domingo, 30 de janeiro de 2022
O Confunismo Chinês
O Confunismo Chinês
(“The Chinese Confunism“ - This text is written in a way to ease
comprehensive electronic translations)
Klaus H. G. Rehfeldt
Na história do
comunismo prático não existe o comunismo na sua concepção idealizada,
existem, sim, versões mais ou menos ajustadas com a história e a cultura de cada
sociedade. Países com passados de governos autocráticos como a própria Rússia,
berço desse ideário, por exemplo, aceitam mais facilmente a instalação de
regimes mais totalitários, outros, com experiências democráticas em sua
história, provavelmente exigiriam passos mais suaves. Resistências espontâneas
a regimes comunistas instalados compulsoriamente manifestaram-se especialmente
em países com níveis socioculturais mais elevados. Numa outra dimensão, o
contexto filosófico-religioso pode ser praticamente impermeável a ideias
comunistas, como no caso da Índia, onde – simplificando quase pecaminosamente –
a ascensão social e econômica é predeterminação do destino e não depende de um
processo político de equalização social.
Essas considerações levam
forçosamente à República Popular da China, que se autodefine como país
comunista. A pergunta é: que comunismo é esse que inclusive já chegou a ser
identificado como mais nacional-socialista do que comunista. Nesse caso
específico seria absolutamente inapropriado e leviano desconsiderar uma
história milenar riquíssima em aspectos culturais, econômicos, políticos – e
filosófico-religiosas. E essa história seria incompleta e impensável sem a
figura de Confúcio, que marca e norteia o pensamento e o comportamento chinês
(e coreano) há cerca de 2.500 anos.
O
objeto central do ensino de Confúcio é a ordem, inclusive a social, ou seja, a
relação familiar, aquela entre superiores e subordinados, a adoração ancestral,
os ritos e costumes. Confúcio ensinou que é apenas através da ordem que a
liberdade se abre para o homem. Ele afirma que não existe jogo sem regras, e
somente as regras proporcionam a liberdade de jogar nas opções permitidas. Da
mesma maneira, somente uma sociedade bem organizada consegue produzir
estruturas para uma vida livre do homem. Em outras palavras, Confúcio entente
que a ordem não suprime a liberdade, mas apenas abre um espaço de ação no qual
as atividades humanas se podem desenvolver. Isso exclui a possibilidade de
ausência de regulamentação sob risco de falta de liberdade coerente com as
regras da sociedade.
No
aspecto político-cultural, conceitos centrais do confucionismo como a
prioridade da política interna sobre a externa, a convicção de que todas as
pessoas são basicamente educáveis, a maneira pragmática de compreender o mundo
como ele é, para citar alguns, mas também o abandono das ideias que queiram instalar
um igualitarismo social e político em favor da ordem hierárquica – um
pensamento novamente aceitável nas esferas oficiais chinesas a partir da década
de 1990. A abertura dos mercados chineses para o mundo vai na mesma direção.
Isso, sem dúvida, explica em boa parte o rápido crescimento econômico, que, por
sua vez, serve de porquê do igualmente rápido crescimento da desigualdade
social no país. Tudo isso, no entanto, na presença da “benção de uma ordem
política” conforme Confúcio enfatiza e que o Partido Comunista Chinês entende
como “harmonia política”, ou “um país, dois sistemas”.
Desde
os tempos iniciais, o comunismo na China diverge fortemente do seu modelo
soviético. Em lugar, por exemplo, dos ‘colchoses’ com a terra de propriedade do
povo sendo cultivada coletivamente (e que se revelou como fracasso), as
comunidades rurais na China organizaram-se em dezenas de milhares de
cooperativas agrícolas estimuladas, mas não impostas pelo governo. Em outra
consideração, o partido único do país autodenomina-se de comunista, porém, nos
moldes em que existe poderia existir em qualquer pseudodemocracia de outro
ideário político, como, por exemplo, num regime militar.
Na
realidade, a experiência comunista nunca conseguiu a livre adesão de um povo
pelas mais diversas razões e o sincretismo político chinês é, sem dúvida, uma
maneira bem-sucedida na busca de novos caminhos na harmonização de um estado
socialista com uma economia capitalista de mercado. Obviamente, não é um regime
ideal sob vários aspectos, mas enquanto um povo experimenta um longo e contínuo
processo de crescente prosperidade, esse ‘”comunismo “ se mostra perfeitamente
tolerável. A China terá de ser explicada de outra maneira, menos a do comunismo.
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