sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Democracia de Competências

 

Democracia de Competências

(Partidos Políticos Têm Futuro?)

(“Democracy of Competences– Is There a Future for Political Partiers” – This text is written in a way to ease electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Democracia e partidos políticos são tidos como fatores inseparáveis. Sempre foram. Todavia, os tempos também mudam no Estado, nas instituições, na política – e nas utopias. Em tempos passados, o objetivo central da política, e dos políticos, era garantir a soberania e a coesão interna de uma nação. Hoje, as demandas concentram-se em assegurar e promover a qualidade de vida e a prosperidade do cidadão. Ao mesmo tempo observam-se ao longo das últimas eleições nos regimes democráticos importantes mudanças no comportamento dos eleitores na escolha de seus representantes em cargos políticos.

Ao mesmo tempo, ideários políticos perderam gradativamente sua importância, principalmente em decorrência do comunismo ter fracassado em alcançar uma livre adesão em escala maior a seus ideais e postulados, e o capitalismo ter percebido a importância de aspectos sociais em suas decisões. Atualmente, as agremiações políticas aproximam-se em suas posturas cada vez mais no centro do espectro entre extrema direita e extrema esquerda. Por outro lado, a universalização da comunicação em tempo real tem influenciado fortemente os processos e de campanhas eleitorais – para o bem e para o mal.

O que pouco mudou é o perfil do político com suas qualidades e seus defeitos. Isso manifesta-se através da indiferença com respeito às mudanças socioeconômicas e observadas em várias áreas do conhecimento, a frequente priorização de interesses políticos sobre soluções com real atendimento das necessidades e aspirações da sociedade, ou a redução a meros e nostálgicos propagandistas ideológicos. Ou, então, o simples desconhecimento de causa nas deliberações, quando os temas da atualidade e de competência governamental requerem em seus enfrentamentos e suas soluções muito mais respostas técnicas do que de essência político-partidária. Obviamente, também grande parte do eleitorado, mormente a dos mais idosos, possui perfil conservador.                  

A pergunta que se impõe diante disso é clara: existem alternativas? Sim, por exemplo, a chamada democracia direta como ela existe na Suíça, que resolve seus assuntos importantes através de referendos ou plebiscitos. Mas é preciso lembrar aos eventuais imitadores que sistemas são muito resistentes a mudanças. No entanto, está surgindo um fenômeno espontâneo nesse panorama. É a formação voluntária de blocos suprapartidários em torno de interesses, preocupações e capacitações comuns. São no caso brasileiro as bancadas específicas do agronegócio ou ruralista, dos direitos humanos, da saúde, da educação, da segurança pública, feminina, evangélica, sindical, entre outros.

Isso permite e sugere algumas projeções. Ao passo que tais bancadas se consolidam, aspectos político-partidários perdem de importância e passam para o segundo plano. Além de permitir respostas fundamentadas domínio de causa, isso pode mudar as estratégias eleitorais, e muito. Uma realocação nas argumentações do caráter político-partidário para considerações e soluções primordialmente técnicas certamente obrigará os partidos tradicionais a revisar suas táticas, seus procedimentos e seu potencial humano. Muito possivelmente, parlamentares, ou candidatos menos políticos, mas com conhecimentos específicos encontrarão boa receptividade numa população totalmente desiludida e decepcionada com o perfil do político atual.

A partir da percepção de sua importância e seu peso, as bancadas tenderão a deixar a informalidade e buscar estruturação institucional, inclusive com o estabelecimento de articulações inter-bancadas em assuntos comuns; parece apenas ser uma questão de tempo. Um fenômeno paralelo deverá ser a gradual desconstrução da fidelidade partidária, não por último pelo risco de auto-atrofia dos partidos.

Por fim, o que se esboça claramente é a passagem do parlamento de partidos políticos para out6ro das competências específicas – uma evolução aparentemente irrefreável num mundo essencialmente objetivo e cunhado pelo contínuo avanço tecnológico. Está se esboçando a era do homem público do conhecimento em lugar daquele da inteligência política. Cabe ao eleitor perceber a mudança – e assegurar sua consolidação.

 

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