O Poder Emergente de Cabelo Branco
(“The Emerging Power of
White Hair” - This text is written in a way to
ease comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Cabelo branco tem
poder? Nunca teve. Respeito? Também nem sempre. O cabelo branco sinalizava, isso
sim, o fim da vida útil. E não era para menos quando quase todo o trabalho era
braçal, era fisicamente desgastante até, finalmente, resultar improdutivo.
Restava, então, aguardar o desfecho final, eventualmente auxiliando aindaos
filhos em tarefas fáceis. Algo em torno dos 60 anos era o fim da linha. Quando,
por exemplo, Bismark criou na Alemanha o primeiro plano governamental de
aposentadoria, apenas muito poucos alcançavam o limite de idade de 70 anos para
conseguir uma pensão de velhice.
Há um
detalhe, as mulheres vivem mais que os homens, entre 4 e 6 anos, conforme
diferentes sociedades com diferentes hábitos de vida. As razões são várias: o
estilo de vida diferente entre os sexos, desgaste físico, mas, possivelmente,
também a perda de cromossomos-Y com o avanço da idade. Devido aos primeiros
dois fatores, em boa parte resultando da crescente vida urbana e do trabalho
industrial, a expectativa de vida das mulheres aumentou mais rápido do que a
dos homens ao longo dos últimos dois séculos. Agora, um estudo chegou à
conclusão de que desde o final do século 20, esse desequilíbrio vem diminuindo
novamente.
É sabido,
que registros mais antigos de baixa expectativa de vida (em torno de 45 anos
nos anos de 1950) se devem às altas taxas de mortalidade infantil, hoje muito
pequenas. Mesmo assim, desde meados do século passado, percebe-se um
significativo alongamento da vida. Condições de vida mais amenas, uma vida mais
saudável e recurso medicinais cada vez mais eficientes contribuem fortemente
para essa nova realidade. Entretanto, por mais que haja especulações de um
aumento de vida muito além dos 100 anos, a curva histórica desse aumento projeta
uma estabilização em torno de 95 a 105 anjos – obviamente com exceções.
Os
fatores mais importantes, porém, desse quadro são a gradual melhora do estado
físico e mental, e da disposição para viver plenamente e com autonomia do idoso
atual. São hoje pessoas que em grande parte moram sozinhas, vão ao
supermercado, lidam razoavelmente bem com recursos cibernéticos, muitos dirigem
seus carros, outros ainda trabalham, e viajam até ao exterior (basta olhar os
passageiros de cruzeiros marítimo).
Numericamente
falando, o idoso está formando um segmento cada vez maior dentro da população. No
Brasil, a população acima de 60 anos de idade deixou de ser o menor estrato populacional,
hoje superando o número de pessoas na faixa de 15 a 24 anos. É preciso lembrar,
que a faixa de 0 a 18 anos já foi a mais numerosa do país. A atual população de
idosos (60+ anos) do Brasil são 15,1% da população total, representando 31,3
milhões de habitantes (IBGE). Ela aumentou em expressivos 16% no período de
2000 a 2023.
Quando
falamos em 31,3 milhões de pessoas, elas não podem mais ser vistas apenas como
ônus da previdência social, muito menos como moradores de ancionatos, ou
similares. São 31,3 milhões de eleitos qualificados. A importância de seu voto,
ou sua abstenção, ficou evidente no exemplo da Inglaterra por ocasião do
plesbicito sobre o Brexit (a saída da Inglaterra da Comunidade Europeia): os
idosos, conservadores por natureza e que poderiam tê-lo evitado, deixaram de ir
às urnas na convicção de que a ideia não prevalecesse, permitindo ao voto jovem
aprova-la.
Aparentemente,
diferentemente do mundo econômico, o político brasileiro ainda não percebeu o
poder emergente desse contingente populacional. Basta desperta-lo por uma
causa, não necessariamente ideológica, e esse grupo pode tornar-se um fiel de
balança. E, com a histórica negligência em relação a essa população, não faltam
causas a serem defendidas. Obviamente, uma agremiação política dos idosos (p.
ex., PI, Partido dos Idosos) está fora de cogitação, mas a defesa de suas causas
certamente poderia servir de plataforma para muitos projetos políticos.
É verdade
que, comparado com outros países, inclusiva a Europa, o Brasil tem uma
legislação de proteção e facilitação para o idoso bastante avançada. Todavia,
ainda há um campo enorme de necessidades a serem atendidas, a começar pelos
valores da aposentadoria que se deterioram ano a ano. Afinal, o desvio,
durante décadas, das contribuições sociais para o custeio do aparato
governamental, em vez de serem capitalizadas, conforme prevê a lei, não é culpa
do contribuinte, hoje idos. Mas, basta perguntar ao idoso e ele terá muitas
sugestões e reivindicações concretas e justas.
E, com a
gradual diminuição da população jovem, os idosos ocuparão uma parcela cada vez
maior e relevante na sociedade.
O político brasileiro enxerga de longe o que lhe interessa a curto prazo, mas é extremamente míope às necessidades justas de uma faixa da população que poderia, num pleito eleitoral, favorece-lo.
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