sábado, 26 de novembro de 2022

A Energia na Civilização - Parte 2

 

A Energia na Civilização – Parte 2

(“The Energy in Civilization” - Part 2 - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Enquanto no passado mais remoto a vida dependia da energia solar transformada em biomassa, da qual o homem fazia parte, sua gradativa fixação na terra por volta de oito mil antes de Cristo trouxe mudanças fundamentais. Ao lado do domínio do fogo, esse foi um dos grandes momentos na história da humanidade. Os então cerca de cinco milhões de habitantes começaram a se beneficiar de uma nova compreensão de como garantir o sustento: o cultivo da terra, certamente num processo lento a partir do conhecimento adquirido e com o auxílio das ferramentas até então desenvolvidas, diversificadas e necessárias para tal.

A concentração artificial dos produtos da terra em áreas delimitadas não apenas trouxe uma racionalização do trabalho, ou do emprego de energia, mas, ao mesmo tempo, garantiu o primeiro estabelecimento de patrimônio fixo do homem. A contínua procura por reservas de produtos vegetais e animais deu lugar ao cultivo permanente do mesmo campo, a moradia sólida substituía a tenda. Mesmo que o arado feito da espátula de um bisonte fosse puxado por um membro do casal e empurrado e direcionado pelo outro, o ganho de racionalidade do trabalho e do dispêndio de energia era enorme.

Mas essa revolução proporcionou outro benefício à humanidade: a eventual utilização da força animal para complementar o potencial energético do homem. Naquele momento, o homem começou a dispor de uma fonte de energia extra-humana, tanto na produção como no transporte. Obviamente, essa energia não era gratuita, o que impunha restrições a seu uso. Os resultados dessa nova realidade agrícola, que passou a abranger a quase totalidade da população, inicialmente garantiam o sustento próprio, ao lado da caça ou da pesca, mas crescentes excedentes conseguiam abastecer as emergentes populações urbanas. Foi a aurora da redistribuição do trabalho entre as atividades agrícolas e as dos artífices. Porém, mesmo com uma maior racionalização no empenho energético, havia um limite: a capacidade dos músculos humanos.

O crescimento humano continuava a desenvolver-se a taxas de frações de um por cento. Continuavam os contratempos de toda ordem, como doenças, pragas, catástrofes climáticas, e maiores contingentes humanos levaram a conflitos também de maiores proporções. Condições de precariedade sanitária e de higiene nos ambientes de concentração urbana propiciavam doenças e epidemias, como a grande peste que dizimou quase um terço da população europeia. São essas as razões principais que explicam o baixo crescimento populacional dos últimos dez mil anos até o século XVIII. Esses eventos, porém, causavam quedas, às vezes expressivas, mas temporárias na população e nas suas taxas de crescimento, mas sempre com recuperação posterior aos níveis anteriores.

Continua, no entanto, como fator delimitador de um desenvolvimento geral da humanidade a finitude de recursos energéticos, essencialmente concentrados a força muscular humana. Até quando a força do vento começou a ser usada nos barcos a vela no Nilo, na Grécia Antiga e na China. Apenas mais de um milênio depois surgiram os primeiros moinhos a vento e forma primitivas de rodas d´água. Mesmo com ferramentas mais aprimoradas, o trabalho continuava sendo feito pelo homem no campo, junto à bigorna, ao beneficiamento da madeira e da argila, e na mina de sal ou de minério de ferro.  O trabalho escravo, onde e quando foi empregado, de uma maneira geral não beneficiava diretamente a grande população.

Importante é ter em mente que até a Idade Média, mais de 90 por cento da população cultivava a terra. De maneira geral, o trabalho do campo esgotava a capacidade energética do lavrador e de sua família. Recorrer à força animal multiplicava o rendimento da terra, mas, ao mesmo tempo significava a necessidade de repartir o produto da terra entre humanos e animais durante o ano todo, em troca de um tempo limitado de utilização dessa força adicional. Em poucas palavras: a terra era pouca, nem sempre muito fértil, o trabalho árduo com ferramentas manuais, e a colheita tão rica ou pobre como a terra e as condições climáticas favoráveis ou não. Era o frágil equilíbrio entre a variabilidade da natureza e a capacidade de reação e domínio do homem. Por outro lado, excessos de produção não faziam sentido por falta de mercado consumidor e a incapacidade de prever eventuais períodos de carência.

Foram centenas de milhares de anos regidos por Gênesis 3:19-24 “Pelo suor do teu rosto comerás o teu pão, ...” até a saída da primeira máquina a vapor de uma fábrica em Soho em 1774, e pouco mais de dois séculos depois os plantios e colheitas totalmente comandadas e operadas por Tecnologia de Informação e Inteligência Artificial.

E qual será o futuro do trabalho, daquilo que foi a base de existência da humanidade e de sua civilização? Ele acabará em exercícios nas academias? 

 

A Energia na Civilização - Parte 1

 

A Energia na Civilização – Parte 1

(“The Energy in Civilization” - Part 1 - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A evolução da espécie humana é tão fascinante como intrigante. Foi uma aventura de alto risco, mas, e de maneira geral, bem-sucedida ao longo dos últimos 250 a 300 mil anos. Segundo as análises de perfurações de gela na Antártica, a Terra sofreu nesse espaço de tempo e em intervalos sazonalmente parecidos dois períodos de calor intenso intercalados com outros dois muito gelados. Isso permite concluir que o homem, então vivendo da coleta, da caça e da pesca, vivia em lentos, mas constantes mudanças de habitat, seguindo suas fontes de sustento. Depois da última era glacial, por exemplo, seu avanço pela Europa transcorreu numa velocidade média de cinco quilômetros por ano.           

Fauna e flora, bem como as condições geográficas determinavam a densidade demográfica, e consequentemente a necessidade de migração e expansão territorial. Onde as pessoas viviam em florestas da coleta e da caça, o suprimento de alimentos geralmente permitia um máximo de dez pessoas por quilômetro quadrado; nas regiões de estepe, porém, havia uma densidade populacional de cerca de uma pessoa por quilômetro quadrado. Já em regiões de pesca, onde surgiram os primeiros assentamentos permanentes da humanidade, densidades populacionais de até 100 pessoas por quilômetro quadrado eram possíveis.          

Isso evidencia que havia uma estreita relação entre a existência de recursos e a disponibilidade de energia corporal limitavam; a abundância de recursos exigiria menos energia para sua apropriação, e a falta deles não era compensável por mais trabalho. Ao lado de ferramenta como ou armas de pedra lascada como facas, machados, cunhas de mão, arpões, lanças, arcos, flechas, anzóis e clavas, e outras feitas de madeira ou osso, a única forma de racionalização de esforços era o trabalho em grupo, como era comum nas caças de animais de grande porte e na construção de abrigos. Por outro lado, a falta de energia corporal por qualquer debilitação resultava em carência ou falta de sustento.

Foi uma evolução extremamente vagarosa a ponto de se estimar uma população mundial de apenas quatro milhões de pessoas no fim do período paleolítico por volta do ano 10.000 a.C. Naturalmente não se trata de um crescimento linear, mas de frequentes altos e baixos nesse processo. Os fatores adversos a um crescimento e uma expansão eram enormes. Não havia defesas contra doenças, adversidades climáticas, ou outras catástrofes.

Um aspecto relevante é a expectativa média de vida de 25 a 30 anos durante todo o período paleolítico principalmente devido a dois fatores, altas taxas de mortalidade infantil e materna; atingindo a idade de 15 anos a expectativa média era de mais 15 a 20 anos. Assim, na média, a idade fértil da mulher era de igual tempo. Naturalmente, as pessoas podiam perfeitamente chegar aos 40, 50, até 60 anos. Por outro lado, o alto índice de morte prematura de mãe ou pai com alto risco para a sobrevida da prole. Concluindo, os pais viviam em média até os filhos chegar à idade reprodutiva.

Em civilizações de coletores, caçadores e pescadores boas condições físicas eram indispensáveis. As ferramentas que já de tempos pré-sapiens, eram poucas e precárias e os resultados obtidos dependiam exclusivamente da disponibilidade energética do corpo humano. Como resultado, praticamente todos os esforços esgotavam-se na obtenção do sustento e da criação dos filhos. Enquanto doenças, conflitos, adversidades climáticas ou catástrofes eram episódicos, a limitação energética era definitiva e imutável. A única fonte energética suplementar era o fogo que garantia um melhor aproveitamento dos produtos vegetais e animais, mas também podia servir para queimar florestas para atrair a caça com a vegetação nova.

Em resumo, a humanidade vivia ou morria em função de sua energia muscular, as esperanças sucumbiam onde acabava a própria força física.

 

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Seremos Menos com Mais. Quando?

 

Seremos Menos com Mais. Quando?

(“We’ll Be Less with More. When? - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

História e demografia andam de mãos dadas. Milênios de evolução lenta, mas de maneira geral constante da humanidade e do crescente domínio do seu ambiente vivencial e de seus recursos garantiram uma expansão populacional aproximadamente na mesma escala. Até o amanhecer das revoluções industrial, política, tecnológica, que impulsionaram processos e dinâmicas econômicas, sociais, políticas e culturais de forma nunca antes visto, incluindo uma consequente explosão demográfica.

 

Os fatores para tal explosão foram vários. Especialmente os avanços na higiene e na medicina resultaram em queda acentuada da mortalidade infantil, diminuição na incidência de doenças infeccionas, saneamentos básicos em expansão e desenvolvimento dos recursos técnicos de toda natureza reduziram expressiva e duradouramente as mortes prematuras. Por outro lado, o colonialismo europeu garantiu alimentos e recursos naturais suficientes para garantir condições de vida para a população crescente. Da mesma forma, uma florescente prosperidade geral permitia filhos numerosos. Dez filhos chegando à idade adulta não era mais raridade.

 

Então, um fenômeno novo: a progressiva emancipação social e política da mulher, mais tarde seguidas pela econômica com sua entrada no mercado de trabalho. E, finalmente, a pílula anticoncepcional colocou o controle familiar nas suas mãos. Os resultados não demoraram a aparecer. Em menos de meio século, nos países desenvolvidos e em desenvolvimento as taxas de fertilidade caíram pela metade. Especificamente, no Brasil, ela caiu praticamente para um terço, de 6,3 filhos por mulher em 1960, para 2,3 em 2000, e 2,0 em 2004. Esse fato, entretanto, não leva imediatamente a um crescimento negativo da população, afinal, a população das mães ainda estava aumentando.       

 

Paralelamente n mesmo período, a expectativa média de vida praticamente dobrou de 40 para 76 anos. Porém, essa evolução não prolongou a idade fértil da mulher. Por outro lado, parece haver um limite médio biológico em torno dos 90 anos para esse aumento, com picos individuais chegando aos cerca de 120 anos; a marca de 122 anos nunca foi ultrapassada. Mesmo que processos hightech de prolongamento da vida possam ser exitosos, é difícil acreditar que encontrem aplicação ao povo em geral devido seu custo elevadíssimo. Essa constelação de fatores (queda de fertilidade, diminuição no crescimento da população, inclusive feminina, aumento de expectativa de vida com tendência de desaceleração) resultou até aqui numa constante queda da taxa de crescimento populacional, de 3,0% em 1950 para 0,6% em 2021.

 

Projeções a partir de todos os fatores mencionados resultam em que entre 2040 e 2045 a população brasileira atingirá seu pico ao redor de 230 milhões de pessoas, iniciando então um lento, mas progressivo crescimento negativo e chegando em 2100 a uma população de cerca de 180 milhões, ou seja, a mesma do ano de 2000, com tendência de aceleração do processo de diminuição. Esta realidade já existe hoje em diversos países como Grécia (- 0,58%), Japão (- 0,53%), Itália (- 0,34%), Rússia (- 0,27%) e Alemanha (- 0,05 %), entre muitos outros; a China registra atualmente um crescimento zero e o atual crescimento da população indiana é igual ao da brasileira. Apenas os países africanos, que totalizam 17,2 % da população mundial, continuam apresentando crescimentos, em alguns casos, significativos.

 

Em termos práticos, isso significa que a partir daqui a cerca de 20 anos, diminuirá o consumo de recursos (salvo se o comportamento consumista da população piorar), o que, combinado com uma economia circular poderá levar e uma enorme economia em certos recursos naturais, as infraestruturas até então construídas serão utilizadas por cada vez menos pessoas, e, de maneira geral, as riquezas produzidas por gerações anteriores serão distribuídas entre cada vez menos herdeiros., provocando um enriquecimento constante. Por outro lado, o risco de economias deflacionárias é considerável e pode exigir uma redefinição do pensamento econômico. 

 

Em resumo, o planeta agradecerá e respirará aliviado.   

 

 

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Desigualdade - Justa e Injusta

 

Desigualdade – Justa e Injusta

(“Inequality - Fair and Unfair”) - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A desigualdade social e econômica mundial é dramática: desde 1995, o 1% mais rico da população mundial acumulou quase 20 vezes mais riqueza do que os 50% mais pobres da humanidade. O outro lado da incrível riqueza de alguns encontramos a extrema pobreza de muitos: quase metade da humanidade – 3,2 bilhões de pessoas – vive na pobreza, ou seja, com menos de 5,50 dólares por dia. Três bilhões de pessoas não têm acesso ao atendimento básico de saúde e três quartos de todos os trabalhadores não têm acesso à proteção social. A desigualdade na riqueza e na renda – mas também na educação, saúde e proteção social – dificulta o desenvolvimento de indivíduos e sociedades. E esse abismo tende a aumentar.

 

Eis os fatos, a realidade. Daí surge o questionamento: a desigualdade é sinônimo de injustiça? Quando a desigualdade se torna injusta? Quando o fato de que nem todos recebem para o mesmo trabalho recompensa igual se torna injusto?

 

Obviamente, o desenvolvedor de um software de amplo sucesso e que em pouco tempo se torna um unicórnio, ou seja, uma start-up tecnológica que alcance um valor de mercado de US$ 1 bilhão, não pode ser considerado como fomentador de desigualdade social ou econômica da sociedade na qual está inserido. É um caso extremo de acesso ao topo da pirâmide de rendas. Outros tantos, entre empreendedores, artistas, esportistas etc., bem-sucedidos em suas atividades, naturalmente honestas, nem mesmo empregados bem remunerados pela sua competência, também não podem ser culpados pela pobreza de outros. Aliás, tais concentração de renda acabam por beneficiar indiretamente outras pessoas que garantem sua existência pela circulação desses recursos, seja o feirante que abaste a cozinha do unicórnio, seja seu alfaiate, motorista ou consultor financeiro. Além disso, justifica-se uma observação: a desigualdade não é necessariamente resultado do empobrecimento de parcela da população, mas sim, do rápido e expressivo enriquecimento de outra, vide unicórnios, dos quais o Brasil ganhou 10 novos somente em 2021.

 

Onde, então, reside a desigualdade injusta? Na verdade, ela começa no berço improvisado do bebê de pais privados de recursos. Começa na desinformação dos pais, começa na alimentação inadequada, começa na habitação precária, começa na exposição a condições insalubres, começa na falta de creche e na prematura vivência da realidade da a rua, e nesse percurso acaba na desigualdade de chances no preparo para a vida.

 

Toda deficiência, toda carência clama por seu responsável. Parece bastante evidente que no caso da desigualdade injusta a responsabilidade não cabe àqueles que subiram ou conseguem manter-se em classes de renda e riqueza elevadas, embora a sociedade espere deles uma contribuição tributária adequada e eventualmente o compromisso moral de se empenhar na mitigação de situações de carências e pobreza, como, aliás, em algumas sociedades costuma acontecer conforme mostra o respectivo tamanho do terceiro setor. Na situação enfocada, a resposta é clara: o monitor e agente central no enfrentamento das desigualdades é o estado com suas estruturas próprias e específicas para tal. Educação, saúde e seguridade social devem ser acessíveis a todos, ponto final. A propósito, o Brasil possui programas bastante bem estruturados, embora às vezes carentes de recursos. Ao lado disso, projetos de renda mínima não devem ser vistos como utopia, mas como realidade futura concreta.

 

Diferente é a situação quando a própria sociedade civil insiste em preconceitos, diferenciações e segregações, como origem, sexo, raça, cor, orientação sexual e outros – até a aparência física. Esses arbítrios encontram-se no oferecimento de oportunidades e na avaliação e na remuneração. É claro que o estado tem a função e obrigação de regulamentar, disciplinar e coibir tais obstáculos impostos pelo cidadão ao cidadão. No entanto, para todos poderem alcançar um padrão de vida digna, precisamos de um sistema econômico justo no qual todos cumprem sua responsabilidade social, e no qual o bem comum conta mais do que a maximização do lucro a qualquer preço. O poder excessivo e a influência sobre as decisões políticas devem ser evitados, de modo que a desigualdade extrema nem, sequer, possa existir, muito menos aumentar.

 

Desigualdade social e econômica sempre houve e sempre haverá. O objetivo da sociedade deverá ser limitá-la aqueles que, pela sua natureza de ser ou própria vontade, optam por sujeitar-se a ela pelo estilo de vida escolhido, mas jamais poderá ser admitida como resultado da ausência da sociedade constituída ou civil. Afinal, sabemos que há pessoas sem ambições, mas com muita fé na sorte.

 

 

 

 

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Democracia em Tempos de Digitalização

 

Democracia em Tempos de Digitalização

(“Democracy in Times of Digitalization”) - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Mudanças cada vez mais frequentes e profundas são observadas nas maneiras como democracias são atualmente entendidas e vivenciadas em boa parte dos países. Se por um lado os partidos de direita populista, notadamente na Europa, se fortalecem, por outro aumenta a opção por governos orientados por socialismos mais ou menos moderados – nada de comunismo – especialmente na América Latina. Ao mesmo tempo registra-se uma contínua diminuição na participação em eleições (não é o caso do Brasil com voto obrigatório), não por último decorrente da decrescente confiança nos sistemas políticos e nos próprios políticos. Em parte, como consequência, mas também em dinâmica própria surgem posições antidemocráticas onde não necessariamente são esperadas, sempre se tendo em mente que se trata de tendências, não de rupturas ou viradas massivas.

 

Pode parecer sem propósito, mas faremos uma volta na história. Há mais de cinco séculos, a igreja católica e soberanias seculares, foram desafiadas por uma revolução midiática: a invenção da impressão por Gutenberg significou uma catástrofe política para a Igreja e os sistemas de governo da época e mergulhou-os em uma crise prolongada. O mercado foi inundado de livros, panfletos e sátiras. Em poucos anos, milhares de títulos de livros foram impressos com edições de até dezenas e centenas de milhares de exemplares. A revolução da impressão levou a uma nova realidade de comunicação. A sociedade, que até então só tinha acesso a limitadas cópias à mão das obras e tinha uma aproximação igualmente restrita ao conhecimento, foi repentinamente confrontada com novas relevâncias e significados. De repente, os cidadãos que até então tinham ficado em silêncio também receberam uma voz. O cartel de poder e opinião da igreja e da nobreza vacilou. A sociedade acordou.

 

Revoltas, guerras e revoluções políticas se seguiram. Novas instituições foram formadas, como parlamentos, universidades e dissidências religiosas. Com eles, surgiu uma nova imagem do homem: o cidadão instruído, autônomo e crítico, que pode se mover com confiança em seus novos ambientes. Alguma diferença com as mudanças disruptivas causadas pela digitalização dos nossos tempos?

 

A digitalização desempenha um papel importante, até certo grau revolucionário, nos atuais desenvolvimentos sociais, mas também no enfrentamento dos desafios da democracia. Percebe-se isso não apenas como uma mudança estrutural que afeta o público em geral, mas também como uma mudança nos processos democráticos e formas de comunicação política na relação entre representado e representante. Isso soa auspicioso, mas há reservas a esse respeito, tanto pelos políticos, quanto o público em geral. Há temores de que o uso da mídia digital influencie programada e tendenciosamente a formação de opiniões políticas e leve à manipulação do eleitorado. As preocupações não se limitem à esfera nacional, mas estendem-se também ao poder das redes sociais e plataformas transnacionais. Todavia, as tecnologias digitais ampliam de muitas maneiras as perspectivas e possibilidades de organização social, econômica e política.

 

Trata-se não apenas de uma mudança estrutural e programática que afeta o cidadão, mas que também se mostra nos processos democráticos e nas formas de comunicação política. Por um lado, essas plataformas contribuem decisivamente para reduzir as barreiras de participação cívica e criam novas oportunidades de comunicação pública. Por outro lado, o modelo dessas plataformas abre possibilidades para um extenso monitoramento e abordagem algorítmica da sociedade. Embora os múltiplos mecanismos desses algoritmos possam influenciar significativamente o fluxo de informações públicas, seu modo de operação é absolutamente intransparente. Dessa maneira, o indivíduo torna-se um ser manipulável, seja por informações confiáveis, seja por desinformações ou fake news. Portanto, como novas expedientes requerem novas ferramentas, novas ameaças exigem novas defesas.

 

A semelhança entre os dois momentos sócio-políticos é evidente. São períodos turbulentos que finalmente desembocam em avanços que gradualmente ganham solidez e se tornam base para estruturas e contextos consistentes. Estamos observando uma multiplicação de canais e pontos de contato entre o cidadão e seus representantes, hoje limitados às urnas de votação – obviamente canais e pontos de contato que precisam ser purgados de abusos, vícios e fragilidades prejudiciais ao exercício pleno da democracia. Por mais que possa parecer, a democracia atualmente julgada em crise, não precisa acabar em fracasso, nem conservar a imagem de Churchill como sendo a pior das soluções políticas. Como os efeitos da invenção de Gutenberg agitaram por décadas, até séculos as igrejas, os palácios e a própria população, os da digitalização também requerem seu tempo de maturação.

 

 

 

 

 

 

      

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Seremos Oito Bilhões

 

Seremos Oito Bilhões

(“We'll Be Eight Billion” - - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

 Por volta de 1804, a população mundial passou de um bilhão de pessoas. 123 anos depois, éramos dois bilhões em 1927, e três bilhões 33 anos depois, em 1960. Levou apenas 14 anos até o quarto bilhão em 1974. Em 1987, apenas 13 anos depois, a marca de 5 bilhões foi ultrapassada, e em 1999 o sexto bilhão. Em 31 de outubro de 2011, 12 anos depois, nasceu a sétima bilionésima pessoa, e agora, previsto para15 de novembro e após 11 anos, alcançaremos a marca de oito bilhões. Já o nono bilhão, segundo projeções demográficas da ONU, deverá ser atingido apenas 14 a 15 anos depois, ou seja, em 2036/37. Outras projeções preveem para o ano de 2030 uma população de 8,5 bilhões de habitantes mundiais, para 2050, 9,7 bilhões, e para a década de 2080, 10,4 bilhões.

 

Depois de mais de um século de crescimento populacional extraordinário, estamos atualmente vivenciando uma lenta, mas consistente mudança nesse quadro. Os dados acima revelam uma clara e firme desaceleração nessa evolução. Essa mudança resulta de um fenômeno da nossa recente história na forma de uma constante redução nos nascimentos, e consequentemente no número de filhos. Como consequência, atualmente 46 países, cerca de um quinto do total, apresentam crescimento anual zero ou negativo, inclusive a China, e outros 84, incluindo o Brasil, têm crescimento demográfico abaixo de 1%. Por outro lado, mais da metade do aumento projetado na população global até 2050 estará concentrada em apenas oito países: República Democrática do Congo, Egito, Etiópia, Índia, Nigéria, Paquistão, Filipinas e República Unida da Tanzânia, que hoje perfazem 30% da população mundial. E mais, a Índia deve superar a China como o país mais populoso do mundo durante 2023. Diferentemente como costuma ser anunciado, 53,9% dessas populações são de religião hindu (com suas cerca de 520 variantes), 12,8% predominantemente cristão, e 33,3% predominantemente islâmica.  

 

Não há nenhum enigma nessa situação. As razões são bem conhecidas. Um dos aspectos centrais para esses países é a queda acentuada da fertilidade total nas últimas décadas. Hoje, dois terços da população global vivem em países onde a fertilidade está abaixo de 2,1 nascimentos por mulher, a taxa necessária para garantir a estabilidade numérica da população. O motivo? A independência econômica e social da mulher com o suporte da pílula concepcional. Outra razão é o padrão de consumo exagerado que eleva irracionalmente o custo de vida da família.

 

Na outra ponta, compensando em parte a redução de fertilidade, observa-se durante as últimas décadas uma contínua elevação na expectativa de vida do que resulta uma mais longa permanência das pessoas no nosso planeta, ou seja, na contagem dos habitantes, nas estatísticas. Neste contexto, costuma se falar em envelhecimento das sociedades, quando mais parece se tratar da necessidade de uma revisão de parâmetros, lembranso-se que a duas ou três gerações atrás, a pessoa com 60 anos era definitivamente um idoso.

 

Na maioria dos países da África Subsaariana, da Ásia e da América Latina, as recentes reduções na fertilidade levaram a um "dividendo demográfico", com um aumento na participação da população em idade de trabalho (25 a 64 anos), proporcionando uma oportunidade de crescimento econômico acelerado per capita. Este dividendo demográfico tende a aumentar na medida em que a idade ativa aumenta proporcionalmente ao aumento da expectativa de vida, já que a idade de 64 anos hoje se mostra um tanto irreal.

 

O grupo de 46 países de crescimento demográfico negativo, acima mencionado, não representa uma situação estática, mas cada vez mais nações farão parte desse grupo, incluindo o Brasil com previsão de entrar nele para a década de 2040. Por volta de 2070/80 o crescimento da população mundial deverá atingir seu ponto de inversão para negativo, embora alguns países ainda devam registrar aumento do número de seus habitantes.

 

Isso será bom? A humanidade nunca experimentou uma evolução demográfica negativa, salvo em momentos dramáticos como guerras, epidemias ou catástrofes climáticas. Se as razões para tal evolução são bastante conhecidas, as consequências, nem tanto. Porém, talvez ajude imaginar uma população como aquela de 1950 com o atual estado tecnológico e ... – pois é, no que mais avançamos?