quinta-feira, 10 de março de 2022

A Fênix Sacode Suas Azas?

 

A Fênix Sacode Suas Azas?

 

(“Does the Phoenix Shake its Wings?” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Desde quando grupos de humanos disputavam entre si as terras mais férteis ou as áreas de caça mais rica, conflitos de toda natureza são eventos frequentes e quase constantes da história da humanidade, em geral terminando com vencedores e perdedores – raras conciliações. Quanto mais organizadas as sociedades ao longo da história e quanto maior a eficácia das armas, mais letais e devastadores tornaram-se caracterizaram as hostilidades. Ao mesmo tempo, todas as contendas foram seguidas de iniciativas no sentido de prevenir ou evitar novos confrontos belicosos, seja pela simples dizimação do vencido, seja por meio de acordos ou pactos que garantissem a paz no futuro. Evidentemente, tais tratados não resistiam às dinâmicas geopolíticas que marcaram todas as épocas e ao redor de todo mundo. 

Mas também fazem parte desse cenário os mais diversos conchavos entre sociedades e nações em busca de fortalecimentos – agressivos e defensivos. Todavia, também nesse plano, curtas durações de vigor dos pactos eram a regra. Na história recente, o Tratado de Versailles pós-Primeira-Guerra-Mundial, ou o Tratado de Não-Agressão ente o Terceiro Reich e a Rússia não evitaram, respectivamente, a Segunda Guerra Mundial, nem a invasão da Rússia pelas tropas alemãs.

 Depois dos nefastos resultados da Segunda Guerra Mundial, cristalizou-se um cenário de confrontos entre duas semiesferas ideológicos, cada uma aspirando a hegemonia sobre o globo. A ciência e a tecnologia impediram agressões em grande escala – as armas nucleares de parte a parte, caso usadas, projetariam o que eventualmente restaria da humanidade para dez mil ou mais anos para trás. Estratégias de outsourcing de conflitos pelas grandes potências para palcos sem grande visibilidade e longe dos interesses da maior parte da humanidade, sem ferir os termos de pactos e tratados, por um lado camuflaram os verdadeiros conflitos, por outro serviam de teste e avalição mútua das tecnologias armamentistas e operacionais militares.

Nesse ambiente, três gerações de paz no mundo ocidental, parte geopoliticamente sempre mais turbulenta do globo, fizeram surgir e consolidaram um novum civilizatório – uma decidida e profunda moral anti-bélica e com resultados contundentes. São posturas como a rejeição de nacionalismos irracionais, o conhecimento presencial de outros países, sua gente e seus costumes, laços interpessoais passando fronteiras, para citar apenas alguns fatos, que moldaram novas mentalidades de coexistência e novos padrões de tolerância e racionalidade social.

A metamorfose que deu origem e consolidou uma nova naturalidade ao longo de décadas foi agora sacudida e desafiada por um confronto armado entre nações, exigindo respostas inusitadas. Na sequência, onde pactos não se aplicam ou não podem ser aplicados, emergiu uma nova força – a solidariedade internacional com o agredido, que vai da simples condenação a ações e atitudes concretas. E não sem sacrifícios pessoais e coletivos. Não se tem notícia de demonstrações de protesto em países não diretamente envolvidos por ocasião da eclosão da Primeira ou da Segunda Guerra Mundial, muito menos ocorrendo dentro dos países agressores. 

Cada realidade geopolítica novo suscita respostas novas. Essencialmente, cada reação contém um menor ou maior ingrediente defensivo. Assim, o leque de reações, inclusive a agressões, estende-se da discussão em busca do consenso ao “bater de volta” seja com armas, seja por medidas econômicas. No mundo moderno, os interesses econômicos têm frequentemente se sobrepostos aos políticos – inclusive bélicos. Mesmo com efeitos de sanções econômicas em mercados globalizados tendo duas mãos, numa intensa interdependência econômica, como a observamos nos mercados mundiais de produtos e serviços, as quebras nas cadeias de suprimento e de consumo têm efeitos devastadores iguais, ou piores, a bombas de alto poder destrutivo. Estratégias econômicas, além de atingir o mundo empresarial resultam em privações para a população e, por conseguinte tendem a levar a reflexões e questionamentos e, num estágio mais grave, a resistências e revoltas internas.

No atual confronto entre a Rússia e a Ucrânia observamos cenários bastante diferentes daqueles de guerras anteriores. Em primeiro lugar, o mundo simplesmente não aceita mais guerras com todas as suas atrocidades, especialmente quando atinge a população civil. E as populações envolvidas, ou as solidárias, estão dispostas a mostrar sua indignação na rua – eventualmente sob risco da própria vida. No centro da questão está uma premissa central da humanidade moderna, uma convicção coletiva: a inquestionabilidade do direito de existir de todos, sejam esses indivíduos ou sociedades inteiras. Em segundo lugar, e decorrente desses fatos, seja qual for o desfecho dessa guerra, a Rússia, sob o atual regime, excluiu-se da comunidade das nações, com evidente prejuízo para seu povo, até uma revisão profunda de seus princípios e práticas de governo. No momento, a Rússia pode teoricamente ganhar essa guerra, mas jamais conseguirá estabelecer a paz. A Ucrânia sempre lutará por sua independência, autonomia e autodeterminação de seu destino – com as forças que já constituíram as tropas de elite da Rússia. O tempo quando se podia subjugar um povo passou, e o mundo sairá fortalecido moral e civicamente desse episódio.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, um sentimento de indignação e repúdio à guerra cresceu, e ouvia-se um clamor de “nunca mais” ao redor do mundo. E, de fato, os resultados e efeitos foram uma pacificação geral e duradoura entre povos historicamente envolvidos em enfrentamentos bélicos. Esta postura coletiva, assumida por governos, entidades econômicas e populações, ficou evidente com as intensas e generalizadas manifestações, seja em forma de apelos, de sanções, de condenação ou de maciços protestos populares ao redor do planeta. Como todas as anteriores, também esta guerra terminará e, quiçá, a fênix baterá suas azas para um voo eterno. A atual pandemia e esse conflito dão motivos para muitas reflexões; que delas resulte a paz entre os povos.

- Rezemos!

 

 

                  

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário