Natal, 1944
(“Christmas, 1944” - This text is written in a way to ease comprehensive
electronic translation)
Extraído
das minhas memórias ‘Simplesmente Eu’.
Klaus H. G. Rehfeldt
Parta fins
de contextualização, encontramo-nos em dezembro de 1944, na cidade de Breslau,
hoje Wroclaw, Polônia, uma cidade ainda relativamente intacta, mesmo a cerca de
dois meses antes de ser cercada pelo Exército Vermelho. Na época, eu tinha nove
anos e minha irmã, onze, e, já como ginasiana, tinha sido evacuada para uma localidade
no interior da Silésia numa operação de proteção contra bombardeios, e chegou poucos
dias antes do Natal. Moravam conosco também minha avó e minha tia, que tinham
perdido sua moradia num bombardeio.
“Minhas lembranças a esse ambiente são especialmente
nítidas com relação ao tempo de Natal. Pouco depois da visita do Nicolau no dia
6 de dezembro, que regularmente ameaçava de colocar-me dentro do grande saco
que carregava nas costas – eu, certamente, não era nenhum anjo, mas mesmo assim,
ele acabava por deixar guloseimas –, as portas do hall de entrada e da sala de
jantar, ambas de vidro fosco, que levavam para a sala de estar e a biblioteca
de Vati (meu pai), eram fechadas e para nós crianças só restava adivinhar e
imaginar o que estava acontecendo lá dentro. Os preparativos do ambiente
natalino eram feitos prazerosamente por Mutti (minha mãe) sem a participação de
nós crianças, suponho, em horas noturnas quando já estávamos dormindo. Nem
víamos o pinheirinho chegar. Apenas achávamos poder enxergar alguma coisa
através do vidro fosco das portas. Os sonhos viajavam longe e as expectativas
eram imensas. Um ou dois dias antes do Natal, Vati chegava do front na França então
para curtas férias anuais em casa e que provavelmente coincidiam com essa data
em função da sua alta patente militar. Na noite de Natal, depois de abertas as
portas para a sala de estar, um pinheiro que quase tocava o teto, cheio de vela
acesas, ‘lametta’ (longas e finas tiras prateadas), bolas de vidro coloridas,
doces e outros enfeites, encantou o ambiente. Iniciava-se então o ritual com
declamações de versos natalinos por nós crianças, duas ou três canções de Natal
eram cantadas por todos, acompanhadas com nossas flautas doces e, finalmente, a
entrega dos presentes. Felicidade pura!
Para mim, esses presentes consistiam essencialmente de
muitos soldadinhos e equipamentos militares em miniatura como tanques,
caminhões, veículos leves, canhões, cozinha de campanha e outros mais,
complementando todo o arsenal que eu já póssuia. No decorrer dos anos formou-se
uma bela coleção de combatentes e materiais bélicos, da qual inclusive fazia
parte uma limusine preta, aberta, na qual, em pé, Hitler cumprimentava suas
tropas. Nesse último Natal da guerra somou-se a essa coleção uma lindíssima réplica
em miniatura do avião Stuka, o
bombardeiro de mergulho Ju 87, cujas peças essenciais eram desmontáveis.
Terminada a distribuição dos presentes, pai e filho, nessa única ocasião de
convivência anual, estavam deitados durante horas sobre o tapete da sala em
frente à árvore de natal, montando cenários e formações bélicas. Naquele tempo,
com certeza não era a única casa a produzir uma cena natalina tão controversa,
mas era uma realidade da época.
Minha irmã teve atendida seu pedido de Natal com o exclamo
“Oma, um violoncelo!” Esse violoncelo acompanhou-a de volta ao retiro escolar
em Oels, de onde ela o trouxe de volta num trem de fugitivos do leste da
Silésia, para depois abandoná-lo definitivamente no dia seguinte, quando deixamos
o nosso apartamento – para nunca mais voltar. – Consegui levar o Stuka, que foi enterrado na neve pouco
antes do exército russo nos alcançar.”
Por
mais que minha mãe tentasse manter clima natalino nos anos seguintes, meus
Natais de criança despreocupada e alheio aos problemas existenciais tinham
acabado.
Que linda recordação !!! Muito comovente!
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