sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Vida (Quase) Eterna?

 

Vida (Quase) Eterna?

(“A [Nearly] Eternal Life?” This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt (86)

 

O sonho da vida longa sempre fez parte do imaginário humano, especialmente quando a expectativa de vida oscilava entre 40 e 45 anos e poucas pessoas conseguiam experimentar a vida na velhice, o que muitas vezes as destacava pela sabedoria acumulada em seu longo passado.

Mesmo com a vida média perto do dobro daquela idade citada e em vista de novos conhecimentos nas ciências médicas e naturais, de tempos em tempos surgem estudos e pesquisas referentes ao alongamento da vida para além, muito além, dos 100 anos. Notícias sobre as mais revolucionárias ideias, concepções, e projetos, até testes em animais, correm o mundo com crescente frequência. É a ciência desafiando e tentando driblar a natureza que ao longo de centenas de milhões de anos estabeleceu seus equilíbrios e seus limites. É o triunfo de um expressivo e contínuo avanço científico e tecnológico em toda a área da saúde, tomando ou contornando um obstáculo após outro.

Existem expressivos e inegáveis ganhos para os beneficiários dessas conquistas da medicina, seja na forma preventiva, seja na curativa, com reflexos claros sobre quadros clínicos normais vinculados a idades mais elevadas, sem esquecer as consequentes melhoras nos níveis de qualidade de vida. No caso brasileiro constatamos uma significativa evolução: no período de 1950 a 2020, a porção da população acima de 60 anos, em relação ao grupo de 20 a 59 anos aumentou de 4,89% para 14,09%. Cabe considerar que no mesmo período não houve mudanças relevantes de fatores existenciais essenciais (alimentação, higiene, segurança etc.). Portanto, é um êxito convincente.

O resultado obviamente positivo esconde, todavia, aspectos que costumam ser negligenciados ou até desconsiderados. Não se trata nesses projetos de aumento da expectativa de vida um simples estímulo de capacidades inerentes ao organismo, objetivando uma intensificação funcional, mas de prevenção, correção ou compensação contínuas do processo natural de envelhecimento. Como consequência, estabelece-se uma dependência definitiva do organismo desses recursos, sem os quais rompe-se a garantia de seus efeitos. A natural fragilização geriátrica é artificialmente suspensa ou adiada. E essa fragilidade parece ter se evidenciada nas formas severas da pandemia covid-19 observadas entre as pessoas idosas.

Estamos falando da constituição e das condições físicas. E as psicológicas e mentais, para as quais não existem células tronco? Num mundo em constante e cada vez mais rápida evolução tecnológica, econômica e social percebe-se claramente que, com o envelhecimento, as pessoas encontram crescentes dificuldades de entender e vivenciar o mundo em que vivem. Esse lado da questão parece ainda totalmente em aberto e sem projeções. Relativo a isso, uma consequência com reflexos sobre a política deverá ser considerada: quanto mais velha uma sociedade for, mais conservador será seu comportamento com efeitos bastante previsíveis.

Outra faceta do problema são aspectos econômicos. Quem assumirá o custo do uso desses recursos tecnológicos medicinais, presumivelmente caros, e provavelmente de aplicação por longos anos? Teremos, por conseguinte, uma sociedade dividida em duas categorias, os mortais comuns, economicamente desprovidos, e os longevos, financeiramente abastados – quanto mais dinheiro, mais anos de vida?

Por outro lado, como enfrentar o inevitável aumento populacional, especialmente daquela parcela que não produz mais, embora tenha seu sustento garantido. E mesmo que o processo dilatório da vida já comece na meia idade, ou seja, signifique um aumento do período produtivo das pessoas, até onde e quando nosso planeta comportará uma população de 12, 15 bilhões, ou mais, de habitantes?

Mas, e se ...? Se estímulos genéticos, permanentes ou repetidas renovações celulares, suprimentos contínuos de células tronco etc., etc. etc. derem certo e as lápides dos cemitérios disserem “Morreu aos 215 anos nosso querido...”? Já perguntaram aos idosos, mesmo os em boas condições de saúde, se realmente desejariam viver 120, 150 ou mais anos?

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