A Fênix Sacode Suas Azas?
(“Does the Phoenix Shake its Wings?” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic
translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Desde quando grupos de humanos
disputavam entre si as terras mais férteis ou as áreas de caça mais rica,
conflitos de toda natureza são eventos frequentes e quase constantes da
história da humanidade, em geral terminando com vencedores e perdedores – raras
conciliações. Quanto mais organizadas as sociedades ao longo da história e quanto
maior a eficácia das armas, mais letais e devastadores tornaram-se caracterizaram
as hostilidades. Ao mesmo tempo, todas as contendas foram seguidas de iniciativas
no sentido de prevenir ou evitar novos confrontos belicosos, seja pela simples
dizimação do vencido, seja por meio de acordos ou pactos que garantissem a paz
no futuro. Evidentemente, tais tratados não resistiam às dinâmicas geopolíticas
que marcaram todas as épocas e ao redor de todo mundo.
Mas também
fazem parte desse cenário os mais diversos conchavos entre sociedades e nações
em busca de fortalecimentos – agressivos e defensivos. Todavia, também nesse
plano, curtas durações de vigor dos pactos eram a regra. Na história recente, o
Tratado de Versailles pós-Primeira-Guerra-Mundial, ou o Tratado de Não-Agressão
ente o Terceiro Reich e a Rússia não evitaram, respectivamente, a Segunda
Guerra Mundial, nem a invasão da Rússia pelas tropas alemãs.
Depois dos nefastos resultados da Segunda
Guerra Mundial, cristalizou-se um cenário de confrontos entre duas semiesferas
ideológicos, cada uma aspirando a hegemonia sobre o globo. A ciência e a
tecnologia impediram agressões em grande escala – as armas nucleares de parte a
parte, caso usadas, projetariam o que eventualmente restaria da humanidade para
dez mil ou mais anos para trás. Estratégias de outsourcing de conflitos pelas
grandes potências para palcos sem grande visibilidade e longe dos interesses da
maior parte da humanidade, sem ferir os termos de pactos e tratados, por um
lado camuflaram os verdadeiros conflitos, por outro serviam de teste e avalição
mútua das tecnologias armamentistas e operacionais militares.
Nesse
ambiente, três gerações de paz no mundo ocidental, parte geopoliticamente
sempre mais turbulenta do globo, fizeram surgir e consolidaram um novum civilizatório – uma decidida e
profunda moral anti-bélica e com resultados contundentes. São posturas como a
rejeição de nacionalismos irracionais, o conhecimento presencial de outros
países, sua gente e seus costumes, laços interpessoais passando fronteiras,
para citar apenas alguns fatos, que moldaram novas mentalidades de coexistência
e novos padrões de tolerância e racionalidade social.
A metamorfose
que deu origem e consolidou uma nova naturalidade ao longo de décadas foi agora
sacudida e desafiada por um confronto armado entre nações, exigindo respostas
inusitadas. Na sequência, onde pactos não se aplicam ou não podem ser aplicados,
emergiu uma nova força – a solidariedade internacional com o agredido, que vai da
simples condenação a ações e atitudes concretas. E não sem sacrifícios pessoais
e coletivos. Não se tem notícia de demonstrações de protesto em países não
diretamente envolvidos por ocasião da eclosão da Primeira ou da Segunda Guerra
Mundial, muito menos ocorrendo dentro dos países agressores.
Cada realidade
geopolítica novo suscita respostas novas. Essencialmente, cada reação contém um
menor ou maior ingrediente defensivo. Assim, o leque de reações, inclusive a
agressões, estende-se da discussão em busca do consenso ao “bater de volta”
seja com armas, seja por medidas econômicas. No mundo moderno, os interesses
econômicos têm frequentemente se sobrepostos aos políticos – inclusive bélicos.
Mesmo com efeitos de sanções econômicas em mercados globalizados tendo duas
mãos, numa intensa interdependência econômica, como a observamos nos mercados
mundiais de produtos e serviços, as quebras nas cadeias de suprimento e de
consumo têm efeitos devastadores iguais, ou piores, a bombas de alto poder
destrutivo. Estratégias econômicas, além de atingir o mundo empresarial resultam
em privações para a população e, por conseguinte tendem a levar a reflexões e
questionamentos e, num estágio mais grave, a resistências e revoltas internas.
No atual
confronto entre a Rússia e a Ucrânia observamos cenários bastante diferentes
daqueles de guerras anteriores. Em primeiro lugar, o mundo simplesmente não
aceita mais guerras com todas as suas atrocidades, especialmente quando atinge
a população civil. E as populações envolvidas, ou as solidárias, estão
dispostas a mostrar sua indignação na rua – eventualmente sob risco da própria
vida. No centro da questão está uma premissa central da humanidade moderna, uma
convicção coletiva: a inquestionabilidade do direito de existir de todos, sejam
esses indivíduos ou sociedades inteiras. Em segundo lugar, e decorrente desses
fatos, seja qual for o desfecho dessa guerra, a Rússia, sob o atual regime,
excluiu-se da comunidade das nações, com evidente prejuízo para seu povo, até uma
revisão profunda de seus princípios e práticas de governo. No momento, a Rússia
pode teoricamente ganhar essa guerra, mas jamais conseguirá estabelecer a paz.
A Ucrânia sempre lutará por sua independência, autonomia e autodeterminação de
seu destino – com as forças que já constituíram as tropas de elite da Rússia. O
tempo quando se podia subjugar um povo passou, e o mundo sairá fortalecido
moral e civicamente desse episódio.
Com o fim
da Segunda Guerra Mundial, um sentimento de indignação e repúdio à guerra
cresceu, e ouvia-se um clamor de “nunca mais” ao redor do mundo. E, de fato, os
resultados e efeitos foram uma pacificação geral e duradoura entre povos historicamente
envolvidos em enfrentamentos bélicos. Esta postura coletiva, assumida por
governos, entidades econômicas e populações, ficou evidente com as intensas e
generalizadas manifestações, seja em forma de apelos, de sanções, de condenação
ou de maciços protestos populares ao redor do planeta. Como todas as
anteriores, também esta guerra terminará e, quiçá, a fênix baterá suas azas
para um voo eterno. A atual pandemia e esse conflito dão motivos para muitas
reflexões; que delas resulte a paz entre os povos.
- Rezemos!
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