Transferência de Renda não É Caso de Canetada
(‘Income Transfer Is Not Made by Stroke of a Pen’ - This text was written in a way to
ease comprehensive electronic translations)
Klaus H. G. Rehfeldt
Em
ocasião anterior, já fiz menção a um trabalho realizado pelo governo finlandês,
buscando dados para um projeto de implementação de um programa de Renda Básica
Universal. O mesmo consistiu em um teste longitudinal de 12 meses em que um
grupo de mil pessoas recebedores de algum benefício financeiro governamental foi
contemplado com um valor mensal de Euro 460,00 para sua livre disposição. Essas
pessoas foram chamadas depois desse prazo para informar, sem precisar
justificar, de que forma esses valores foram utilizados e com quais resultados.
Os resultados da pesquisa ainda não foram divulgados. A citação desse trabalho
se faz com o propósito de mostrar o nível de preocupação e cautela com que esse
tipo de programa é elaborado em outros países; a Finlândia não é caso único,
mas emblemático. Programa de Renda Básica Universal são estudados em vários
países ao redor do globo.
Por mais concretos ou remotos tais programas
estão, as consequências conjunturais da pandemia do covid-19, revelando as
enormes fragilidades econômicas e sócias dos segmentos mais pobres da
população, tem projetado o assunto para o centro das demandas governamentais. As
respostas imediatas foram em direção a auxílios emergenciais temporários de
variados formatos sem que tivesse havido tempo para a elaboração de planos ou
programas baseados em estudos preliminares que pudessem determinar parâmetros
temporais e dimensionais.
A aplicação transitória de tais programas
está condicionada a dois fatores: a disponibilidade de fundos financeiros e a
duração da epidemia em cada lugar. Além disso envolve a delicada questão de
como sair posteriormente de tais auxílios, o que em muitos casos se configurará
como retorno à pobreza anterior.
É preciso, porém, ter em mente que, enquanto
a densidade populacional crescer, ou manter-se nos níveis atuais, o risco de
novas epidemias é real e, ao mesmo tempo, a progressiva automação e robotização
(sem falar na expansão de usos de inteligência artificial) nos processos
industriais, mas também em cada vez mais áreas da prestação de serviços,
permitem projeções de um gradual aumento dos índices de desemprego, permanente
ou temporário. Isso imporá à sociedade de, através de seu governo, encontrar
formas de amparo financeiro por meio de programas de Renda Básica ou Imposto
Negativo.
Na atual evolução conjuntural esboça-se um
quadro de um crescente segmento populacional profissional e, portanto,
economicamente inútil à sociedade. Por um lado, a sociedade precisa para seu
avanço civilizatório de indivíduos cada vez mais talentosos, intelectualmente dotados
e de educação aprimorada. Por outro, todos nós temos limitações específicas ou gerais
que podem marginalizar involuntariamente uma parte da população, resultando em
incapacitações para atividades de cunho cada vez mais tecnológico e virtual. Isso
faz parte da diversidade que a natureza impõe a seus seres. Em consequência
cria-se um ônus parta a sociedade.
Muitos países já desenvolveram, ou estão
desenvolvendo programas de transferência de renda de acordo com as
particularidades econômicas, sociais e culturais de cada um. O Brasil acumulou
experiência em tais programas desde a instalação do Programa de Renda Mínima em
1994 e do Bolsa Estudo em 2001, portanto deve poder recorrer a êxitos e falhas havidos
nesse período com várias reformulações, ampliações e ajustes, nem sempre
isentos de interesses políticos. Dessa maneira pode-se supor que acumulou-se
inteligência social suficiente para desenvolver uma programação de longo prazo bem-sucedida.
Além disso, muito provavelmente veremos em breve vários programas mais ou menos
maduros de transferência de renda sendo desenvolvidos e implantados em diversos
países.
Indispensável para o sucesso de transferência
de renda, entretanto, é que sua concepção se baseie no conhecimento técnico
científico com um mínimo de interferência política, pois só assim ela garantirá
uma existência consistente e um seguimento ajustável às mudanças eternamente em
curso.
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