Urbanização, um Desafio.
(“Urbanization, a Challenge”) – This text has been written in such a way as to
facilitate translations by electronic means)
Klaus H. G. Rehfeldt
Formações
urbanas existem a milhares de anos. Exemplo é a cidade Harappa, no 3º milênio
aC, na civilização do Indo, e que tinha uma estrutura ordenada com ruas
dispostas em um padrão quadriculado. Em passados mais recentes, estruturas
urbanas costumavam se formar ao redor dos centros de poder, de instalações
militarmente estratégicas, ou ao longo de rotas comerciais terrestres, fluviais
e marítimas.
Uma urbanização mais intensiva resultou do êxodo rural e na radicação
de estruturas industriais nos centros urbanos, resultando num pico na Europa, por
volta do final do século XIX, e continuando a partir de meados do século XX nos
países emergentes e em desenvolvimento. Enquanto na Europa continuavam como
padrão edificações de poucos andares, nos Estados Unidos do final do século XIX
começaram a surgir as concentrações urbanas mais compactas com os
arranha-céus.
A verticalização urbana naquele país transcorreu, como qualquer
processo pioneiro, em relativa lentidão, permitindo simultâneos ajustes de
planificação urbana. Já na América Latina, essa tendência iniciou-se apenas
depois da Segunda Guerra Mundial, porém, em ritmo muito rápido, uma vez que as
tecnologias já eram conhecidas. (U pouco mais tarde, vários países asiáticos
seguiram a mesma linha.)
Fato é que, depois de mais de dois séculos de um crescimento
populacional expressivo – às vezes explosivo –, desde 2007, mais da metade da
população mundial vive em cidades. (Em tempos pré-industrialização, as
populações urbanas oscilavam em torno de 10% da população total.) Hoje, 4,3
bilhões de pessoas (57%) vivem em áreas urbanas, mais de 500 milhões delas em
megacidades e grandes cidades com mais de 5 milhões de habitantes. De acordo
com as previsões da ONU, a taxa global de urbanização aumentará
consideravelmente nas próximas décadas: em 2030 chegará a 59,7% e em 2050
chegará finalmente a 69,6%.
Levando em conta algumas particularidades, o Brasil acompanhou toda
essa evolução de sociedade eminentemente rural para outra, majoritariamente
urbanizada. Entretanto, o senso de 2022 revelou uma nova realidade – a
despovoação dos centros urbanos, mormente dos maiores. Praticamente todas as
grandes cidades registraram um decréscimo de sua população, embora a população
do país apresente um ligeiro crescimento. Os centros dessas cidades, que já
eram densa e prosperamente residenciais, abrigam cada vez menos moradores, e
mesmo os remanescentes pertencem a populações de menores recursos. Muitos
prédios anteriormente habitados passaram a ter uso comercial – de padrão
decrescente –, ou então estão vazios. Os preços de imóveis estando cada vez
mais deteriorados, e, consequentemente, os alugueis em declínio atraem sempre
mais locadores de recursos limitados.
Na verdade, as condições de habitação nesses centros urbanos mais
antigos tornam-se cada vez mais precárias, seja pela própria inadequação às
modernas necessidades e estilos domésticos (p.ex. apenas uma tomada elétrica
por peça), seja pela infraestrutura insatisfatória do local, uma vez que os
supermercados e outros estabelecimentos comerciais de bens e serviços já se
deslocaram para as periferias ou cidades satélites. Aliás, os estabelecimentos
industriais foram os primeiros a procurar espaços fora dos perímetros das grandes
cidades. Mesmo o comércio remanescente sofre mutação para padrões cada vez mais
populares; garagens somente a preço significante. No momento ainda permanecem
educandários, centros clínicos e repartições públicas, entre outros de
utilidade pública, devido suas localizações estratégicas – e acomodações
tipicamente para moradores de baixo poder aquisitivo.
Enquanto isso, as cidades satélites das metrópoles crescem
substancialmente, oferendo condições afinadas com os requisitos da vida
moderna; embora nem sempre as infraestruturas viárias atendam à demanda, por
outro lado, incentivando o trabalho a distância.
Soluções? Os arquitetos e urbanistas, há tempo, estão cientes da
situação e têm suas propostas. Falta o poder público assumir seu papel de
planejador principal da nova urbe, que deixou de exercer no período da expansão
das cidades – digamos, até por falta de preparo e o atropelo de uma dinâmica
urbana inesperada – e a consciência da necessidade de recursos para tal. Cabe
ao poder público estabelecer rumos, ao invés de remediar omissões ou desacertos.
Não haverá volta para a sociedade rural, o que significa que não há
alternativa para a vida urbana, para a cidade como tal. E essa realidade terá
de ser encarada pelo poder público, não sem a participação da iniciativa
privada, ou seja, da própria sociedade. Ao cidadão cabe reivindicar. Afinal, a cidade moderna deve ser desenvolvida de tal forma que os
residentes tenham tudo o que precisam na vida cotidiana dentro de um raio
relativamente pequeno, isso é, qualidade de vida. As pessoas de hoje têm a
inteligência e os meios para enfrentar os desafios da urbanização. A vontade é
decisiva.
E há algo essencial: a
cidade deve mudar de cor – de cinza para verde.
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