Eu, Ignaro
Digital
(„Me, a Digital Ignorant” - This text was
written in a way to ease comprehensive electronic translations)
Sexta-feira, 10 horas, recebo
no meu celular uma mensagem do tal whatsapp, informando a necessidade de
atualização do aplicativo e a consequente inserção de um código a ser recebido
pelo tal SMS (para mim, soa a indústria química). A experiência das coisas
reais e concretas dos meus 85 anos de vida recomenda atender ao apelo. Atendi,
e dancei!
Na
mesma sexta-feira, um pouco depois das 11 horas, toca o telefone e uma ex-colega
de faculdade, há anos no silêncio, quer confirmar um pedido meu de empréstimo
de dinheiro pelo whatsapp. Em seguida, um telefonema de Floripa pelo mesmo motivo,
logo mais, outro igual do Canadá, ... Apelo por ajuda a netos e amigos e fica
claro e urgente o próximo passo: correr à loja do meu servidor, deixando metade
do almoço no prato. Enquanto isso, minha mulher avisa em seu celular a todos os
amigos comuns sobre nossa vitimização pela violação cibernética (vulgo, crime
digital).
Lá
chegando e ao me ouvir, o atendente não conseguiu esconder, além de sua
gentileza profissional, um misto de expressão entre incompreensão e
misericórdia pela minha ignorância virtual. Mas valeu a disposição de me ajudar
mesmo fora dos serviços previstos e oferecidos pelo servidor. Claro, é loja,
não manual ao vivo. Resumo do resultado – esperar sete dias para uma reativação
do aplicativo.
O
próximo passo leva à delegacia de polícia para expedição de um boletim de
ocorrência (BO), afinal, a ação visa obter dinheiro de forma criminosa. E
recebo outra prova da minha incultura digital. Depois da primeira frase da
minha explicação, o delegado começou a digitar sem mais perguntas, somente a
hora do ocorrido. Recebo o documento e agradeço. Já, sentado no carro e lendo o
BO com uma exata descrição do ocorrido, invadiu-me um alívio imenso e uma
certeza – há mais, aparentemente muito mais, ignaros digitais (e muito mais
bandido digital do que imaginamos!). Como não recebi qualquer cobrança, concluo que ninguém caiu no golpe.
Existe
remédio, tem cura para mim? Não mais, mas tem neto que resolve (quase) tudo. O
que esses netos não sabem é que eles certamente chegarão a um momento de
tornarem-se ignaros das tecnologias que regerão sua vida aos 80 (ou já antes); afinal,
nossos avós sequer sabiam montar um rádio de galena, a máquina de escrever era
uma revolução, o campo era semeado à mão e a braguilha era com botão.
Estamos
caminhando para um mundo dividido numa elite digital e a massa de usuários – e
dependentes – dos recursos que tal elite disponibiliza?
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