sábado, 23 de dezembro de 2023

Natal, 1944

 

Natal, 1944

(“Christmas, 1944” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

Extraído das minhas memórias ‘Simplesmente Eu’.

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Parta fins de contextualização, encontramo-nos em dezembro de 1944, na cidade de Breslau, hoje Wroclaw, Polônia, uma cidade ainda relativamente intacta, mesmo a cerca de dois meses antes de ser cercada pelo Exército Vermelho. Na época, eu tinha nove anos e minha irmã, onze, e, já como ginasiana, tinha sido evacuada para uma localidade no interior da Silésia numa operação de proteção contra bombardeios, e chegou poucos dias antes do Natal. Moravam conosco também minha avó e minha tia, que tinham perdido sua moradia num bombardeio.

 

“Minhas lembranças a esse ambiente são especialmente nítidas com relação ao tempo de Natal. Pouco depois da visita do Nicolau no dia 6 de dezembro, que regularmente ameaçava de colocar-me dentro do grande saco que carregava nas costas – eu, certamente, não era nenhum anjo, mas mesmo assim, ele acabava por deixar guloseimas –, as portas do hall de entrada e da sala de jantar, ambas de vidro fosco, que levavam para a sala de estar e a biblioteca de Vati (meu pai), eram fechadas e para nós crianças só restava adivinhar e imaginar o que estava acontecendo lá dentro. Os preparativos do ambiente natalino eram feitos prazerosamente por Mutti (minha mãe) sem a participação de nós crianças, suponho, em horas noturnas quando já estávamos dormindo. Nem víamos o pinheirinho chegar. Apenas achávamos poder enxergar alguma coisa através do vidro fosco das portas. Os sonhos viajavam longe e as expectativas eram imensas. Um ou dois dias antes do Natal, Vati chegava do front na França então para curtas férias anuais em casa e que provavelmente coincidiam com essa data em função da sua alta patente militar. Na noite de Natal, depois de abertas as portas para a sala de estar, um pinheiro que quase tocava o teto, cheio de vela acesas, ‘lametta’ (longas e finas tiras prateadas), bolas de vidro coloridas, doces e outros enfeites, encantou o ambiente. Iniciava-se então o ritual com declamações de versos natalinos por nós crianças, duas ou três canções de Natal eram cantadas por todos, acompanhadas com nossas flautas doces e, finalmente, a entrega dos presentes. Felicidade pura!

 

Para mim, esses presentes consistiam essencialmente de muitos soldadinhos e equipamentos militares em miniatura como tanques, caminhões, veículos leves, canhões, cozinha de campanha e outros mais, complementando todo o arsenal que eu já póssuia. No decorrer dos anos formou-se uma bela coleção de combatentes e materiais bélicos, da qual inclusive fazia parte uma limusine preta, aberta, na qual, em pé, Hitler cumprimentava suas tropas. Nesse último Natal da guerra somou-se a essa coleção uma lindíssima réplica em miniatura do avião Stuka, o bombardeiro de mergulho Ju 87, cujas peças essenciais eram desmontáveis. Terminada a distribuição dos presentes, pai e filho, nessa única ocasião de convivência anual, estavam deitados durante horas sobre o tapete da sala em frente à árvore de natal, montando cenários e formações bélicas. Naquele tempo, com certeza não era a única casa a produzir uma cena natalina tão controversa, mas era uma realidade da época.

Minha irmã teve atendida seu pedido de Natal com o exclamo “Oma, um violoncelo!” Esse violoncelo acompanhou-a de volta ao retiro escolar em Oels, de onde ela o trouxe de volta num trem de fugitivos do leste da Silésia, para depois abandoná-lo definitivamente no dia seguinte, quando deixamos o nosso apartamento – para nunca mais voltar. – Consegui levar o Stuka, que foi enterrado na neve pouco antes do exército russo nos alcançar.”

 

Por mais que minha mãe tentasse manter clima natalino nos anos seguintes, meus Natais de criança despreocupada e alheio aos problemas existenciais tinham acabado.

 

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