O PIB da Dona de Casa
(“The Housewife’s GNP” - This text is written in a way to ease comprehensive
electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
O
título surpreende? Certamente não é comum associar a dona de casa com o
conceito estritamente econômico do Produto Interno Bruno (PIB) que nada mais é
do que a soma dos valores – bens e serviços – gerados e produzidos por uma
sociedade em determinado período de tempo. Numa primeira vista parece não haver
qualquer relação econômica entre esse conceito e o descascar de batatas ou a
extensão da roupa lavada no varal.
Para encontrar uma resposta precisamos regressar na história, e
bastante, até os tempos em que a humanidade vivia diretamente da, e na
natureza; aos tempos do homem colhedor e caçados. Numa análise mais restrita, o
“PIB” da família dessa época limita-se à produção dos alimentos, das roupas e
dos utensílios essenciais e armas, eventualmente de material combustível para o
aquecimento no inverno, mas todos exclusivamente para o próprio consumo. Nessa
constelação da grande família e do grupo ou da sociedade fica claro que todo o
trabalho era necessariamente dividido entre homens e mulheres - e as crianças
de acordo com sua capacidade física. A mulher, além de cuidar dos filhos e da
comida, ajudava na coleta de frutos, ervas e tubérculos, mas também podia
participar na caça ou pesca, tarefas em geral do homem. A simbiose era vital.
Com a fixação na terra, os
papeis miudaram lentamente. O uso da força de animais e de ferramentas
agrícolas concentraram o trabalho da mulher cada vez mais na criação dos filhos
e nas tarefas domésticas. Na verdade, a mulher do campo continuava envolvida
com as tarefas rurais, e essa mudança ocorreu mais intensamente nos crescentes ambientes
urbanos, com o trabalho do homem convergindo para os ofícios e às funções públicas,
onde auferia os recursos financeiros para custear o sustento da família. Com
isso, surgiu a figura da dona de casa, e uma eventual empregada trabalhava em
troca de cama e comida. Mas o trabalho da mulher, de necessidade indiscutível e
gerado por metade da força de trabalho de uma sociedade, era invisível e
inavaliável. Desenvolvia-se na sombra do trabalho do homem, esse sim,
devidamente reconhecido e remunerado – e tributado.
A contínua e crescente urbanização dos últimos séculos consolidou
o papel da mulher como restrito às funções familiares e domésticos – sem
expressão econômica. Criar os filhos, prepara o almoço e manter a casa limpa
não era entendido como trabalho produtivo. E ninguém perguntava, qual é o
produto e o valor econômico de uma vassourada na casa executada gratuitamente?
Visto assim, não há resposta, ainda mais que o amor à família e o zelo pelo seu
bem-estar não tem preço. Na verdade, a resposta surgiu apenas nas últimas
décadas, quando a mulher gradativamente ocupou seu espaço no mercado do
trabalho. A dona de casa, mesmo não abandonando todas as funções domésticas,
transferiu sua capacidade produtiva para ocupações remuneradas e economicamente
tangíveis.
À parte os casos onde o status econômico sempre permitia a isenção
do trabalho e a contratação de empregado/a(s) doméstico/a(s), essa mudança determinou
e ampliou a terceirização dos trabalhos domésticos. A diarista, às vezes, a
empregada fixa, ganhou importância e visibilidade, uma essência de trabalho
profissional. Mais recentemente ganhou reconhecimento econômico, podendo constituir
uma entidade econômica na forma de uma MEI (Microempresa Individual) que
prepara o macarrão à bolonhesa, limpa vidraças, troca fraldas, e muito, muito
mais, conforme seja o caso. E com isso, revelou-se o valor do pacote desses
serviços, pois passaram a ser pagos e legalmente regulamentados. Embora a
informalidade nessa área de prestação de serviços continue muito grande, enfim,
os trabalhos domésticos tornaram-se mensuráveis e ganharam dimensão econômica –
entraram no PIB como geradores de renda.
A percepção e o reconhecimento dessa realidade talvez contribuirão
para levar a mulher à igualdade com o homem como merece.
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