sábado, 26 de novembro de 2022

A Energia na Civilização - Parte 2

 

A Energia na Civilização – Parte 2

(“The Energy in Civilization” - Part 2 - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Enquanto no passado mais remoto a vida dependia da energia solar transformada em biomassa, da qual o homem fazia parte, sua gradativa fixação na terra por volta de oito mil antes de Cristo trouxe mudanças fundamentais. Ao lado do domínio do fogo, esse foi um dos grandes momentos na história da humanidade. Os então cerca de cinco milhões de habitantes começaram a se beneficiar de uma nova compreensão de como garantir o sustento: o cultivo da terra, certamente num processo lento a partir do conhecimento adquirido e com o auxílio das ferramentas até então desenvolvidas, diversificadas e necessárias para tal.

A concentração artificial dos produtos da terra em áreas delimitadas não apenas trouxe uma racionalização do trabalho, ou do emprego de energia, mas, ao mesmo tempo, garantiu o primeiro estabelecimento de patrimônio fixo do homem. A contínua procura por reservas de produtos vegetais e animais deu lugar ao cultivo permanente do mesmo campo, a moradia sólida substituía a tenda. Mesmo que o arado feito da espátula de um bisonte fosse puxado por um membro do casal e empurrado e direcionado pelo outro, o ganho de racionalidade do trabalho e do dispêndio de energia era enorme.

Mas essa revolução proporcionou outro benefício à humanidade: a eventual utilização da força animal para complementar o potencial energético do homem. Naquele momento, o homem começou a dispor de uma fonte de energia extra-humana, tanto na produção como no transporte. Obviamente, essa energia não era gratuita, o que impunha restrições a seu uso. Os resultados dessa nova realidade agrícola, que passou a abranger a quase totalidade da população, inicialmente garantiam o sustento próprio, ao lado da caça ou da pesca, mas crescentes excedentes conseguiam abastecer as emergentes populações urbanas. Foi a aurora da redistribuição do trabalho entre as atividades agrícolas e as dos artífices. Porém, mesmo com uma maior racionalização no empenho energético, havia um limite: a capacidade dos músculos humanos.

O crescimento humano continuava a desenvolver-se a taxas de frações de um por cento. Continuavam os contratempos de toda ordem, como doenças, pragas, catástrofes climáticas, e maiores contingentes humanos levaram a conflitos também de maiores proporções. Condições de precariedade sanitária e de higiene nos ambientes de concentração urbana propiciavam doenças e epidemias, como a grande peste que dizimou quase um terço da população europeia. São essas as razões principais que explicam o baixo crescimento populacional dos últimos dez mil anos até o século XVIII. Esses eventos, porém, causavam quedas, às vezes expressivas, mas temporárias na população e nas suas taxas de crescimento, mas sempre com recuperação posterior aos níveis anteriores.

Continua, no entanto, como fator delimitador de um desenvolvimento geral da humanidade a finitude de recursos energéticos, essencialmente concentrados a força muscular humana. Até quando a força do vento começou a ser usada nos barcos a vela no Nilo, na Grécia Antiga e na China. Apenas mais de um milênio depois surgiram os primeiros moinhos a vento e forma primitivas de rodas d´água. Mesmo com ferramentas mais aprimoradas, o trabalho continuava sendo feito pelo homem no campo, junto à bigorna, ao beneficiamento da madeira e da argila, e na mina de sal ou de minério de ferro.  O trabalho escravo, onde e quando foi empregado, de uma maneira geral não beneficiava diretamente a grande população.

Importante é ter em mente que até a Idade Média, mais de 90 por cento da população cultivava a terra. De maneira geral, o trabalho do campo esgotava a capacidade energética do lavrador e de sua família. Recorrer à força animal multiplicava o rendimento da terra, mas, ao mesmo tempo significava a necessidade de repartir o produto da terra entre humanos e animais durante o ano todo, em troca de um tempo limitado de utilização dessa força adicional. Em poucas palavras: a terra era pouca, nem sempre muito fértil, o trabalho árduo com ferramentas manuais, e a colheita tão rica ou pobre como a terra e as condições climáticas favoráveis ou não. Era o frágil equilíbrio entre a variabilidade da natureza e a capacidade de reação e domínio do homem. Por outro lado, excessos de produção não faziam sentido por falta de mercado consumidor e a incapacidade de prever eventuais períodos de carência.

Foram centenas de milhares de anos regidos por Gênesis 3:19-24 “Pelo suor do teu rosto comerás o teu pão, ...” até a saída da primeira máquina a vapor de uma fábrica em Soho em 1774, e pouco mais de dois séculos depois os plantios e colheitas totalmente comandadas e operadas por Tecnologia de Informação e Inteligência Artificial.

E qual será o futuro do trabalho, daquilo que foi a base de existência da humanidade e de sua civilização? Ele acabará em exercícios nas academias? 

 

Um comentário:

  1. E qual será o futuro do trabalho, daquilo que foi a base de existência da humanidade e de sua civilização? Ele acabará em exercícios nas academias? (Sic).
    Dúvida cruel, pessoalmente já estou partindo para os exercícios na academia.
    Na empresa o trabalho não é mais que um esforço mental.

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