sábado, 5 de setembro de 2020

Pobreza e Desigualdade

 Pobreza e Desigualdade

(‘Poverty and Inequality’ – This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Observa-se um certo deslocamento de foco na abordagem dos quadros socioeconômicos de uma sociedade. Se regredimos um pouco na história vamos encontrar na metade inferior da pirâmide de riqueza uma população razoavelmente homogênea, auferindo ganhos que lhes garantem um sustento de moderado a satisfatório a partir de seu trabalho na lavoura ou nos ofícios, sempre considerando os parâmetros e contextos da época. Flutuações para cima e para baixo, especialmente na camada inferior desse segmento, acontecem de acordo com a ocorrência, ou não, de fenômenos adversos como guerras, doenças ou catástrofes naturais. Logo acima do estrato de lavradores e profissionais urbanos há um grupo relativamente pequeno de administradores públicos da graça da nobreza, a qual ocupa a ponta da pirâmide com pompa e circunstância.

Uma mudança profunda nas estruturas econômicas e sociais ocorreu a partir da primeira revolução industrial. A abundante força de trabalho desvalorizou-se enquanto o capital se solidificou e expandiu. Ao mesmo tempo abriram-se novos campos profissionais de caráter administrativo público e privado, burocrático e de prestação de serviços, auferindo rendas satisfatórias para caracterizar uma nova classe média. O que não mudou é a base da pirâmide ocupada por uma parcela da população em estado de pobreza absoluta, ou seja, o limite inferior é imutável.

Com a explosão da economia em virtude de cada vez mais e melhores recursos energéticos e uma tendência de concentrações de capital, a relativa constância na estrutura dessa pirâmide se desfaz cada vez mais. Iniciativas de risco bem sucedidas e bem remuneradas começam a criar uma casta de nobreza econômica detentora de cada vez mais capital e poder econômico. Um mais recente modelo econômico de produção e consumo em massa ganha, além de sua dinâmica própria, um impulso adicional pelo expressivo, para não dizer explosivo, crescimento populacional.

Salvo em épocas de absolutismo feudal ou do capitalismo selvagem do início da revolução industrial é discutível em que grau – ou se – a prosperidade das camadas mais abastadas produziu uma maior pobreza dos menos favorecidos, especialmente na moderna economia de consumo em que cada consumidor a mais, cada renda a mais representa lucro. Nesse contexto, a suposição da desigualdade entre os mais ricos e mais pobres às custas dos últimos não se sustenta. A pobreza de uns não é causa da riqueza de outros, mas sim, efeito ou resultado da incapacidade da sociedade de absorver e integrar a população carente em seu meio, não importa por quais razões.

Hoje, estruturas assistenciais encarregam-se do amparo dos incapacitados para o trabalho, assim principalmente a falta de acesso a uma educação adequada simplesmente deixa uma boa parcela da população para trás na rápida expansão do conhecimento essencial para competir no mercado de trabalho.

Por outro lado, a absoluta incerteza sobre o futuro do trabalho permite reflexões sobre um possível aumento da população excluída da conjuntura econômica e, portanto, sem renda auferida pelo próprio esforço. Esta possibilidade faz com que considerações sobre uma renda básica universal ganhem um novo impulso, especialmente devido às evidências de fragilidade socioeconômica expostas pela pandemia da covid-19. Ficou claro que uma sociedade que não consegue oferecer uma igualdade de chances e oportunidades a seus membros deverá assumir o suporte econômico e social daqueles que não conseguem ser incluídos satisfatoriamente na vida e no contexto socioeconômico.

Por mais que haja médicos, advogados e engenheiro com infância em alguma favela, o grande desafio do futuro não será como sustentar aqueles que são excluídos da sociedade econômica, mas como dar lhes chances iguais para uma vida digna e produtiva em contribuição ao, e usufruto do bem estar de toda a sociedade.

Atualmente, as considerações a respeito dessa realidade redundam com muita frequência na condenação da crescente desigualdade entre a ponta e a base da pirâmide riqueza – em geral, condenando a formação de grandes riquezas. Vale lembrar, porém, que tais fortunas constituem-se cada vez menos de concentrações de capital, mas sim, de simples capacidades individuais como, por exemplo, ideias geradas por alguma startup funcionando em ambiente de coworking.

Assim, conclui-se claramente que a ponta da pirâmide não é causa, nem agrava a pobreza na base da mesma, mas que esta é efeito da falta da sociedade de, através de seu governo, proporcionar chances iguais a todos os seus membros, e é bom deixar claro que um povo pode sucumbir por falta, jamais por excesso de conhecimento. 

  

 

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