. Eulner, Louis Pasteur, Roberto Koch, para citar apenas alguns nomes, empenharam-se por décadas até vir seus esforços coroados de êxito com as respostas positivas em seus pacientes. Doenças como difteria, raiva, tuberculose, tétano, entre outras tantas, puderam então ser evitadas mediante imunizações prévias. Iniciarem-se vacinações em grande escala resultando na exterminação de muitos flagelos históricos.

Embora as pesquisas pessoais continuassem, como no caso de Jonas Salk e Albert Sabin na busca da vacina contra a paralisia infantil, surgiram no século XX os grandes laboratórios farmacêuticos. Esforços individuais, até então orientados principalmente pelo serviço à ciência e o bem estar humano, passaram a ser desenvolvidos no modelo de laboratório industrial de forma programada e estruturada com o fim primordial de gerar lucros. Com isso, não apenas medicamentos, mas também vacinas puderam ser criados, produzidos e testados em tempos mais curtos e em grandes quantidades. Embora algumas pesquisas virais, como a da imunização contra o ebola, continuem sem resultados satisfatórios a décadas, tecnologias avançadas permitem hoje a criação de vacinas em questão de meses, como no caso do imunizante contra a gripe H1N1, ou do covid-19, com 160 laboratórios em todo mundo se empenhando paralelamente na descoberta, criação e produção da vacina mais eficiente. Curiosamente, grandes indústrias farmacêuticas surgiram em épocas recentes exatamente em locais que, há milhares de anos, eram palco de trabalhos pioneiros nesse ramo, a Índia e a China.

Sempre houve ao longo da história resistências contra a aplicação de vacinas, provindo das mais diversas origens como igrejas ou convicções pessoais, mas também de próprias áreas médicas, ou oriundas da ignorância popular, como ocorrido em 1904 no Rio de Janeiro (a Revolta da Vacina) contra a vacina da varíola, ou ainda da incompreensível discriminação da origem de vacinas, priorizando posições ideológicas sobre questões de saúde da própria população. Entretanto, por conhecimento dos benefícios ou puro bom senso, a grande maioria das populações tem aderido à vacinações de toda ordem, em proteção própria e do próximo.  

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