quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

O PIB da Dona de Casa

O PIB da Dona de Casa

(“The Housewife’s GNP” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O título surpreende? Certamente não é comum associar a dona de casa com o conceito estritamente econômico do Produto Interno Bruno (PIB) que nada mais é do que a soma dos valores – bens e serviços – gerados e produzidos por uma sociedade em determinado período de tempo. Numa primeira vista parece não haver qualquer relação econômica entre esse conceito e o descascar de batatas ou a extensão da roupa lavada no varal.

Para encontrar uma resposta precisamos regressar na história, e bastante, até os tempos em que a humanidade vivia diretamente da, e na natureza; aos tempos do homem colhedor e caçados. Numa análise mais restrita, o “PIB” da família dessa época limita-se à produção dos alimentos, das roupas e dos utensílios essenciais e armas, eventualmente de material combustível para o aquecimento no inverno, mas todos exclusivamente para o próprio consumo. Nessa constelação da grande família e do grupo ou da sociedade fica claro que todo o trabalho era necessariamente dividido entre homens e mulheres - e as crianças de acordo com sua capacidade física. A mulher, além de cuidar dos filhos e da comida, ajudava na coleta de frutos, ervas e tubérculos, mas também podia participar na caça ou pesca, tarefas em geral do homem. A simbiose era vital.

 Com a fixação na terra, os papeis miudaram lentamente. O uso da força de animais e de ferramentas agrícolas concentraram o trabalho da mulher cada vez mais na criação dos filhos e nas tarefas domésticas. Na verdade, a mulher do campo continuava envolvida com as tarefas rurais, e essa mudança ocorreu mais intensamente nos crescentes ambientes urbanos, com o trabalho do homem convergindo para os ofícios e às funções públicas, onde auferia os recursos financeiros para custear o sustento da família. Com isso, surgiu a figura da dona de casa, e uma eventual empregada trabalhava em troca de cama e comida. Mas o trabalho da mulher, de necessidade indiscutível e gerado por metade da força de trabalho de uma sociedade, era invisível e inavaliável. Desenvolvia-se na sombra do trabalho do homem, esse sim, devidamente reconhecido e remunerado – e tributado.

A contínua e crescente urbanização dos últimos séculos consolidou o papel da mulher como restrito às funções familiares e domésticos – sem expressão econômica. Criar os filhos, prepara o almoço e manter a casa limpa não era entendido como trabalho produtivo. E ninguém perguntava, qual é o produto e o valor econômico de uma vassourada na casa executada gratuitamente? Visto assim, não há resposta, ainda mais que o amor à família e o zelo pelo seu bem-estar não tem preço. Na verdade, a resposta surgiu apenas nas últimas décadas, quando a mulher gradativamente ocupou seu espaço no mercado do trabalho. A dona de casa, mesmo não abandonando todas as funções domésticas, transferiu sua capacidade produtiva para ocupações remuneradas e economicamente tangíveis.

 

À parte os casos onde o status econômico sempre permitia a isenção do trabalho e a contratação de empregado/a(s) doméstico/a(s), essa mudança determinou e ampliou a terceirização dos trabalhos domésticos. A diarista, às vezes, a empregada fixa, ganhou importância e visibilidade, uma essência de trabalho profissional. Mais recentemente ganhou reconhecimento econômico, podendo constituir uma entidade econômica na forma de uma MEI (Microempresa Individual) que prepara o macarrão à bolonhesa, limpa vidraças, troca fraldas, e muito, muito mais, conforme seja o caso. E com isso, revelou-se o valor do pacote desses serviços, pois passaram a ser pagos e legalmente regulamentados. Embora a informalidade nessa área de prestação de serviços continue muito grande, enfim, os trabalhos domésticos tornaram-se mensuráveis e ganharam dimensão econômica – entraram no PIB como geradores de renda.

A percepção e o reconhecimento dessa realidade talvez contribuirão para levar a mulher à igualdade com o homem como merece.

 

 

 

 

  

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