sábado, 20 de julho de 2024

Urbanização, um Desafio

 

Urbanização, um Desafio.

(“Urbanization, a Challenge”) – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Formações urbanas existem a milhares de anos. Exemplo é a cidade Harappa, no 3º milênio aC, na civilização do Indo, e que tinha uma estrutura ordenada com ruas dispostas em um padrão quadriculado. Em passados mais recentes, estruturas urbanas costumavam se formar ao redor dos centros de poder, de instalações militarmente estratégicas, ou ao longo de rotas comerciais terrestres, fluviais e marítimas.

 

Uma urbanização mais intensiva resultou do êxodo rural e na radicação de estruturas industriais nos centros urbanos, resultando num pico na Europa, por volta do final do século XIX, e continuando a partir de meados do século XX nos países emergentes e em desenvolvimento. Enquanto na Europa continuavam como padrão edificações de poucos andares, nos Estados Unidos do final do século XIX começaram a surgir as concentrações urbanas mais compactas com os arranha-céus. 

 

A verticalização urbana naquele país transcorreu, como qualquer processo pioneiro, em relativa lentidão, permitindo simultâneos ajustes de planificação urbana. Já na América Latina, essa tendência iniciou-se apenas depois da Segunda Guerra Mundial, porém, em ritmo muito rápido, uma vez que as tecnologias já eram conhecidas. (U pouco mais tarde, vários países asiáticos seguiram a mesma linha.)

 

Fato é que, depois de mais de dois séculos de um crescimento populacional expressivo – às vezes explosivo –, desde 2007, mais da metade da população mundial vive em cidades. (Em tempos pré-industrialização, as populações urbanas oscilavam em torno de 10% da população total.) Hoje, 4,3 bilhões de pessoas (57%) vivem em áreas urbanas, mais de 500 milhões delas em megacidades e grandes cidades com mais de 5 milhões de habitantes. De acordo com as previsões da ONU, a taxa global de urbanização aumentará consideravelmente nas próximas décadas: em 2030 chegará a 59,7% e em 2050 chegará finalmente a 69,6%.

 

Levando em conta algumas particularidades, o Brasil acompanhou toda essa evolução de sociedade eminentemente rural para outra, majoritariamente urbanizada. Entretanto, o senso de 2022 revelou uma nova realidade – a despovoação dos centros urbanos, mormente dos maiores. Praticamente todas as grandes cidades registraram um decréscimo de sua população, embora a população do país apresente um ligeiro crescimento. Os centros dessas cidades, que já eram densa e prosperamente residenciais, abrigam cada vez menos moradores, e mesmo os remanescentes pertencem a populações de menores recursos. Muitos prédios anteriormente habitados passaram a ter uso comercial – de padrão decrescente –, ou então estão vazios. Os preços de imóveis estando cada vez mais deteriorados, e, consequentemente, os alugueis em declínio atraem sempre mais locadores de recursos limitados.

 

Na verdade, as condições de habitação nesses centros urbanos mais antigos tornam-se cada vez mais precárias, seja pela própria inadequação às modernas necessidades e estilos domésticos (p.ex. apenas uma tomada elétrica por peça), seja pela infraestrutura insatisfatória do local, uma vez que os supermercados e outros estabelecimentos comerciais de bens e serviços já se deslocaram para as periferias ou cidades satélites. Aliás, os estabelecimentos industriais foram os primeiros a procurar espaços fora dos perímetros das grandes cidades. Mesmo o comércio remanescente sofre mutação para padrões cada vez mais populares; garagens somente a preço significante. No momento ainda permanecem educandários, centros clínicos e repartições públicas, entre outros de utilidade pública, devido suas localizações estratégicas – e acomodações tipicamente para moradores de baixo poder aquisitivo.  

 

Enquanto isso, as cidades satélites das metrópoles crescem substancialmente, oferendo condições afinadas com os requisitos da vida moderna; embora nem sempre as infraestruturas viárias atendam à demanda, por outro lado, incentivando o trabalho a distância.

 

Soluções? Os arquitetos e urbanistas, há tempo, estão cientes da situação e têm suas propostas. Falta o poder público assumir seu papel de planejador principal da nova urbe, que deixou de exercer no período da expansão das cidades – digamos, até por falta de preparo e o atropelo de uma dinâmica urbana inesperada – e a consciência da necessidade de recursos para tal. Cabe ao poder público estabelecer rumos, ao invés de remediar omissões ou desacertos.

 

Não haverá volta para a sociedade rural, o que significa que não há alternativa para a vida urbana, para a cidade como tal. E essa realidade terá de ser encarada pelo poder público, não sem a participação da iniciativa privada, ou seja, da própria sociedade. Ao cidadão cabe reivindicar. Afinal, a cidade moderna deve ser desenvolvida de tal forma que os residentes tenham tudo o que precisam na vida cotidiana dentro de um raio relativamente pequeno, isso é, qualidade de vida. As pessoas de hoje têm a inteligência e os meios para enfrentar os desafios da urbanização. A vontade é decisiva.

 

E há algo essencial: a cidade deve mudar de cor – de cinza para verde.

 

 

 

 

 

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