sábado, 16 de julho de 2022

Polarização Política

 

Polarização Política.

(“Political Polarization” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A polarização política é um fenômeno típico de democracias, especialmente aquelas de regime presidencial. Enquanto nos formatos parlamentaristas todas as linhas ideológicas concorrem para os cargos eletivos, inclusive os de primeiro ministro, ou equivalente, o presidencialismo acaba por dividir o eleitorado em dois campos, mormente nas eleições de segundo turno.

Teoricamente não há nada de mal nisso. A democracia baseia-se na admissão do confronto pacífico, civilizado e construtivo de ideários distintos e pressupõe como natural que haja, de caso em caso, maiorias vencedoras e minorias perdedoras nessa confrontação de propostas e netas de governo. Da mesma forma constituem-se as respectivas situação e oposição. Nesse contexto, o desempenho de cada governo ou de realidades sociais, econômicas ou políticas permitem e legitimam alternâncias de poder nos momentos oportunos.

A prática atual, entretanto, nem sempre se apresenta tão harmoniosa e tranquila. Especialmente partidos nos extremos do espectro de ideologias e de orientações políticas tendem a defender posições mais radicalizadas e de intolerância. As consequências disso são, em graus diversos, todo tipo de excessos comportamentais nos planos interpessoais e intergrupais. Nessa mesma linha observam-se agravamentos acentuados nos objetivos e nas estratégias em campanhas eleitorais. Táticas de desconstrução de adversários – vistos como inimigos, de discursos de ódio e excessos de toda ordem prevalecem sobre a racionalidade que se espera daqueles que governam, ou propõem-se a governar uma nação com a responsabilidade adicional de ser exemplo e referência para um povo.             

Esses alheamentos nada democráticos tornam-se especialmente graves quando seus promotores, inclusive o próprio estado, conseguem contaminar parte da população com campanhas desinformativas, difamatórias, e impregnadas de ódio e de falsos fantasmas e temores, sem qualquer consistência política construtiva. Nesse quadro, polarizações políticas numa sociedade são capazes de induzir as pessoas abrirem mão de sua racionalidade, sua coerência e do próprio bom senso a bem de idolatrias desarrazoadas e inconsequentes, tudo isso numa inadvertida ou ingênua ausência de questionamento de ilusões implantadas.

Na dinâmica do sistema democrático, as alternâncias de poder entre posições ideológicas extremadas podem ser altamente prejudiciais, senão traumáticas para uma sociedade. O que devia ser a simples prevalência da vontade da maioria sobre os anseios da minoria, ganha dimensões de vitória e derrota de combatentes em conflito aberto. A história nos ensinou que a evolução requer um equilíbrio entre continuidade de ruptura, essa, porém, sem o sacrifício do passado. No entanto observam-se nessas alternâncias drásticas uma forte tendência para a descontinuidade, senão reversão, de programas iniciados por governos anteriores, seja por rigidez de um ideário político, seja por mera autoafirmação.

Hoje é comum, principalmente nas numerosas socialdemocracias, observar-se a tendência de uma aproximação de objetivos políticos nos da direita e da esquerda. À parte das particularidades de cada nação, os objetivos políticos, dentro são praticamente os mesmos, o que diverge são os caminhos propostos para atingi-los. Enquanto, a esquerda busca a prosperidade das classes menos favorecidas, a direita almeja uma maior população economicamente forte. Basta encontrar uma política de convergência, talvez ao custo de identidades ideológicas.

 Não é por acaso que encontramos as democracias mais estáveis onde a grande maioria dos políticos e do eleitorado se concentra no espaço ideológico relativamente estreito entre centro-direita e centro-esquerda. É natural e nada impede convicções ideológicas extremadas de direita ou de esquerda entre cidadãos e seus representantes políticos, que vivam e manifestem livremente suas opiniões e que reivindiquem seu espaço na sociedade dentro das legalidades. Cada um e livre para fazer suas escolhas e externa-las com o devido respeito às escolhas dos outros. O que não se pode admitir são, como em tudo, excessos na intenção de impor convicções próprias a outrem. Intolerável é a atuação de um governo em instrumentalizar o estado no sentido de alimentar e incentivar estímulos à radicalização a seu favor, da desinformação à instigação ao ódio, tentando tornar o cidadão incauto em peça útil para a conquista ou manutenção do seu poder. A história já provou que a ideologia nasce e amadurece dentro do povo, como na Revolução Francesa de 1789, e facilmente fracassa quando imposta pelo governo, como na União Soviética em 1’991.           

A polarização política, nós e eles, jamais deve ser objetivo de um governo. Povos divididos, não importa por quais razões, são povos condenados à autodestruição de suas tradições e de seus valores coletivos e, consequentemente, de um futuro construído sobre a consciência e a vontade nacionais.    

 

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