quarta-feira, 21 de agosto de 2024

A Era do WhatsApp

 

A Era do ‘WhatsApp’

(‘The 'WhatsApp' Era’ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Durante milhares, dezenas, centenas de milhares de anos, toda a comunicação era de boca a boca. E o que não era comunicado ou transmitido perdeu-se para sempre. A primeira grande revolução na participação do outro numa mensagem, num aviso, ou num registro passou a ser a gravada, seja cunhada em pedra ou tábuas de barro, ou realmente escrito em papiros – e, talvez, outras formas que não se preservaram. Mas, de qualquer forma, tais recursos eram do domínio de poucos e reservados a uma elite oficial e eclesiástica. Em outra alternativa, o mensageiro era o transmissor de notícias e mensagens a distância, às vezes, longa distância – e coitado dele quando a notícia era ruim. Na verdade, até hoje, mensagens altamente reservadas são transmitidas por ‘courier’.

 

Segue um longo período da escrita em papel, que ganhou expressão a partir da antiga Grécia e existe até hoje. Por fim, já na era moderna, vivemos a chegada da telefonia e a radiodifusão. A comunicação a distância por meios elétricos e eletrônicos tinha nascido. Poucas pessoas, porém, hoje de idade avançada, conheceram o telefone e o rádio em sua infância e juventude. Caíram as distâncias na comunicação e uma única voz passou a alcançar milhões de ouvintes.

 

O próximo passo, a cibernética, e, não demorou muito, surgiram as plataformas das assim chamadas redes sociais. A comunicação para massas passou à comunicação entre massas. Dezenas, centenas, milhares de pessoas conseguem agrupar-se em torno de qualquer assunto ou objetivo.     

 

Tecnicamente, as redes sociais funcionam muito bem, mas, em tudo criado pelo homem, nada é perfeito – como ele mesmo. A possibilidade de comunicação global entre oito bilhões de pessoas passou de algo visionário a até duas décadas atrás para uma realidade. O seu próximo amigo virtual pode ser seu vizinho do andar superior ou estar vivendo em Samarqanda, no Uzbequistão. E se hoje apresenta imperfeições, a inteligência artificial promete corrigi-las – quase – totalmente.

 

Politicamente, é a democracia por excelência, na suposição de que não haja intervenções, seja a que interesses sirvam, ou de que origem forem. Permite a manifestação livre de todos para todos, seja de maneira civilizada, seja de forma ofensiva, até agressiva. E fica a marca, a qualidade da manifestação identifica o autor, mas, assim é a humanidade. A palavra expressa não volta para a boca – a imagem está criada.       

 

 Se politicamente o discurso tende a depender fortemente do mérito do assunto e da orientação político-ideológica do cidadão, a modulação social da exposição acaba por revelar toda a gama de grandezas e desvirtudes do ser humano. Trata-se de uma mídia de massa, e a massa anonimiza (este verbo não consta do Aurélio), pelo menos até certo ponto, da qual o indivíduo praticamente desaparece. Essa consciência tende a derrubar barreiras morais e éticas, abrindo portas para o abuso. A princípio, as redes sociais serviam para mensagens de congratulação, amenidades e curiosidades, um caráter lúdico que em grande parte se perdeu.

 

A realidade atual é outra. “Sei lá, se é verdade, mas gostei; toca pra frente! ” No mínimo, uma leviandade, pior quando a mentira evidente ou desinformação for intencional. As redes sociais permitiram a subtração da identidade da mensagem, notícia ou informação. Talvez seja a razão porque o WhatsApp jamais teve, ou então perdeu expressividade em muitos países, com Estados Unidos e Japão, entre outros.

 

Quando temos redes sociais notoriamente impregnadas por inverdades e distorções de fatos - seja dita a verdades, nem todas; talvez nem a maioria -, obviamente as mesmas perdem um de seus aspectos mais importantes: o de um canal de comunicação confiável de amplitude em casos de emergências públicas (vide a recente enchente no Rio Grande do Sul). Atos e abusos levianos, até irresponsáveis, tornaram as redes sociais inviáveis para quaisquer fins de utilidade pública. Por falta de confiabilidade perdeu-se um valioso instrumento para tais situações.

 

Se as redes sociais trouxeram imensas facilidades de comunicação e a aproximação entre as pessoas, ao mesmo tempo produziram avalanches de informações que invadem nossas vidas sem qualquer filtro ou instrumento seletivo entre o falso e o verdadeiro, entre o bem-intencionado e a má-fé.

 

Daí a pergunta: qual será o futuro das redes sociais? Essencialmente, o futuro das redes sociais depende de sua credibilidade, ou seja, da credibilidade dos seus usuários e de das suas contribuições. Afinal, a médio e longo prazo, ninguém aceita ser ludibriado. Afinal, por mais que a ilusão agrade, no momento decisivo, o homem prefere pisar em chão real e firme.

Um comentário:

  1. Por enquanto o "me engana que eu gosto" está levando expressiva vantagem sobre a confiabilidade e a verdade confirmada.

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