sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Me Enganem Que Eu Gosto.

 

Me Enganem Que Eu Gosto.

(“Fool me, I like it.” – This text is written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O dito expresso no título deste texto pode parecer absurdo, mas tudo faz crer que há pessoas que não tem problema em adotar para si tal postura – e sentir-se bem. Como explicar isso? Obviamente é cômodo e confortável não precisar dispender qualquer esforço no sentido de averiguar a veracidade ou autenticidade de uma informação ou notícia, especialmente quando a abordagem do assunto é do agrado da pessoa. Contudo, os sonhos e os desejos das pessoas nem sempre coincidem ou combinam com o mundo real.

Tudo isso não é novidade. E também não é novidade que em determinados momentos tem havido interesses específicos em aproveitar-se política ou economicamente dessa, digamos, leviandade ou imprevidência. Desde quando surgiram as mídias de massa, como rádio e televisão, esses meios foram usados, de tempo em tempo e nas ocasiões próprias, na tentativa de influenciar pessoas, na qualidade de eleitores ou de consumidores – seja esmerando imagens ou desconstruindo adversários políticos, seja promovendo produtos ou desmentindo advertências ou alertas. Porém, enquanto tais mídias tinham quase exclusivamente formato empresarial, verificações sobre fontes e autenticidades eram relativamente fáceis, além de permitir um possível monitoramento mútuo.

Uma mudança radical desse quadro surgiu com o aparecimento das mídias sociais. De repente, milhões de pessoas conseguem comunicar-se com outros milhões, tudo em tempo real, e tudo praticamente livre de qualquer controle. De notícias de interesse geral e de toda natureza, de cantos de pássaros a fenômenos cósmicos, de receitas de bolo a considerações filosóficas, tudo cabe nas redes sociais. Mas também cabem mentiras, distorções, difamações, ódios e conspirações. E os respectivos canais não em mostrado muito empenho em disciplinas quaisquer abusos. Apenas recentemente, a crescente pressão sofrida pelos servidores dessa mídia resultou em algumas medidas fiscalizadoras.

 Todavia, nenhuma arbitrariedade, nenhuma maldade, nenhum abuso é eterno. A própria sociedade começa a clamar por, e a construir seus mecanismos de defesa. Por um lado, como faz o comprador de um par de sapatos, o usuário rejeita o que não lhe agrada, por outro, formam-se entidades com o fim específico de identificar e denunciar afrontas, inverdades, difamações a agressões e outras mais infâmias e maldades. Resultaram daí alguns sites dedicados a esse objetivo, facilmente encontráveis:

- fato e fake,

- boato.org,

- Lupa,

- AOS FATOS,

- UOL confere,

- Estadão Verifica.

O propósito é simples: oferecer ao cidadão comum canais para a verificação da veracidade de postagens que lhe pareçam duvidosas. É um assunto seríssimo, mas chega a ser divertido ver tantos absurdos sendo jogados no público. Em geral, os mencionados sites reagem muito rapidamente, muitas vezes no mesmo dia. Dessa maneira, a autoproteção contra fakes de qualquer natureza sugere aguardar as reações devidas, ou sua ausência, nesses sites antes de aceitar uma informação, especialmente quando sensacional ou bombástica, como verdadeira e confiável. Em outras palavras, cada um faz sua escolha. Ou se previne, ou se torna vítima de informações falsas, intencionais ou não, na medida em que ignora os recursos de que dispõe – torna-se inocente útil, pedindo “me enganem que eu gosto!”      

                        

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Câmbio x Paridade de Poder de Compra

 

Câmbio x Paridade de Poder de Compra

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Quem já viajou ao exterior não escapou de defrontar-se em algum momento com a figura do câmbio, ou a troca de moedas nacionais, ou supranacionais. A razão para tal é simples: cada país tem sua moeda e diversos fatores concretos das diferentes estruturas econômicas e sociais determinam que essas moedas tenham valores distintos de nação para nação. Daí a necessidade de uma troca de moedas, quando o destino são outros países, ou houver operações comerciais entre dois países.

 Ocorre, que não apenas aspectos conjunturais reais determinam as taxas entre moedas distintas nessas trocas. Há componentes importantes no jogo, tais como especulações e a oferta e procura – nem sempre com efeitos positivos. Vejamos um exemplo hipotético. Especialmente a partir da segunda guerra mundial, em virtude da estabilidade, solidez e do tamanho da economia norte-americana, o dólar tornou-se moeda de referência em praticamente todo mundo. Todavia, seria ingênuo pensar que tal situação está garantida ad infinitum. Sem avaliar possibilidades mais ou menos prováveis, se em algum momento do futuro outra economia revelar as mesmas caraterísticas, combinadas com um potencial econômico de ponta, essa referência monetária pode facilmente migrar para outra nação, ou comunidade de nações. A consequência para o dólar americano seria catastrófica, pois, estima-se que cerca de 60% dos dólares em circulação encontram-se fora dos Estados Unidos. Esse montante deixaria de ter procura no mercado mundial e, além de assim perder seu valor no mercado mundial, retornariam cedo ou tarde ao país de origem, causando uma inflação dramática – com óbvios reflexos em todo o mundo.

Portanto, há dois tipos de flutuação nas taxas de câmbio: uma decorrente de mudanças conjunturais econômicas (p.ex., crescimento ou redução do PIB) que, em geral, se processam lentamente, e outra, consequente de fatores especulativos (p. ex., de causas políticos ou sociais), combinados com variações na oferta e procura de outra natureza (p.ex., turismo).

Pouco conhecido, por outro lado, é a chamada Paridade de Poder de Compra (PPC). Ela consiste basicamente numa comparação de poder aquisitivo de duas moedas distintas. Por exemplo, se um determinado produto custa num país 100 Unidades Monetárias Locais (UML) e o mesmo produto vale num outro 240 UML, a PPC é de 2,4 (é a PPC Brasil - Estados Unidos em 2020), embora a taxa de câmbio possa ser bem mais alta – ou mais baixa em economias dirigidas. Parece um mecanismo ideal, porém, o problema dessa taxa é sua inércia uma vez que não responde imediatamente às diversas mudanças possíveis no comércio internacional, dificultando, ou até impedindo tomadas de decisão. No entanto, essa taxa é extremamente útil para a comparação de questões no âmbito social, e, com certeza, seria muito útil na equiparação de valores extrínsecos ou intangíveis, além de melhor atender a casos que devem considerar a capacidade de pagamento entre sociedades distintas. (Para efeitos práticos em turismo existe a variante da Paridade Big Mac.)

Mesmo largamente desconhecido, é deveras importante saber que esse instrumento existe e pode ser extremamente útil em determinadas negociações.  

  

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Auxílio Brasil

 

Auxílio Brasil

(“Auxílio Brasil / A Brazilian Social Support Program” - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O programa governamental de assistência denominado ‘Auxilio Brasil’ possui dois aspectos centrais: a necessidade e a viabilidade.

Quanto à necessidade, embora evidente, são precisas algumas reflexões. As diversas variantes do sistema da economia de mercado ao redor do mundo têm produzido inegáveis progressos e prosperidades, ainda que ao custo de um progressivo uso, e desperdício, dos recursos naturais, todos limitados, do nosso planeta. Ao mesmo tempo, tais sistema econômicos não têm conseguido evitar flagrantes desigualdades socioeconômicas internas nas sociedades ou nos países, não necessariamente por um aumento da pobreza, mas também pelo rápido e expressivo enriquecimento na ponta da pirâmide.

As causas são várias, da falta de educação e preparo para um mundo de contínuo crescimento tecnológico a crassas falhas na redistribuição da renda. Consciência a respeito desse problema sério existe há bastante tempo, faltam as respostas concretas, ou, onde elas existem no papel, sua concretização. Mas cabe lembrar que existem iniciativas governamentais sendo desenvolvidas nos últimos nas últimas décadas em busca de enfrentamentos dessa realidade. Praticamente todas giram em torno de uma concepção chamada de Renda Universal Básica e que consiste numa redistribuição de renda proporcionando uma receita mínima suficiente para o sustento da pessoa, e que é garantida a todos os cidadãos. Já existem programas piloto desse modelo em andamento e avaliação em vários países.

O programa “Auxílio Brasil”, desde suas versões iniciais como “Bolsa Escola” e “Bolsa Família” está em sintonia, embora em estágio limitado, com mencionado modelo. E esse estágio limitado tem, nome: disponibilidade ou falta de recursos. Nesse ponto, o Brasil não se encontra em situação confortável, embora sabendo que mesmo países ricos ainda procuram fórmulas para financiar tais programas, apesar de ter perfeita consciência de que esses recursos em circulação dinamizam a economia macro. Além disso, no caso brasileiro é preciso lembrar que uma população igual à da Holanda retornaria imediatamente cerca de 30% do benefício ao Governo através de impostos indiretos.

Isso levanta algumas perguntas. A primeira foca, sem dúvida, a questão tributária, que evidentemente possui vícios e distorções e que exige coragem do governo em suas adequações. A segunda é mais ampla e menos abordada. Se as nações produtoras de petróleo geram com essa commodity riquezas imensas, porque o Brasil, 1º lugar em exportação mundial de soja e carne de aves, e 2º lugar, em minério de ferro e carne bovina, além de outros produtos em destaque mundial, não consegue construir as bases necessárias, especialmente na educação, para uma estrutura de garantias sócias sólidas.

O começo já foi, e continua sendo feito. Nos encontramos nos 10% dos países mais ricos do mundo. Falta o que? Vontade e sacrifícios políticos? Um governo forte? Consenso do poder econômico? Seja o que for, é bom ter em mente que a sociedade mais próspera não é a que tem mais cidadãos ricos, mas aquela que tem menos pobres.

 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Democracia de Competências

 

Democracia de Competências

(Partidos Políticos Têm Futuro?)

(“Democracy of Competences– Is There a Future for Political Partiers” – This text is written in a way to ease electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Democracia e partidos políticos são tidos como fatores inseparáveis. Sempre foram. Todavia, os tempos também mudam no Estado, nas instituições, na política – e nas utopias. Em tempos passados, o objetivo central da política, e dos políticos, era garantir a soberania e a coesão interna de uma nação. Hoje, as demandas concentram-se em assegurar e promover a qualidade de vida e a prosperidade do cidadão. Ao mesmo tempo observam-se ao longo das últimas eleições nos regimes democráticos importantes mudanças no comportamento dos eleitores na escolha de seus representantes em cargos políticos.

Ao mesmo tempo, ideários políticos perderam gradativamente sua importância, principalmente em decorrência do comunismo ter fracassado em alcançar uma livre adesão em escala maior a seus ideais e postulados, e o capitalismo ter percebido a importância de aspectos sociais em suas decisões. Atualmente, as agremiações políticas aproximam-se em suas posturas cada vez mais no centro do espectro entre extrema direita e extrema esquerda. Por outro lado, a universalização da comunicação em tempo real tem influenciado fortemente os processos e de campanhas eleitorais – para o bem e para o mal.

O que pouco mudou é o perfil do político com suas qualidades e seus defeitos. Isso manifesta-se através da indiferença com respeito às mudanças socioeconômicas e observadas em várias áreas do conhecimento, a frequente priorização de interesses políticos sobre soluções com real atendimento das necessidades e aspirações da sociedade, ou a redução a meros e nostálgicos propagandistas ideológicos. Ou, então, o simples desconhecimento de causa nas deliberações, quando os temas da atualidade e de competência governamental requerem em seus enfrentamentos e suas soluções muito mais respostas técnicas do que de essência político-partidária. Obviamente, também grande parte do eleitorado, mormente a dos mais idosos, possui perfil conservador.                  

A pergunta que se impõe diante disso é clara: existem alternativas? Sim, por exemplo, a chamada democracia direta como ela existe na Suíça, que resolve seus assuntos importantes através de referendos ou plebiscitos. Mas é preciso lembrar aos eventuais imitadores que sistemas são muito resistentes a mudanças. No entanto, está surgindo um fenômeno espontâneo nesse panorama. É a formação voluntária de blocos suprapartidários em torno de interesses, preocupações e capacitações comuns. São no caso brasileiro as bancadas específicas do agronegócio ou ruralista, dos direitos humanos, da saúde, da educação, da segurança pública, feminina, evangélica, sindical, entre outros.

Isso permite e sugere algumas projeções. Ao passo que tais bancadas se consolidam, aspectos político-partidários perdem de importância e passam para o segundo plano. Além de permitir respostas fundamentadas domínio de causa, isso pode mudar as estratégias eleitorais, e muito. Uma realocação nas argumentações do caráter político-partidário para considerações e soluções primordialmente técnicas certamente obrigará os partidos tradicionais a revisar suas táticas, seus procedimentos e seu potencial humano. Muito possivelmente, parlamentares, ou candidatos menos políticos, mas com conhecimentos específicos encontrarão boa receptividade numa população totalmente desiludida e decepcionada com o perfil do político atual.

A partir da percepção de sua importância e seu peso, as bancadas tenderão a deixar a informalidade e buscar estruturação institucional, inclusive com o estabelecimento de articulações inter-bancadas em assuntos comuns; parece apenas ser uma questão de tempo. Um fenômeno paralelo deverá ser a gradual desconstrução da fidelidade partidária, não por último pelo risco de auto-atrofia dos partidos.

Por fim, o que se esboça claramente é a passagem do parlamento de partidos políticos para out6ro das competências específicas – uma evolução aparentemente irrefreável num mundo essencialmente objetivo e cunhado pelo contínuo avanço tecnológico. Está se esboçando a era do homem público do conhecimento em lugar daquele da inteligência política. Cabe ao eleitor perceber a mudança – e assegurar sua consolidação.

 

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Vida (Quase) Eterna?

 

Vida (Quase) Eterna?

(“A [Nearly] Eternal Life?” This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt (86)

 

O sonho da vida longa sempre fez parte do imaginário humano, especialmente quando a expectativa de vida oscilava entre 40 e 45 anos e poucas pessoas conseguiam experimentar a vida na velhice, o que muitas vezes as destacava pela sabedoria acumulada em seu longo passado.

Mesmo com a vida média perto do dobro daquela idade citada e em vista de novos conhecimentos nas ciências médicas e naturais, de tempos em tempos surgem estudos e pesquisas referentes ao alongamento da vida para além, muito além, dos 100 anos. Notícias sobre as mais revolucionárias ideias, concepções, e projetos, até testes em animais, correm o mundo com crescente frequência. É a ciência desafiando e tentando driblar a natureza que ao longo de centenas de milhões de anos estabeleceu seus equilíbrios e seus limites. É o triunfo de um expressivo e contínuo avanço científico e tecnológico em toda a área da saúde, tomando ou contornando um obstáculo após outro.

Existem expressivos e inegáveis ganhos para os beneficiários dessas conquistas da medicina, seja na forma preventiva, seja na curativa, com reflexos claros sobre quadros clínicos normais vinculados a idades mais elevadas, sem esquecer as consequentes melhoras nos níveis de qualidade de vida. No caso brasileiro constatamos uma significativa evolução: no período de 1950 a 2020, a porção da população acima de 60 anos, em relação ao grupo de 20 a 59 anos aumentou de 4,89% para 14,09%. Cabe considerar que no mesmo período não houve mudanças relevantes de fatores existenciais essenciais (alimentação, higiene, segurança etc.). Portanto, é um êxito convincente.

O resultado obviamente positivo esconde, todavia, aspectos que costumam ser negligenciados ou até desconsiderados. Não se trata nesses projetos de aumento da expectativa de vida um simples estímulo de capacidades inerentes ao organismo, objetivando uma intensificação funcional, mas de prevenção, correção ou compensação contínuas do processo natural de envelhecimento. Como consequência, estabelece-se uma dependência definitiva do organismo desses recursos, sem os quais rompe-se a garantia de seus efeitos. A natural fragilização geriátrica é artificialmente suspensa ou adiada. E essa fragilidade parece ter se evidenciada nas formas severas da pandemia covid-19 observadas entre as pessoas idosas.

Estamos falando da constituição e das condições físicas. E as psicológicas e mentais, para as quais não existem células tronco? Num mundo em constante e cada vez mais rápida evolução tecnológica, econômica e social percebe-se claramente que, com o envelhecimento, as pessoas encontram crescentes dificuldades de entender e vivenciar o mundo em que vivem. Esse lado da questão parece ainda totalmente em aberto e sem projeções. Relativo a isso, uma consequência com reflexos sobre a política deverá ser considerada: quanto mais velha uma sociedade for, mais conservador será seu comportamento com efeitos bastante previsíveis.

Outra faceta do problema são aspectos econômicos. Quem assumirá o custo do uso desses recursos tecnológicos medicinais, presumivelmente caros, e provavelmente de aplicação por longos anos? Teremos, por conseguinte, uma sociedade dividida em duas categorias, os mortais comuns, economicamente desprovidos, e os longevos, financeiramente abastados – quanto mais dinheiro, mais anos de vida?

Por outro lado, como enfrentar o inevitável aumento populacional, especialmente daquela parcela que não produz mais, embora tenha seu sustento garantido. E mesmo que o processo dilatório da vida já comece na meia idade, ou seja, signifique um aumento do período produtivo das pessoas, até onde e quando nosso planeta comportará uma população de 12, 15 bilhões, ou mais, de habitantes?

Mas, e se ...? Se estímulos genéticos, permanentes ou repetidas renovações celulares, suprimentos contínuos de células tronco etc., etc. etc. derem certo e as lápides dos cemitérios disserem “Morreu aos 215 anos nosso querido...”? Já perguntaram aos idosos, mesmo os em boas condições de saúde, se realmente desejariam viver 120, 150 ou mais anos?