terça-feira, 11 de julho de 2023

A Transição Demográfica

 

A Transição Demográfica

(“The Demographic Transition” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Há uma razão pela qual insisto nessa temática: não se trata mais de uma perspectiva, mas de uma situação factual, e não se veem quaisquer medidas por parte das autoridades governamentais, nem de líderes dos mais diversos setores no sentido de encarar essa realidade ou leva-la em consideração em suas ponderações conjunturais presentes ou futuras.

 

O que parecia uma remota possibilidade, até devido a estimativas muito longe da realidade por parte do IBGE, surgiu agora com realidade surpreendente, senão alarmante. De repente, comunidades, mas também cidades de porte, até estados, se veem projetadas para realidades inesperadas pelos resultados do censo 2022. Populações locais ou regionais abaixo do imaginado deixaram de ser exóticos.

 

O crescimento populacional negativo está presente há algum tempo em vários países ao redor do mundo. Obviamente não é um fenômeno que se processa repentina e uniformemente numa nação. Em geral, regiões econômica e socialmente mais fracas aceleram e intensificam os efeitos de uma queda geral da taxa de fertilidade.

 

No caso brasileiro, o processo de reversão demográfica foi, durante décadas, compensado por um aumento expressivo da expectativa de vida. Porém, os aumentos de até ao redor de 5 anos nessa nas décadas de 1970/80 não passam hoje de 2 meses por ano, com tendência decrescente. Em algum momento, a expectativa de vida, por condicionantes biológicos, atingirá um patamar de constância.

 

Na ponta oposta da escala etária encontramos outra vertente em direção a uma inversão no crescimento demográfico. Enquanto a ´população até 30 anos de idade perfazia 49,9% da população de 190 milhões de brasileiros em 2010, isso são cera de 95 milhões de pessoas, em 2022 essa porcentagem caiu para 43,3%, agora sobre 203 milhões de habitante, ou seja, 88 milhões, portanto, 7 milhões a menos. E a cada ano serão menos. São perdas populacionais reais! Para a economia, menos sujeitos produtivos, , menos consumidores.

 

Segundo o censo 2022, os estados de Rio Grande do Sul, Rondônia, Bahia, Rio de Janeiro, e Alagoas encontram-se hoje em situação de estagnação ou já entraram em crescimento negativo. E o próprio IBGE prevê a entrada no crescimento populacional negativo da nação para a década de 2030.

 

São dados que definitivamente não podem mais ser ignorados. É verdade, trata-se de uma dinâmica demográfica jamais experimentada, salvo em momentos transitórios de catástrofes das mais diversas naturezas. Agora não, estamos diante de uma situação sem perspectiva de reversão no curto e médio prazo.

 

Os reflexos serão de grande amplitude – aliás, já estão sendo. Isso exige respostas definitivas – não paliativas – e afinadas com um futuro jamais experimentado na humanidade. Haverá carência de força de trabalho, como atualmente experimentada em países europeus em situação demográfica semelhante, embora atenuada por contínuos avanços em automação e robotização, haverá menos consumidores, haverá reflexos significativos nos mercados e sistemas financeiros, e tais mutações não admitem soluções temporárias que cedo ou tarde se esgotam.

 

Será preciso construir um novo modelo econômico. Por enquanto, a falta de crescimento, senão estagnação ou até crescimento negativo de consumidores, por exemplo, não representa uma pressão maior sobre as normais taxas de inflação. Mas estamos diante de um fator deflacionário, embora de progressão lenta e permanente, porém de longo prazo e sem maiores variações conjunturais. Assim, essa pressão deverá aumentar, acabando em deflação definitiva, o que significa que compensações pontuais, como, por exemplo, incentivos à indústria automotiva têm efeito meramente paliativo, mas sem eficácia definitiva.

 

Ainda não estamos na situação do Japão, que está preocupado com o baixo contingente de jovens que possam prestar o serviço militar dentro dos próximos anos, mas chegou a hora de deixar de ignorar a nova realidade demográfica. O fim próximo do longo tempo de crescimento da humanidade exige profundas revisões econômicas, políticas e sócias. Muito embora seja difícil desenhar as consequências de uma sociedade ou uma nação em processo de redução populacional, desde já essa imagem deverá estar presente nos planejamentos e nas decisões de médio e longo prazo, seja na esfera privada, seja na governamental. Certamente não poderão ser medidas balsâmicas, por outro lado seguramente serão inusitadas e ainda precisarão ganhar sua validade para constar dos livros futuros de teoria econômica.          

 

 

Veja também o livro “O Brasil de Menos Gente”, Rehfeldt, K., e-book da ed. amazon, 2018.

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