quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Desmatamento



Desmatamento

Klaus H. G. Rehfeldt

A madeira ganhou importância na vida do homem a partir do momento em que ele dispunha de ferramentas, por mais rudes que fossem, para adaptá-la às suas necessidade. Até então, a árvore fornecia frutas e lenha, dava sombra e eventualmente oferecia abrigo: mas também podia servir de símbolo das relações entre o céu e a terra, os deuses e o homem. Com o começo do seu beneficiamento, a madeira passou a servir de matéria prima para armas e fermentas, e material de construção de moradias, fortificações e embarcações. Ao longo do avanço das civilizações tornou-se indispensável para a vida cotidiana.
            Com exceção dos territórios áridos, estepes e regiões muito elevadas, as florestas eram bastante abundantes em todo o mundo. Os primeiros conflitos em torno das florestas começaram a surgir quando o homem do campo reivindicava seu usufruto para o sustento próprio e o de seus animais enquanto a nobreza desejava mantê-los como suas reservas de caça. Sempre, porém, a ampliação e a maior intensidade de sua exploração, seja como combustível na extração de sal, para a fundição de minérios, ou como material de construção nas crescentes cidades acompanhou o progresso da humanidade.
            O que historicamente era um uso perfeitamente compatível com a regeneração natural da natureza começou a apresentar caráter de desequilíbrio nos séculos XVI e XVII, quando o crescente uso da madeira não foi compensado por replantios, Países como Portugal e Espanha, por exemplo, converterem seu patrimônio florestal, relativamente limitado, em caravelas. Com o início da industrialização, a extração de madeira começou a assumir proporções gigantescas, tanto na forma de combustível, quanto como elemento construtivo. Na Alemanha, por exemplo, a mineração praticamente desflorestou a região montanhosa dos Harz e grandes partes da floresta da Turíngia e Saxônia. A rápida expansão das redes de estrada de ferro foi outro fator. Cada quilômetro de via férrea consumia cerca de 180 m3, ou seja, 140 toneladas de madeira de lei, em dormentes, renováveis a cada 25 a 30 anos. Em fins do século XIX, só na Europa Central já havia uma rede de ferrovias de cerca de 150 mil quilômetros (27 milhões de m3, 21 milhões de toneladas de dormentes). Esta é apenas uma situação específica.
            Bastava que houvesse florestas, a extração da madeira era praticada progressivamente sem qualquer preocupação, muito menos restrição. Rússia, Canadá, Estados Unidos, mas também países tropicais como o Brasil e a Indonésia derrubaram extensas áreas de suas reservas florestais. As primeira reações surgiram exatamente onde o descomedimento teve seu início – na Europa Central iniciaram-se reflorestamentos a partir de fins do século XIX. Ao mesmo tempo, porém, os países dessa região começaram a importar madeira daqueles países que dispunham de grandes reservas florestais, muitos deles em fase inicial de seu desenvolvimento e ávidos por saldos positivos em seus balanços comerciais, o Brasil entre eles. Mais recentemente, países europeus tentam pagar suas dívidas com a natureza investindo em reflorestamentos em países tropicas, mormente africanos, para a obtenção de bônus energéticos.
            Com a emergente questão da ecologia na segunda metade do século XX, as várias formas de poluição, o efeito de estufa decorrente de emissões de CO2 e outros gases, além de outros aspectos de degradação ambiental, ganharam importância e ressonância, principalmente naqueles países que mais contribuíram para tais fenômenos. Obviamente surgiram respostas, entre intenções e fatos, na medida em que os danos ecológicos de agravavam e o clamor de certos segmentos da população aumentava. Mas na prática, as metas estabelecidas de preservação ambiental costumam não ser cumpridas.
            Hoje, as ações ambientais em cursos são de âmbito mundial. Com isso aumenta a pressão, especialmente dos países mais desenvolvidos (Europa, EUA) sobre aqueles países com as maiores reservas florestais que, legal ou ilegalmente, recorrem ao desmatamento para fins de exploração da madeira, em geral em combinação com a obtenção de áreas cultiváveis. Ao mesmo tempo, registram-se realidades emblemáticas. Os Estado Unidos defendem a tese: agricultura aqui (nos EUA), florestas lá (inclusive no Brasil). Enquanto esses países criticam o desmatamento em outros países, como o Brasil, as importações de madeira da Alemanha representam um média anual de 9,2 milhões de m3 nos últimos 5 anos, o Reino Unido importa uma média mensal de 60 mil toneladas de madeira e produtos de madeira tropicais e a Europa toda importou 300 mil toneladas de compensado tropical e 2018. Ao mesmo tempo, a Europa aumentou sua área florestal em 400 mil hectares no período de 2010 a 2015.
            Com o avanço da fronteira agrícola, grandes áreas de floresta brasileira foram desmatadas para a obtenção de pastagem. Um dos beneficiários do ganho dessa área cultivada é ninguém menos que a Europa que, nos últimos sete anos importou uma média anual de 240 mil toneladas de carne bovina.
            Resumindo: ao mesmo tempo em que países como o Brasil, mas também vários países africanos e a Indonésia, são colocados no pelourinho, os acusadores, que já cometeram os mesmos atos, beneficiam-se dos frutos dos supostos crimes ambientais. Há muita coisa fundamentalmente errada.

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Quem vive conscientemente não pode negar os abusos cometidos contra a natureza em nosso passado mais recente. Sempre haverá pessoas que neguem tal fato como outras negam que a Terra é redonda. Por outro lado, a discussão sobre se as causas das efetivas mudanças climáticas – que já houve em vários momentos vezes da história do nosso planeta – são naturais ou decorrentes da ação do homem, ou em qual proporção cada causa contribui para essa realidade, pode ser interessante, mas não leva a nada concreto. Talvez os netos desta geração terão elementos suficientes para arriscar respostas. Leituras de tomadas fotográficas de satélite para cá, interpretações de dados climáticos para lá, a única postura responsável e válida diante das certezas e dúvidas que tenhamos reside no empenho máximo de todos, dos mandatários da nação ao mais humilde dos cidadãos, no sentido de garantir as melhores condições de vida àqueles nossos netos. Ou seremos chamados em futuro não muito longe de geração criminosamente negligente com seus descendentes.

Se você, leitor, concorda, compartilhe.    
           

2 comentários:

  1. https://www.instagram.com/p/B1eREeDARQy/?igshid=pfduvdpo4yso veja isto Herr Rehfeldt

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  2. É tudo verdade. Mas, entre o que se diz lá e ca sobre as queimadas na Amazônia, quem afinal está com a verdade? Um lado, ambos, nenhum

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