Vida (Quase) Eterna?
(“A [Nearly] Eternal Life?” This text was written
in a way to ease comprehensive electronic translations)
Klaus H. G. Rehfeldt (86)
O sonho da vida longa sempre fez parte do imaginário humano,
especialmente quando a expectativa de vida oscilava entre 40 e 45 anos e poucas
pessoas conseguiam experimentar a vida na velhice, o que muitas vezes as
destacava pela sabedoria acumulada em seu longo passado.
Mesmo com a vida média perto do dobro daquela idade
citada e em vista de novos conhecimentos nas ciências médicas e naturais, de tempos
em tempos surgem estudos e pesquisas referentes ao alongamento da vida para além,
muito além, dos 100 anos. Notícias sobre as mais revolucionárias ideias,
concepções, e projetos, até testes em animais, correm o mundo com crescente
frequência. É a ciência desafiando e tentando driblar a natureza que ao longo
de centenas de milhões de anos estabeleceu seus equilíbrios e seus limites. É o
triunfo de um expressivo e contínuo avanço científico e tecnológico em toda a
área da saúde, tomando ou contornando um obstáculo após outro.
Existem expressivos e inegáveis ganhos para os beneficiários
dessas conquistas da medicina, seja na forma preventiva, seja na curativa, com
reflexos claros sobre quadros clínicos normais vinculados a idades mais
elevadas, sem esquecer as consequentes melhoras nos níveis de qualidade de vida.
No caso brasileiro constatamos uma significativa evolução: no período de 1950 a
2020, a porção da população acima de 60 anos, em relação ao grupo de 20 a 59
anos aumentou de 4,89% para 14,09%. Cabe considerar que no mesmo período não
houve mudanças relevantes de fatores existenciais essenciais (alimentação,
higiene, segurança etc.). Portanto, é um êxito convincente.
O resultado obviamente positivo esconde, todavia, aspectos
que costumam ser negligenciados ou até desconsiderados. Não se trata nesses
projetos de aumento da expectativa de vida um simples estímulo de capacidades
inerentes ao organismo, objetivando uma intensificação funcional, mas de prevenção,
correção ou compensação contínuas do processo natural de envelhecimento. Como
consequência, estabelece-se uma dependência definitiva do organismo desses
recursos, sem os quais rompe-se a garantia de seus efeitos. A natural fragilização
geriátrica é artificialmente suspensa ou adiada. E essa fragilidade parece ter
se evidenciada nas formas severas da pandemia covid-19 observadas entre as
pessoas idosas.
Estamos falando da constituição e das condições
físicas. E as psicológicas e mentais, para as quais não existem células tronco?
Num mundo em constante e cada vez mais rápida evolução tecnológica, econômica e
social percebe-se claramente que, com o envelhecimento, as pessoas encontram
crescentes dificuldades de entender e vivenciar o mundo em que vivem. Esse lado
da questão parece ainda totalmente em aberto e sem projeções. Relativo a isso,
uma consequência com reflexos sobre a política deverá ser considerada: quanto
mais velha uma sociedade for, mais conservador será seu comportamento com efeitos
bastante previsíveis.
Outra faceta do problema são aspectos econômicos.
Quem assumirá o custo do uso desses recursos tecnológicos medicinais, presumivelmente
caros, e provavelmente de aplicação por longos anos? Teremos, por conseguinte, uma sociedade dividida em duas categorias, os mortais comuns, economicamente desprovidos,
e os longevos, financeiramente abastados – quanto mais dinheiro, mais anos de
vida?
Por outro lado, como enfrentar o inevitável aumento
populacional, especialmente daquela parcela que não produz mais, embora tenha
seu sustento garantido. E mesmo que o processo dilatório da vida já comece na
meia idade, ou seja, signifique um aumento do período produtivo das pessoas, até
onde e quando nosso planeta comportará uma população de 12, 15 bilhões, ou mais,
de habitantes?
Mas, e se ...? Se estímulos genéticos, permanentes ou
repetidas renovações celulares, suprimentos contínuos de células tronco etc.,
etc. etc. derem certo e as lápides dos cemitérios disserem “Morreu aos 215 anos
nosso querido...”? Já perguntaram aos idosos, mesmo os em boas condições de saúde,
se realmente desejariam viver 120, 150 ou mais anos?
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