sábado, 31 de agosto de 2019

Boi no Lixo



Boi no Lixo

Klaus H. G. Rehfeldt

As recentes discussões sobre incêndios e queimadas na Amazônia trouxeram diversos assuntos colaterais para as manchetes da mídia. Praticas tradicionais de queima de pastagens, desmatamentos – legais e clandestinos – para fins de ganho de espaço agrícola nas bordas das florestas amazônicas, garimpagem ilegal e extração autorizada de riquezas no subsolo na Amazônia Legal e a importância ecológica da flora e fauna invadiram as pautas de gabinetes de presidentes e primeiros ministros. Há preocupações legítimas, há interesses políticos, há objetivos econômicos e há apreensões ecológicas, todos com prós e contras.
Em todos os debates, porém, um assunto de importância central em toda a problemática ficou de fora das argumentações: o desperdício, especialmente de alimentos. Embora os maiores desaproveitamentos dessa natureza ocorrem exatamente nos países mais ricos, chegando a 40% dos seus produtos alimentícios, o Brasil também faz parte desse universo. Em resumo, os desperdícios brasileiros, segundo a FAO, incluem 30% de pescado, 20% dos lácteos, 45% de frutas, hortaliças, tubérculos e raízes, 20% dos legumes, e 20% da carne bovina.
Para ilustrar a gravidade do problemas, cabe pormenorizar este último aspecto. Da produção brasileira de carne de gado de cerca de 9.250 mil toneladas/ano, o consumo interno é de aproximadamente 7.600 mil toneladas. O mencionado desperdício de 20% resulta na astronômica quantidade de 1.520 mil toneladas – um milhão e meio de toneladas – ou seja, um volume que corresponde a mais de 90% das exportações desse produto, que somam 1.640 mil toneladas.
E um desperdício monstruoso. A monstruosidade é maior: são cerca de 380 mil bois, novilhos etc. (sim, 380.000 cabeças de gado por ano) criados, mortos e beneficiados no Brasil que acabam em algum ponto entre o frigorífico e o prato do consumidor – na lata de lixo! Ao lado de 45 milhões de frangos e 4 milhões e porcos em todo o mundo. Desperdício não é apenas um problema econômico – é uma profunda questão ética.
Discutir a quem cabem as soluções parece inócuo. Para o produtor, a não ser por razões morais, não interessa uma redução de demanda e o comerciante e o dono do restaurante compensam suas perdas no preço. A resposta real e verdadeira pode vir somente do cidadão consciente e probo, seja ele consumidor, comerciante ou produtor, e que enxerga na redução de desperdício um padrão de vida. Não temos um segundo planeta para explorar.      


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

A Capitalização Inevitável



A Capitalização Inevitável *)
Klaus H. G. Rehfeldt

Com a Reforma da Previdência em processo de aprovação final, continua em evidência a busca por fórmulas de custeio do sistema de aposentadoria. Um fator central da preocupação com a manutenção da fórmula atual é, com razão, o continuo aumento da expectativa de vida do brasileiro e o consequente desequilíbrio na proporção entre as populações economicamente ativa e de aposentados. Um contingente cada vez maior de aposentados e por um tempo cada vez mais longo deverá ser bancado com as contribuições diretas e indiretas de uma população quase inalterada de pessoas economicamente ativas.
            Diversos indícios que agravem sensivelmente essa situação, são totalmente ignorados e desprezados. Esses localizam-se na outra extremidade da escala da vida – na infância e juventude. Por um lado, a taxa de fertilidade de 1,7 filho por mulher (deveriam ser 2,1 filhos para manter a população estável), e por outro, confirmando este dado, uma contínuo queda no número de matrículas no ensino fundamental de cerca de 18% entre 2005 e 2018 (dados do IBGE) sinalizam o início de um claro decréscimo demográfico dentro de um prazo de poucos anos. Este último dado permite-nos a seguinte projeção: a mesma queda deverá ser observada nos jovens que entrarão com a idade de 18 anos na vida econômica no período de 2017 a 2027.
            Estes dados não decorrem de um episódio momentâneo, mas indicam uma clara tendência sem previsão de término, e percebe-se facilmente a urgente necessidade de encontrar uma nova modalidade de suportar financeiramente o sistema previdenciário. À parte considerações ideológicas, é preciso reconhecer que vivemos na era da informação e do consequente amadurecimento da humanidade, especialmente daquela parcela inserida na vida econômica. O atual grau de maturidade nos qualifica perfeitamente para assumirmos as responsabilidades pelo destino das nossas vidas. Reciprocamente, mais responsabilidade resulta em mais maturidade.
            Na conjunção desses fatores, a gestão participativa na construção dos recursos para a aposentadoria por via de planos de capitalização apresenta-se como solução não somente lógica, mas inevitável. Uma velhice garantida pelo esforço dos (poucos) filhos, cujo futuro fica cada vez mais imprevisível, não cabe mais neste mundo. A contrapartida do Estado consiste em garantir a solvência dos capitais acumulados.

*) Publicado no jornal NSC Santa, em 29.08.2019

Nota:
O aumento estimado da população brasileira com taxa anual de 0,79% (IBGE, 28.08.2019) não é necessariamente um crescimento populacional uma vez que decorre fortemente do expressivo aumento da expectativa de vida. Evidencia isso a queda nas matrículas do ensino fundamental em média de 1,5% anuais ao longo dos últimos 12 anos (IBGE, Cidades).     

sábado, 24 de agosto de 2019

Vilão da Vez: O Metano



Vilão da Vez: O Metano

Klaus H. G. Rehfeldt

Extintos os incêndios a Amazônia, a ecologia voltará à sua pauta e ao assunto do momento: as emissões de gás metano.
Desde quando se formou consciência em torno da preservação do meio ambiente na década de 1960, vários vilões já passaram pelo palco da ecologia – obviamente, não sem razão e amplamente fundamentados com dados incontestáveis. Outros, porém, nem sempre foram retratados com a gravidade e magnitude corretas. Afim de justificar a necessidade de existência do movimento verde, não raro houve exageros e manipulação nos dados apresentados ao público, mas igualmente aos órgãos oficiais. A verificação da autenticidade de dados e fontes nesse campo muitas vezes é difícil.
Especificamente abordando o metano cabem algumas considerações a respeito de tais vícios. As recentes revelações sobre aumentos das emissões desse gás excluem totalmente aquelas decorrentes do derretimento do permafrost (congelamento permanente do solo), por exemplo nas tundras russas. Citam, no entanto, as causas como a queima de combustíveis fósseis (carvão na China), o plantio de arroz (na Ásia), vazamentos no fracking (extração de gás nos EUA) e, com destaque, a origem animal.
No centro da questão está a criação de gado bovino. Há, sem dúvida, um aumento dos rebanhos em várias partes do mundo, acompanhando – em escala bem menor – o crescimento da população humana. Enquanto a humanidade cresceu em 140% entre 1961 e 2914, o rebanho bovino mundial expandiu-se em apenas 58% no mesmo período (FAO). Mais recentemente, o rebanho da Comunidade Europeia diminuiu no período de 2007 a 2013 em 6,6 milhões de cabeça (4,8%), em parte reflorestando as áreas assim liberadas. Ao mesmo tempo         compensa esta queda com crescentes importações de carne. Em outras palavras, a Europa está exportando a emissão de gases – além do elevado consumo de água envolvido na produção de carne –, inclusive para o Brasil.  
Com relação ao crescimento dos rebanhos, temos na América do Norte uma situação particular. O atual rebanho de cerca de 100 milhões de cabeças de gado equivale aproximadamente em peso – e em alimentação – aos estimados 60 milhões de búfalos praticamente exterminados no passado. Não houve, portanto, qualquer sensível alteração na geração de metano de origem animal nesse espaço geográfico.   
Pergunta-se então: Cabe apontar o dedo e responsabilizar apenas o criador de gado pela emissão do gás metanos de origem animal, como o Brasil? E o consumidor da carne no exterior?


quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Desmatamento



Desmatamento

Klaus H. G. Rehfeldt

A madeira ganhou importância na vida do homem a partir do momento em que ele dispunha de ferramentas, por mais rudes que fossem, para adaptá-la às suas necessidade. Até então, a árvore fornecia frutas e lenha, dava sombra e eventualmente oferecia abrigo: mas também podia servir de símbolo das relações entre o céu e a terra, os deuses e o homem. Com o começo do seu beneficiamento, a madeira passou a servir de matéria prima para armas e fermentas, e material de construção de moradias, fortificações e embarcações. Ao longo do avanço das civilizações tornou-se indispensável para a vida cotidiana.
            Com exceção dos territórios áridos, estepes e regiões muito elevadas, as florestas eram bastante abundantes em todo o mundo. Os primeiros conflitos em torno das florestas começaram a surgir quando o homem do campo reivindicava seu usufruto para o sustento próprio e o de seus animais enquanto a nobreza desejava mantê-los como suas reservas de caça. Sempre, porém, a ampliação e a maior intensidade de sua exploração, seja como combustível na extração de sal, para a fundição de minérios, ou como material de construção nas crescentes cidades acompanhou o progresso da humanidade.
            O que historicamente era um uso perfeitamente compatível com a regeneração natural da natureza começou a apresentar caráter de desequilíbrio nos séculos XVI e XVII, quando o crescente uso da madeira não foi compensado por replantios, Países como Portugal e Espanha, por exemplo, converterem seu patrimônio florestal, relativamente limitado, em caravelas. Com o início da industrialização, a extração de madeira começou a assumir proporções gigantescas, tanto na forma de combustível, quanto como elemento construtivo. Na Alemanha, por exemplo, a mineração praticamente desflorestou a região montanhosa dos Harz e grandes partes da floresta da Turíngia e Saxônia. A rápida expansão das redes de estrada de ferro foi outro fator. Cada quilômetro de via férrea consumia cerca de 180 m3, ou seja, 140 toneladas de madeira de lei, em dormentes, renováveis a cada 25 a 30 anos. Em fins do século XIX, só na Europa Central já havia uma rede de ferrovias de cerca de 150 mil quilômetros (27 milhões de m3, 21 milhões de toneladas de dormentes). Esta é apenas uma situação específica.
            Bastava que houvesse florestas, a extração da madeira era praticada progressivamente sem qualquer preocupação, muito menos restrição. Rússia, Canadá, Estados Unidos, mas também países tropicais como o Brasil e a Indonésia derrubaram extensas áreas de suas reservas florestais. As primeira reações surgiram exatamente onde o descomedimento teve seu início – na Europa Central iniciaram-se reflorestamentos a partir de fins do século XIX. Ao mesmo tempo, porém, os países dessa região começaram a importar madeira daqueles países que dispunham de grandes reservas florestais, muitos deles em fase inicial de seu desenvolvimento e ávidos por saldos positivos em seus balanços comerciais, o Brasil entre eles. Mais recentemente, países europeus tentam pagar suas dívidas com a natureza investindo em reflorestamentos em países tropicas, mormente africanos, para a obtenção de bônus energéticos.
            Com a emergente questão da ecologia na segunda metade do século XX, as várias formas de poluição, o efeito de estufa decorrente de emissões de CO2 e outros gases, além de outros aspectos de degradação ambiental, ganharam importância e ressonância, principalmente naqueles países que mais contribuíram para tais fenômenos. Obviamente surgiram respostas, entre intenções e fatos, na medida em que os danos ecológicos de agravavam e o clamor de certos segmentos da população aumentava. Mas na prática, as metas estabelecidas de preservação ambiental costumam não ser cumpridas.
            Hoje, as ações ambientais em cursos são de âmbito mundial. Com isso aumenta a pressão, especialmente dos países mais desenvolvidos (Europa, EUA) sobre aqueles países com as maiores reservas florestais que, legal ou ilegalmente, recorrem ao desmatamento para fins de exploração da madeira, em geral em combinação com a obtenção de áreas cultiváveis. Ao mesmo tempo, registram-se realidades emblemáticas. Os Estado Unidos defendem a tese: agricultura aqui (nos EUA), florestas lá (inclusive no Brasil). Enquanto esses países criticam o desmatamento em outros países, como o Brasil, as importações de madeira da Alemanha representam um média anual de 9,2 milhões de m3 nos últimos 5 anos, o Reino Unido importa uma média mensal de 60 mil toneladas de madeira e produtos de madeira tropicais e a Europa toda importou 300 mil toneladas de compensado tropical e 2018. Ao mesmo tempo, a Europa aumentou sua área florestal em 400 mil hectares no período de 2010 a 2015.
            Com o avanço da fronteira agrícola, grandes áreas de floresta brasileira foram desmatadas para a obtenção de pastagem. Um dos beneficiários do ganho dessa área cultivada é ninguém menos que a Europa que, nos últimos sete anos importou uma média anual de 240 mil toneladas de carne bovina.
            Resumindo: ao mesmo tempo em que países como o Brasil, mas também vários países africanos e a Indonésia, são colocados no pelourinho, os acusadores, que já cometeram os mesmos atos, beneficiam-se dos frutos dos supostos crimes ambientais. Há muita coisa fundamentalmente errada.

*
           
Quem vive conscientemente não pode negar os abusos cometidos contra a natureza em nosso passado mais recente. Sempre haverá pessoas que neguem tal fato como outras negam que a Terra é redonda. Por outro lado, a discussão sobre se as causas das efetivas mudanças climáticas – que já houve em vários momentos vezes da história do nosso planeta – são naturais ou decorrentes da ação do homem, ou em qual proporção cada causa contribui para essa realidade, pode ser interessante, mas não leva a nada concreto. Talvez os netos desta geração terão elementos suficientes para arriscar respostas. Leituras de tomadas fotográficas de satélite para cá, interpretações de dados climáticos para lá, a única postura responsável e válida diante das certezas e dúvidas que tenhamos reside no empenho máximo de todos, dos mandatários da nação ao mais humilde dos cidadãos, no sentido de garantir as melhores condições de vida àqueles nossos netos. Ou seremos chamados em futuro não muito longe de geração criminosamente negligente com seus descendentes.

Se você, leitor, concorda, compartilhe.    
           

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Longevidade e Expectativa de Vida



Longevidade e Expectativa de Vida *)

Klaus H. G. Rehfeldt

Ao longo das últimas décadas, dois assuntos frequentem seguidamente os noticiários: a longevidade e a expectativa de vida. A razão – ambas encontram-se em contínua elevação. Embora aparentemente sinônimos para um mesmo fenômeno, são, na realidade, dois conceitos muito distinto. A duração de vida, da qual a longevidade é uma particularidade, está ligada ao limite biológico de idade de cada espécie, inclusive da humana. Este limite não está claramente definido, podendo no homem situar-se entre os 90 e 100 anos, embora em todos os tempos tenha havido pessoas que atingiram idades acima de 100 anos. Existem especulações sobre a possibilidade de estender este limite por meio de recursos médico-científicos, mas são apenas especulações. De concreto sabe-se que a natureza não conhece a identidade ou igualdade: não existem dois grãos e arreia iguais, nem duas folhas da mesma árvore ou dois animais da mesma raça idênticos – nem no homem. Todas as características que descrevem qualquer ser representam valores médios, sejam elas físicas (tamanho, solidez óssea – nosso hardware) ou sejam de natureza funcional (eficiência metabólica, capacidade mental – nosso software) da qual resulta a duração de vida. Os valores que se situarem próximos da faixa média representam a normalidade, quanto mais se afastarem desse eixo, mais fortes ficam os indícios de anomalia. Transposto para a idade, isso significa que ocasionais idades muito elevadas devem ser vistas como anomalia, longe de indicarem eventuais tendências para longevidades por muito sonhados. Muito frequentemente, o caráter de anomalia inerente a tais casos fica claro quando se observa que as pessoas nessa situação costumam sofrer de total carência de autonomia.
A expectativa de vida, porém, é a idade que a média da população de uma sociedade atinge, sempre contada a partir de determinado instante da vida, podendo ser a expectativa ao nascer (Brasil, média de 76 anos), ou, como exemplo, ao atingir a idade de 60 anos (Brasil, média de 84 anos). A expectativa de vida da mulher costuma ser em até 10% mais longa que a do homem. Mudanças na expectativa de vida dependem essencialmente mudanças das condições de vida, i.e., da qualidade de vida – da alimentação ao conforto social, talvez mais fielmente sintetizado pelo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de cada sociedade.
         
*) Extraído do manuscrito do livro “O Brasil de Menos Gente” que em breve será publicado.