domingo, 7 de fevereiro de 2021

Frágil, mas Nocivo.

 

Frágil, mas Nocivo.

 

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Klaus H. G. Rehfeldt

 

Há mais de 10 mil anos e o homem, igual aos outros seres vivos, deixou de viver numa simbiose perfeita com a natureza. Até então, caçador e coletor, era elo integrado na fauna e fauna, de macro e micro-organismos. Ele competia com outras criaturas pela sua existência, cada um dotado de constituição e habilidades próprias para assegurar e defender sua vida. Sua liberdade terminava nos seus limites físicos e mentais.

            A fixação na terra e a consequente urbanização começaram a mudar radicalmente esse estado de equilíbrio. Enquanto os caçadores e colhedores extraiam da natureza somente o necessário para viver, ou seja, essencialmente alimentos, a propriedade, seu beneficiamento, sua manutenção e sua defesa passaram a requerer recursos adicionais subtraídos da natureza, como pedras, madeira, colmo, mais tarde minérios – e o trabalho alheio. Da vida na natureza resultou uma vida da natureza.

Ao longo dos tempos, à propriedade somou-se a riqueza, isso é, a acumulação de bens prescindíveis ao atendimento das necessidades básicas. Luxos a suntuosidades de poucos levaram aos nossos dias de generalizado consumo irrefreado de supérfluos de toda espécie com imensas necessidades de matérias primas, enorme consumo energético e gigantescas produções de resíduos, lixos e poluentes sólidos, líquidos e gasosos. Tudo para tornar nossas vidas mais ‘saudáveis’, fáceis e confortáveis. A Terra supre da grama ao nióbio, e recebe produtos transformados e toxicamente concentrados que deverá novamente integrar ao seu estado de equilíbrio físico, químico e biológico.

A aspiração constante por uma vida com mais saúde, facilidade e conforto trouxe inúmeros benefícios para a humanidade, sejam eles materiais, ou imateriais. Mas ao mesmo tempo tornou o homem crescentemente dependente das suas próprias conquistas civilizatórias. Salvo algum lavrador lá do fim da picada, que cidadão moderno conseguiria (sobre)viver na natureza por um tempo mais prolongado? Bastaria um colapso total de energia de alguns dias (por exemplo, decorrente de algum acidente cósmico, como uma erupção solar de maior dimensão) – sem supermercados, combustíveis, TV, canais de comunicação, simplesmente nada funcionando – e mais da metade da população nem sequer chegaria a fontes naturais de alimentos e água que pudessem sustenta-la. Mesmo chegando lá, os clicadores de smartphone saberiam como se beneficiar dos recursos desse ambiente? Vivemos numa evolução tecnológica sem igual na nossa história, mas faltam-nos tecnologia para avaliar e determinar, e coragem para assumir as consequências danosos dos nossos abusos contra o planeta que nos abriga.

Por outro lado, a humanidade nunca chegou a níveis tão elevados de expectativa de vida. Em parte, pela diminuição da mortandade infantil ou em idades adultas – por enfermidades agudas, ou crônicas –, mas também pela própria longevidade atingida por um número cada vez maior de pessoas. Todos esses fatores, no entanto, têm uma causa: a medicina moderna. A dimensão desse suporte à saúde fica clara quando sabemos que em 2018, a receita gerada pela indústria global de alimentos e bebidas foi de US$ 8 trilhões, a propiciada pela indústria farmacêutica, de US$ 1,2 trilhões, item que a 200 anos atrás era praticamente igual a zero. Em outras palavras, par cada R$ 100 gastos para comida, outros R$ 15 pagam, medicamentos; obviamente com maior concentração na população mais idosa com medicação contínua. Assim surge a pergunta: quantas pessoas deixariam de estar entre nós sem tal suporte medicinal? Prova atual dessa fragilidade evidencia-se na elevada taxa de mortandade na combinação do corona-vírus covid-19 com comorbidades, ou seja, debilidades preexistentes controladas, ou não, medicinalmente – assegurando artificialmente condições de vida naturalmente improváveis, senão impossíveis. Na ausência de medicação contínua, milhões de vidas seriam impensáveis, outras teriam essência, mas sem autonomia.

A vida com cada vez mais facilidades e confortos torna-se menos demandante aos nossos organismos, estrutural e funcionalmente. A resposta biológica é evidente: uma gradual perda de vigor e uma crescente fragilidade do arcabouço físico e mental. A compensação encontra-se no balcão da farmácia, até o momento em que a mão não conseguir mais segurar a bengala – o dia da derrocada final.

Fica uma certeza: esta humanidade se extinguirá antes das florestas, muito antes! E dificilmente haverá uma segunda.

 

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