O Medo de Ficarmos Menos.
(“The Fear of Becoming Less” - This
text was written in a way to ease comprehensive electronic translations)
Klaus H. G. Rehfeldt
Vivemos com a tradicional e inabalável ideia de
um mundo com cada vez mais habitantes em todas as suas partes. Na verdade,
trata-se, há algum tempo, de um equívoco com relação a muitos países,
especialmente europeus. Itália, Grécia e Bulgária, ao lado de outros quase 20
países do continente, mas também o Japão, Taiwan e Coreia do Sul estão projetando
reduções entre 10% e 20% de suas populações nos próximos 30 anos. Essas
projeções não consideram os efeitos de covid-19 que, na verdade, dão um impulso
extra, mas temporário, a essa involução.
O Brasil com uma
taxa atual de 1,7 filhos por mulher, 0,4 abaixo da taxa de manutenção
populacional, caminha na mesma direção, um curso, por enquanto, ainda atenuado
pelo aumento da nossa expectativa de vida. Assim, registramos mais nascimentos
que mortes – ainda, porque tal aumento encontrará limites. Mas, a tendência
está clara. Nem o baby boom
profetizado como resultado do ‘fique em casa’ aconteceu. Pelo contrário, houve
uma queda de 7,5% nos nascimentos em 2020 em relação ao ano anterior. Por outro
lado, a pandemia causou um aumento de 15% nos óbitos em 2020 e, com isso, uma
antecipação de mortes de idosos, o que terá sensível influência na pirâmide
etária dos próximos anos.
A perspectiva de
uma estagnação e posterior crescimento negativo – sem previsão de duração – de
uma população é inédita na história da humanidade. Portanto, não surpreendem
reações de cautela, alimentadas pela incerteza do inusitado, do novo.
Na realidade,
trata-se de uma mudança nada dramática. Dos 2,8% de crescimento populacional em
1980, estamos nos aproximando atualmente do ponto de crescimento zero (que será
apenas um instante), para então entrar em redução da população. Uma diminuição
de cerca de 1% ao ano já se constata a mais de uma década nas matrículas de
entrada no ensino fundamental com uma queda média de 1% ao ano.
Mudanças
populacionais dessa ordem praticamente não são percebidas pelas pessoas no
curto prazo. Já o poder público notará um número decrescente de contribuintes e
os prestadores de serviços registrarão quedas de clientes. Investimentos
historicamente destinados à expansão contínua de infraestruturas poderão ser
direcionados ao seu aperfeiçoamento. A economia se ajustará à nova realidade
recheada de mudanças expressivas – ela sempre se ajusta. A redução na demanda
quantitativa deverá ser substituída pela qualitativa, agregando cada vez mais
serviços a produtos mais e mais personalizados. E sempre menos pessoas se
beneficiarão das riquezas construídas pelas gerações anteriores.
Menos filhos
significam mais chances e mais recursos para sua formação. Da mesma maneira, a
cada geração menos herdeiros repartirão o patrimônio familiar, que tenderá a se
concentrar ao em lugar dos tradicionais aquinhoamentos.
O panorama, por
mais inusitado que seja, parece favorável. De uma maneira geral, o grau de
liberdade do indivíduo é inversamente proporcional ao número desses. Até no
aspecto sanitário, densidades populacionais menores asseguram padrões
sanitários melhores e taxas de contágio mais amenas.
Tudo neste mundo é cíclico e a
atual inversão demográfica encontrará, em algum momento, uma reversão. Atualmente,
um pequeno impulso extra, dado pela pandemia em curso, está contribuindo para
um desejável período de repouso ao nosso planeta e, em resumo, nada justifica
medos por motivo dessas novas perspectivas demográficas. Um mundo com novas
dinâmicas, novos objetivos e novas racionalidades regerá a humanidade. É um
futuro promissor e inexorável, a ponto de merecer ser lembrado nas decisões de longo
alcance.
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