Pobreza e Desigualdade
(‘Poverty and Inequality’ – This text was written in a way to ease comprehensive
electronic translations.
Klaus H. G. Rehfeldt
Observa-se
um certo deslocamento de foco na abordagem dos quadros socioeconômicos de uma
sociedade. Se regredimos um pouco na história vamos encontrar na metade
inferior da pirâmide de riqueza uma população razoavelmente homogênea,
auferindo ganhos que lhes garantem um sustento de moderado a satisfatório a
partir de seu trabalho na lavoura ou nos ofícios, sempre considerando os
parâmetros e contextos da época. Flutuações para cima e para baixo, especialmente
na camada inferior desse segmento, acontecem de acordo com a ocorrência, ou
não, de fenômenos adversos como guerras, doenças ou catástrofes naturais. Logo
acima do estrato de lavradores e profissionais urbanos há um grupo
relativamente pequeno de administradores públicos da graça da nobreza, a qual
ocupa a ponta da pirâmide com pompa e circunstância.
Uma mudança profunda nas estruturas
econômicas e sociais ocorreu a partir da primeira revolução industrial. A
abundante força de trabalho desvalorizou-se enquanto o capital se solidificou e
expandiu. Ao mesmo tempo abriram-se novos campos profissionais de caráter
administrativo público e privado, burocrático e de prestação de serviços,
auferindo rendas satisfatórias para caracterizar uma nova classe média. O que
não mudou é a base da pirâmide ocupada por uma parcela da população em estado
de pobreza absoluta, ou seja, o limite inferior é imutável.
Com a explosão da economia em virtude de cada
vez mais e melhores recursos energéticos e uma tendência de concentrações de
capital, a relativa constância na estrutura dessa pirâmide se desfaz cada vez
mais. Iniciativas de risco bem sucedidas e bem remuneradas começam a criar uma
casta de nobreza econômica detentora de cada vez mais capital e poder
econômico. Um mais recente modelo econômico de produção e consumo em massa
ganha, além de sua dinâmica própria, um impulso adicional pelo expressivo, para
não dizer explosivo, crescimento populacional.
Salvo em épocas de absolutismo feudal ou do
capitalismo selvagem do início da revolução industrial é discutível em que grau
– ou se – a prosperidade das camadas mais abastadas produziu uma maior pobreza
dos menos favorecidos, especialmente na moderna economia de consumo em que cada
consumidor a mais, cada renda a mais representa lucro. Nesse contexto, a
suposição da desigualdade entre os mais ricos e mais pobres às custas dos
últimos não se sustenta. A pobreza de uns não é causa da riqueza de outros, mas
sim, efeito ou resultado da incapacidade da sociedade de absorver e integrar a
população carente em seu meio, não importa por quais razões.
Hoje, estruturas assistenciais encarregam-se
do amparo dos incapacitados para o trabalho, assim principalmente a falta de
acesso a uma educação adequada simplesmente deixa uma boa parcela da população
para trás na rápida expansão do conhecimento essencial para competir no mercado
de trabalho.
Por outro lado, a absoluta incerteza sobre o
futuro do trabalho permite reflexões sobre um possível aumento da população
excluída da conjuntura econômica e, portanto, sem renda auferida pelo próprio
esforço. Esta possibilidade faz com que considerações sobre uma renda básica
universal ganhem um novo impulso, especialmente devido às evidências de
fragilidade socioeconômica expostas pela pandemia da covid-19. Ficou claro que
uma sociedade que não consegue oferecer uma igualdade de chances e
oportunidades a seus membros deverá assumir o suporte econômico e social
daqueles que não conseguem ser incluídos satisfatoriamente na vida e no
contexto socioeconômico.
Por mais que haja médicos, advogados e
engenheiro com infância em alguma favela, o grande desafio do futuro não será
como sustentar aqueles que são excluídos da sociedade econômica, mas como dar
lhes chances iguais para uma vida digna e produtiva em contribuição ao, e
usufruto do bem estar de toda a sociedade.
Atualmente, as considerações a respeito dessa
realidade redundam com muita frequência na condenação da crescente desigualdade
entre a ponta e a base da pirâmide riqueza – em geral, condenando a formação de
grandes riquezas. Vale lembrar, porém, que tais fortunas constituem-se cada vez
menos de concentrações de capital, mas sim, de simples capacidades individuais
como, por exemplo, ideias geradas por alguma startup funcionando em ambiente de
coworking.
Assim, conclui-se claramente que a ponta da
pirâmide não é causa, nem agrava a pobreza na base da mesma, mas que esta é
efeito da falta da sociedade de, através de seu governo, proporcionar chances
iguais a todos os seus membros, e é bom deixar claro que um povo pode sucumbir por
falta, jamais por excesso de conhecimento.
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