sábado, 8 de maio de 2021
Alucinações Geopolíticas
Alucinações
Geopolíticas
(“Geopolitical Hallucinations” - This text is
written in a way to ease comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Ocupações
pacíficas ou consentidas, anexações ou conquistas territoriais armadas fazem
parte da história da humanidade desde as primeiras organizações sociais. Os
motivos sempre se resumiam a um fator único: garantir melhores condições de
sobrevivência, de melhores pastagens nos tempos do homem nómade a recursos naturais
ou energéticos em tempos modernos.
Nos casos de apropriação territorial belicosa, via de regra a
vitória resultou favoravelmente para o mais forte, o melhor estrategista e
aquele que dispunha de armamento quantitativa e qualitativamente superior. Tais
vantagens decorrem sem dúvida de uma sociedade técnica, econômica, até
culturalmente mais avançada. Em tempos de civilizações essencialmente
agrícolas, bastava tirar os soberanos vencidos e seu entorno de elite do poder
para assumir o controle sobre as terras conquistadas. Para o cidadão apenas
mudava o recebedor dos seus impostos.
Esta realidade tornou-se mais problemático na medida em que as
sociedades desenvolveram estruturas mais complexas. Para isso basta comparar as
conquistas territoriais de Carlos Magno, com as apoderações coloniais dos
séculos XVII e XIX, e com a recente ocupação conflituosa da Península da
Crimeia pela Rússia, e as respectivas consequências. A praticamente total
ausência de conflitos de expansão territorial desde a fracassada tentativa pela
Segunda Guerra Mundial mostra claramente a mudança de conceitos relativos a
aventuras dessa natureza.
Num mundo de nacionalidade bem consciente, definida e
caraterizada, quaisquer ameaças à soberania de uma nação encontram forte obstáculos,
não somente pelo próprio povo, mas também pela comunidade das nações, com
reações em tempo real. Em outras palavras, a humanidade moderna rejeita e
condena qualquer ameaça à soberania das nações. Para assegurar isso, organizações
supranacionais e pactos internacionais atuam especificamente no sentido de
impedir agressões de caráter internacional com a aplicação de sanções imediatas
e, em última instância, o uso de forças internacionais. A garantia da paz
mundial é ordem suprema num mundo globalizado. Porque a China nunca tentou a
ocupação de Taiwan, que considera território renegado?
Por outro lado, há uma vertente econômica. A inevitável
supressão das instituições de uma nação dominada e a manutenção da ordem civil
numa sociedade hostil aos supressores tem um custo elevadíssimo, podendo
facilmente invalidar os ganhos obtidos com a ocupação. Os Estados Unidos
experimentaram por várias vezes essa realidade. Atualmente, resistências,
boicotes e revoltas em grande escala organizam-se em questão de horas. Além do
ônus financeiro, uma operação dessa natureza envolve uma dolorosa perda de
vidas humanas e um inestimável prejuízo moral.
Sabidamente não existem mais espaços vazios neste planeta e toda
e qualquer tentativa expansionista encontrará fronteiras internacionalmente
reconhecidas. Poucos países têm a sorte de dispor da quase totalidade dos
recursos de que necessitam, ou de mercados para todos os seus produtos. Existem
cobiças, sim, mas o mundo moderno aprendeu que não vale a pena satisfaze-las no
campo de batalha. Por isso, o mundo teceu laços internacionais de toda ordem que
garantem as trocas e os fluxos econômicos, sociais e culturais ao redor do
globo.
Outrossim, a superação mútua de desequilíbrios e disparidades se
constitui em fonte de geração de boa parte das riquezas produzidas no mundo
através das estruturas comerciais e logísticas existentes e a operacionalização
de seus mecanismos.
Diante disso, fica evidente que insinuações fantasiosas relativas
a possíveis atos de agressão externa, seja com armas tradicionais, sejam
bacteriológicos ou com outros meios imaginários, não encontram mínima
fundamentação sana. Prova disso é a Europa que hoje se encontra pela primeira
vez na terceira geração que nunca viveu uma guerra. Há sete décadas vivemos, e
continuamos vivenciando uma geopolítica orientada pela ‘realpolitik’ na preservação
da paz mundial.
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