Desmatamento
Klaus H. G. Rehfeldt
A
madeira ganhou importância na vida do homem a partir do momento em que ele
dispunha de ferramentas, por mais rudes que fossem, para adaptá-la às suas
necessidade. Até então, a árvore fornecia frutas e lenha, dava sombra e
eventualmente oferecia abrigo: mas também podia servir de símbolo das relações
entre o céu e a terra, os deuses e o homem. Com o começo do seu beneficiamento,
a madeira passou a servir de matéria prima para armas e fermentas, e material
de construção de moradias, fortificações e embarcações. Ao longo do avanço das
civilizações tornou-se indispensável para a vida cotidiana.
Com exceção dos territórios áridos,
estepes e regiões muito elevadas, as florestas eram bastante abundantes em todo
o mundo. Os primeiros conflitos em torno das florestas começaram a surgir
quando o homem do campo reivindicava seu usufruto para o sustento próprio e o
de seus animais enquanto a nobreza desejava mantê-los como suas reservas de
caça. Sempre, porém, a ampliação e a maior intensidade de sua exploração, seja
como combustível na extração de sal, para a fundição de minérios, ou como
material de construção nas crescentes cidades acompanhou o progresso da
humanidade.
O que historicamente era um uso
perfeitamente compatível com a regeneração natural da natureza começou a
apresentar caráter de desequilíbrio nos séculos XVI e XVII, quando o crescente
uso da madeira não foi compensado por replantios, Países como Portugal e
Espanha, por exemplo, converterem seu patrimônio florestal, relativamente
limitado, em caravelas. Com o início da industrialização, a extração de madeira
começou a assumir proporções gigantescas, tanto na forma de combustível, quanto
como elemento construtivo. Na Alemanha, por exemplo, a mineração praticamente
desflorestou a região montanhosa dos Harz e grandes partes da floresta da
Turíngia e Saxônia. A rápida expansão das redes de estrada de ferro foi outro
fator. Cada quilômetro de via férrea consumia cerca de 180 m3, ou seja, 140 toneladas de madeira de lei, em dormentes, renováveis a cada 25 a 30 anos. Em fins do século XIX, só na Europa Central já havia uma rede de ferrovias de cerca de 150 mil quilômetros (27 milhões de m3, 21 milhões de toneladas de dormentes). Esta é apenas uma situação específica.
Bastava que houvesse florestas, a
extração da madeira era praticada progressivamente sem qualquer preocupação,
muito menos restrição. Rússia, Canadá, Estados Unidos, mas também países
tropicais como o Brasil e a Indonésia derrubaram extensas áreas de suas
reservas florestais. As primeira reações surgiram exatamente onde o
descomedimento teve seu início – na Europa Central iniciaram-se
reflorestamentos a partir de fins do século XIX. Ao mesmo tempo, porém, os
países dessa região começaram a importar madeira daqueles países que dispunham
de grandes reservas florestais, muitos deles em fase inicial de seu desenvolvimento
e ávidos por saldos positivos em seus balanços comerciais, o Brasil entre eles.
Mais recentemente, países europeus tentam pagar suas dívidas com a natureza
investindo em reflorestamentos em países tropicas, mormente africanos, para a
obtenção de bônus energéticos.
Com a emergente questão da ecologia
na segunda metade do século XX, as várias formas de poluição, o efeito de
estufa decorrente de emissões de CO2 e outros gases, além de outros
aspectos de degradação ambiental, ganharam importância e ressonância,
principalmente naqueles países que mais contribuíram para tais fenômenos.
Obviamente surgiram respostas, entre intenções e fatos, na medida em que os
danos ecológicos de agravavam e o clamor de certos segmentos da população
aumentava. Mas na prática, as metas estabelecidas de preservação ambiental costumam
não ser cumpridas.
Hoje, as ações ambientais em cursos
são de âmbito mundial. Com isso aumenta a pressão, especialmente dos países
mais desenvolvidos (Europa, EUA) sobre aqueles países com as maiores reservas
florestais que, legal ou ilegalmente, recorrem ao desmatamento para fins de
exploração da madeira, em geral em combinação com a obtenção de áreas
cultiváveis. Ao mesmo tempo, registram-se realidades emblemáticas. Os Estado
Unidos defendem a tese: agricultura aqui (nos EUA), florestas lá (inclusive no
Brasil). Enquanto esses países criticam o desmatamento em outros países, como o
Brasil, as importações de madeira da Alemanha representam um média anual de 9,2
milhões de m3 nos últimos 5 anos, o Reino Unido importa uma média
mensal de 60 mil toneladas de madeira e produtos de madeira tropicais e a
Europa toda importou 300 mil toneladas de compensado tropical e 2018. Ao mesmo
tempo, a Europa aumentou sua área florestal em 400 mil hectares no período de
2010 a 2015.
Com o avanço da fronteira agrícola,
grandes áreas de floresta brasileira foram desmatadas para a obtenção de
pastagem. Um dos beneficiários do ganho dessa área cultivada é ninguém menos
que a Europa que, nos últimos sete anos importou uma média anual de 240 mil
toneladas de carne bovina.
Resumindo: ao mesmo tempo em que
países como o Brasil, mas também vários países africanos e a Indonésia, são
colocados no pelourinho, os acusadores, que já cometeram os mesmos atos,
beneficiam-se dos frutos dos supostos crimes ambientais. Há muita coisa fundamentalmente
errada.
*
Quem
vive conscientemente não pode negar os abusos cometidos contra a natureza em nosso
passado mais recente. Sempre haverá pessoas que neguem tal fato como outras
negam que a Terra é redonda. Por outro lado, a discussão sobre se as causas das
efetivas mudanças climáticas – que já houve em vários momentos vezes da história
do nosso planeta – são naturais ou decorrentes da ação do homem, ou em qual
proporção cada causa contribui para essa realidade, pode ser interessante, mas
não leva a nada concreto. Talvez os netos desta geração terão elementos
suficientes para arriscar respostas. Leituras de tomadas fotográficas de
satélite para cá, interpretações de dados climáticos para lá, a única postura responsável
e válida diante das certezas e dúvidas que tenhamos reside no empenho máximo de
todos, dos mandatários da nação ao mais humilde dos cidadãos, no sentido de
garantir as melhores condições de vida àqueles nossos netos. Ou seremos chamados
em futuro não muito longe de geração criminosamente negligente com seus
descendentes.
Se você, leitor,
concorda, compartilhe.
https://www.instagram.com/p/B1eREeDARQy/?igshid=pfduvdpo4yso veja isto Herr Rehfeldt
ResponderExcluirÉ tudo verdade. Mas, entre o que se diz lá e ca sobre as queimadas na Amazônia, quem afinal está com a verdade? Um lado, ambos, nenhum
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