Frágil, mas
Nocivo.
“Frail,
but Harmful”
– This text was written in a way to
ease comprehensive electronic translations)
Klaus H. G. Rehfeldt
Há mais de 10 mil anos e o homem, igual aos outros seres vivos, deixou de
viver numa simbiose perfeita com a natureza. Até então, caçador e coletor, era
elo integrado na fauna e fauna, de macro e micro-organismos. Ele competia com
outras criaturas pela sua existência, cada um dotado de constituição e
habilidades próprias para assegurar e defender sua vida. Sua liberdade
terminava nos seus limites físicos e mentais.
A fixação na terra e a
consequente urbanização começaram a mudar radicalmente esse estado de equilíbrio.
Enquanto os caçadores e colhedores extraiam da natureza somente o necessário
para viver, ou seja, essencialmente alimentos, a propriedade, seu
beneficiamento, sua manutenção e sua defesa passaram a requerer recursos
adicionais subtraídos da natureza, como pedras, madeira, colmo, mais tarde
minérios – e o trabalho alheio. Da vida na
natureza resultou uma vida da
natureza.
Ao longo dos tempos, à propriedade
somou-se a riqueza, isso é, a acumulação de bens prescindíveis ao atendimento
das necessidades básicas. Luxos a suntuosidades de poucos levaram aos nossos
dias de generalizado consumo irrefreado de supérfluos de toda espécie com
imensas necessidades de matérias primas, enorme consumo energético e
gigantescas produções de resíduos, lixos e poluentes sólidos, líquidos e gasosos.
Tudo para tornar nossas vidas mais ‘saudáveis’, fáceis e confortáveis. A Terra
supre da grama ao nióbio, e recebe produtos transformados e toxicamente concentrados
que deverá novamente integrar ao seu estado de equilíbrio físico, químico e
biológico.
A aspiração constante por uma vida
com mais saúde, facilidade e conforto trouxe inúmeros benefícios para a
humanidade, sejam eles materiais, ou imateriais. Mas ao mesmo tempo tornou o
homem crescentemente dependente das suas próprias conquistas civilizatórias. Salvo
algum lavrador lá do fim da picada, que cidadão moderno conseguiria
(sobre)viver na natureza por um tempo
mais prolongado? Bastaria um colapso total de energia de alguns dias (por
exemplo, decorrente de algum acidente cósmico, como uma erupção solar de maior
dimensão) – sem supermercados, combustíveis, TV, canais de comunicação,
simplesmente nada funcionando – e mais da metade da população nem sequer
chegaria a fontes naturais de alimentos e água que pudessem sustenta-la. Mesmo chegando
lá, os clicadores de smartphone saberiam como se beneficiar dos recursos desse
ambiente? Vivemos numa evolução tecnológica sem igual na nossa história, mas
faltam-nos tecnologia para avaliar e determinar, e coragem para assumir as consequências
danosos dos nossos abusos contra o planeta que nos abriga.
Por outro lado, a humanidade nunca
chegou a níveis tão elevados de expectativa de vida. Em parte, pela diminuição
da mortandade infantil ou em idades adultas – por enfermidades agudas, ou
crônicas –, mas também pela própria longevidade atingida por um número cada vez
maior de pessoas. Todos esses fatores, no entanto, têm uma causa: a medicina moderna.
A dimensão desse suporte à saúde fica clara quando sabemos que em 2018, a
receita gerada pela indústria global de alimentos e bebidas foi de US$ 8
trilhões, a propiciada pela indústria farmacêutica, de US$ 1,2 trilhões, item
que a 200 anos atrás era praticamente igual a zero. Em outras palavras, par
cada R$ 100 gastos para comida, outros R$ 15 pagam, medicamentos; obviamente
com maior concentração na população mais idosa com medicação contínua. Assim
surge a pergunta: quantas pessoas deixariam de estar entre nós sem tal suporte
medicinal? Prova atual dessa fragilidade evidencia-se na elevada taxa de mortandade
na combinação do corona-vírus covid-19 com comorbidades, ou seja, debilidades
preexistentes controladas, ou não, medicinalmente – assegurando artificialmente
condições de vida naturalmente improváveis, senão impossíveis. Na ausência de
medicação contínua, milhões de vidas seriam impensáveis, outras teriam essência,
mas sem autonomia.
A vida com cada vez mais facilidades
e confortos torna-se menos demandante aos nossos organismos, estrutural e
funcionalmente. A resposta biológica é evidente: uma gradual perda de vigor e
uma crescente fragilidade do arcabouço físico e mental. A compensação
encontra-se no balcão da farmácia, até o momento em que a mão não conseguir
mais segurar a bengala – o dia da derrocada final.
Fica uma certeza: esta humanidade se
extinguirá antes das florestas, muito antes! E dificilmente haverá uma segunda.
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