quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

O Medo de Ficarmos Menos

 

O Medo de Ficarmos Menos.

 

(“The Fear of Becoming Less” - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Vivemos com a tradicional e inabalável ideia de um mundo com cada vez mais habitantes em todas as suas partes. Na verdade, trata-se, há algum tempo, de um equívoco com relação a muitos países, especialmente europeus. Itália, Grécia e Bulgária, ao lado de outros quase 20 países do continente, mas também o Japão, Taiwan e Coreia do Sul estão projetando reduções entre 10% e 20% de suas populações nos próximos 30 anos. Essas projeções não consideram os efeitos de covid-19 que, na verdade, dão um impulso extra, mas temporário, a essa involução.

O Brasil com uma taxa atual de 1,7 filhos por mulher, 0,4 abaixo da taxa de manutenção populacional, caminha na mesma direção, um curso, por enquanto, ainda atenuado pelo aumento da nossa expectativa de vida. Assim, registramos mais nascimentos que mortes – ainda, porque tal aumento encontrará limites. Mas, a tendência está clara. Nem o baby boom profetizado como resultado do ‘fique em casa’ aconteceu. Pelo contrário, houve uma queda de 7,5% nos nascimentos em 2020 em relação ao ano anterior. Por outro lado, a pandemia causou um aumento de 15% nos óbitos em 2020 e, com isso, uma antecipação de mortes de idosos, o que terá sensível influência na pirâmide etária dos próximos anos.

A perspectiva de uma estagnação e posterior crescimento negativo – sem previsão de duração – de uma população é inédita na história da humanidade. Portanto, não surpreendem reações de cautela, alimentadas pela incerteza do inusitado, do novo.

Na realidade, trata-se de uma mudança nada dramática. Dos 2,8% de crescimento populacional em 1980, estamos nos aproximando atualmente do ponto de crescimento zero (que será apenas um instante), para então entrar em redução da população. Uma diminuição de cerca de 1% ao ano já se constata a mais de uma década nas matrículas de entrada no ensino fundamental com uma queda média de 1% ao ano.

Mudanças populacionais dessa ordem praticamente não são percebidas pelas pessoas no curto prazo. Já o poder público notará um número decrescente de contribuintes e os prestadores de serviços registrarão quedas de clientes. Investimentos historicamente destinados à expansão contínua de infraestruturas poderão ser direcionados ao seu aperfeiçoamento. A economia se ajustará à nova realidade recheada de mudanças expressivas – ela sempre se ajusta. A redução na demanda quantitativa deverá ser substituída pela qualitativa, agregando cada vez mais serviços a produtos mais e mais personalizados. E sempre menos pessoas se beneficiarão das riquezas construídas pelas gerações anteriores.

Menos filhos significam mais chances e mais recursos para sua formação. Da mesma maneira, a cada geração menos herdeiros repartirão o patrimônio familiar, que tenderá a se concentrar ao em lugar dos tradicionais aquinhoamentos.

O panorama, por mais inusitado que seja, parece favorável. De uma maneira geral, o grau de liberdade do indivíduo é inversamente proporcional ao número desses. Até no aspecto sanitário, densidades populacionais menores asseguram padrões sanitários melhores e taxas de contágio mais amenas.

Tudo neste mundo é cíclico e a atual inversão demográfica encontrará, em algum momento, uma reversão. Atualmente, um pequeno impulso extra, dado pela pandemia em curso, está contribuindo para um desejável período de repouso ao nosso planeta e, em resumo, nada justifica medos por motivo dessas novas perspectivas demográficas. Um mundo com novas dinâmicas, novos objetivos e novas racionalidades regerá a humanidade. É um futuro promissor e inexorável, a ponto de merecer ser lembrado nas decisões de longo alcance.       

 

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