quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Homo Migrans

 

Homo Migrans

(“Homo Migrans” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Migrar é uma caraterística de grande número de espécies da nossa fauna. São migrações periódicas determinadas pelas estações do ano e pela busca de alimento em épocas de escassez, e outras de caráter permanente na forma de expansão de habitat em direção do desconhecido. O homem faz parte desse segundo grupo.

A partir de sua provável origem no centro-leste africano expandiu –se por todo continente africano, para em seguida movimentar-se em direção à Ásia, Europa, Oceania e América (através do Estreito de Berimg). Foi um processo que decorreu de fatos concretos como o aumento de sua população e do crescente domínio de armas e utensílios, mas também por fatores próprios da espécie como fantasia, curiosidade e determinação de alguns indivíduos. Em geral tratava-se da ocupação de espaços adjacentes em ritmo extremamente lento de poucos quilômetros por ano. Outras vezes, o avanço podia ser mais longo em consequência de fenômenos catastróficos como secas, enchentes ou mera escassez de comida. Não sabemos até que ponto existia uma necessidade de simplesmente avançar ou de procurar por algum lugar ideal, um Jardim do Éden.

Em momentos posteriores, as migrações deixaram de consistir em apenas expandir-se sobre terras virgens e assumiram o caráter de conquista de terras já ocupadas pelo homem, seja do homem de Neandertal pelo sapiens, seja de terras eurasianas por povos asiáticos já na Era Cristã. Na história mais recente, novas migrações maciças de conquista deram-se na medida em que novas terras foram colonizadas, como, por exemplo, os Continentes Africano e Americano, subjugando as populações indígenas.

Um aspecto, porém, é onipresente em todas as migrações, sejam elas de mera ocupação de espaços vazios, seja de forma violenta: o risco do perigo do incógnito. Travessias de cadeias de montanhas, de desertos, de rios ou banhados, mas também faunas floras desconhecidos cobravam seu preço em bens e vidas. Quando, então, eram movimentos de conquista de territórios já ocupados pelo homem, a morte estava sempre presente. Mesmo o próprio percurso migratório nesses casos cobrava seus tributos. Milhares de migrantes pereceram antes de chegar a seus destinos em naufrágios, ou epidemias a bordo dos veleiros e navios a vapor nos séculos 18 e 19. E chegando lá, os migrantes tiveram de enfrentar os habitantes originais do novo mundo, ou a cobiça de semelhantes em terras sem lei. É difícil afirmar até onde esses migrantes, aliciados ou não, rinham conhecimento desses perigos e riscos, mas certamente não devem tê-los totalmente ignorados. Mas, e é isso que conta, a grande maioria das pessoas que se empenharam nessa aventura, de uma ou de outra forma, foi bem-sucedida – e serviu de estímulos a novos movimentos. Foram milhões de destinos tomados nas próprias mãos, para o bem e para o mal, e mudados por esperanças inquebrantável e decisões corajosas.

A disposição para migra em busca de uma vida melhor em outras plagas sempre fez, e continua fazendo parte da natureza humana. E nos dias atuais, a fantasia e a imaginação deram lugar à certeza da existência e da localização das terras “onde correm leite e mel”. Diferentemente a tempos passados, hoje não existem mais destinos incertos, mas sim, lugares atraentes. O migrante se coloca a caminho com um destino certo e pré-escolhido, e ao desejo de uma vida melhor soma-se o sonho pelo ambiente de vida como o vê nas imagens de Abu Dhabi, Singapura ou Copenhague.

Em sua essência, os motivos materiais e imateriais que mobilizaram as pessoas dispostas a procurar a prosperidade não mudaram ao longo dos milhares e milhares de anos. Mudaram as rotas e as condições das migrações, Da mesma maneira, o perfil do migrante mantem as mesmas características centrais que o distinguem da pessoa sedentária e conformada com sua sorte. O que aumentou e no mundo da internet está ao alcance de todos é a consciência das enormes diferenças sociais e econômicas entre as sociedades ricas e pobres e das oportunidades daí deduzíveis. Possíveis programas de investimentos e transferências de recursos internacionais para os países de origem das migrações podem eventualmente aliviar pressões migratórias sobre as nações mais ricas e estáveis, mas jamais conseguirão evita-las. Sempre haverá pessoas com iniciativa e determinadas, inconformadas com sua sorte, mas esperançosas, e suficientemente corajosas para não desistir de seus sonhos.

Enquanto atualmente levas expressivas de migrantes tentam forçar as fronteiras da Europa e da América do Norte, desponta no horizonte uma nova razão para que as pessoas se coloquem em movimento em direção a novos destinos, desta vez à procura de refúgio. A concretizarem-se a perspectivas consequentes das mudanças climáticas em curso, como um aquecimento global e uma elevação dos níveis dos mares, certamente locais afastados do litoral por um lado, e em zonas de clima temperado ou austral passarão a ser atraentes. Groenlândia, Alasca, Patagônia, Sibéria e várias outras regiões, por outro, poderão entrar nos radares dos migrantes do futuro. O futuro contará.

 

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