sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

A Fralda, um Ícone da Sociedade de Consumo

 

A Fralda, um Ícone da Sociedade de Consumo

(“The Diaper, an Icon of the Consumer Society¨ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Em climas mais quentes, os bebês provavelmente ficavam quase nus e não enrolados. Nossos bebês originalmente sempre carregado¨s, passando a maior parte do tempo em contato físico com a mãe. Então ela também sentia quando seu filho devia que evacuar e ela simplesmente segurava o bebê longe dela. Este ainda é o caso de muitos povos primitivos hoje. Já em áreas mais frias, peles de animais provavelmente eram usadas e enxaguadas quando sujas.

 

Existem registros de enrolamento que foram criados cerca de 600 anos antes de Cristo. Naquela época, os recém-nascidos eram completamente embrulhados com fitas. Musgo, feno e palha serviram como material absorvente. Existem também registros semelhantes do Egito, bem como da antiguidade grega e romana.

 

No século 18, as fraldas mudaram na Europa. Agora as mulheres tricotavam calcinhas de lã de ovelha para seus bebês. Elas os encheram de feno e palha. Isso resultou em uma fralda muito permeável ao ar. A calcinha de lã não precisava ser lavada após cada uso, mas apenas seca e recarregada.

 

À medida que os tecidos de algodão se tornaram mais acessíveis, os panos substituíram as fraldas de lã. Três panos foram usados para trocar fraldas. Um pano foi embebido em azeite, gordura quente ou cera de abelha para selar o pacote de fraldas. As fraldas sujas eram enxaguadas e depois fervidas em água quente. O pacote de fraldas ainda era muito permeável ao ar.

 

Até aqui, a história. – Na década de 1950, as calças de plástico agora deviam facilitar a troca de fraldas. Isso tornou possível estender consideravelmente os intervalos de embalagem. No entanto, o ambiente quente e úmido das fraldas em embalagens herméticas deu origem ao problema das assaduras.

 

Em 1961, a empresa Procter & Gambel introduziu com sucesso a marca Pampers nos EUA. A primeira fralda tinha uma forma retangular simples. Numerosas camadas de papel crepom serviram como núcleo absorvente e uma folha foi usada como proteção contra umidade. No entanto, o problema das assaduras ainda não foi resolvido. As mães simplesmente se acostumaram com um bumbum dolorido ao longo do tempo. Pós e pomadas fazem parte do equipamento padrão do trocador. Além disso, com a introdução da fralda descartável, as fraldas de pano foram retratadas como anti-higiênicas, fedorentas e elaboradas demais para fins de marketing.

 

Hoje, os varais com longas filas de fraldas ao vento sumiram da paisagem. E os tanques e tábuas de lavar não existem mais. Em compensação, cada mãe consome apenas no primeiro ano de seu bebê cerca de 2.700 fraldas descartáveis, a um custo expressivo. Por outro lado, no Brasil nasceram 2,5 milhões de bebês. Isso significa que num ano, cerca de 6,75 bilhões de fraldas vão para o lixo, não reciclável, depois de poucas horas de uso. O custo e astronômico, cerca de R$ 6,75 bilhões (tomando por base o preço de R$ 1,00 por fralda descartável) ao ano. A economia de consumo vibra e aplaude – o meio ambiente, nem tanto.

 

E aqui cabe uma reflexão. Hoje não existe mais nem tanque, nem tábua de esfregar, nem varal. Existe uma máquina que lava, enxagua e seca – apenas não dobra – onde as fraldas de pano representariam apenas parte de todo seu serviço. E muitas famílias possuem-na.

 

De fato, alguma coisa está mudando com o ícone fralda. Um pioneiro no retorno das fraldas de pano é a Inglaterra. Aqui, os futuros pais são sistematicamente instruídos em cursos preparatórios para trocar fraldas descartáveis por outras de pano. Os serviços de fraldas são indispensáveis e, assim, são emitidos vouchers para fraldas de pano. E cada vez mais pais também estão optando novamente por fraldas de pano. Nossas avós ainda sabiam muito bem o que a pele sensível de um bebê precisa: luz, ar e umidade. Além disso, as propriedades benéficas da ureia eram conhecidas e utilizadas. Não houve problemas com assaduras, fungos e inflamação. Esse conhecimento foi transmitido de geração em geração. Hoje, os estudos confirmam o que nossas avós já sabiam. É assim que as fraldas de pano modernas estão reconquistando trocadores.

 

Eis apenas um exemplo de consumismo altamente questionável num mundo em constante mutação. Cabe repensar todo consumo quando se torna irracional diante tais mutações de parâmetros.

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

O Mito da Superpopulação

 

O Mito da Superpopulação

 

(“The Myth of Overpopulation¨ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O medo de um crescimento populacional explosivo remonta ao século XVIII. Naquela época, o pastor e economista britânico Thomas Malthus alertou que um número crescente de pessoas inevitavelmente levaria ao empobrecimento, à fome e às guerras. Para evitar essa "armadilha populacional", Malthus propôs a abstinência e a abolição da ajuda aos pobres. Suas teorias são baseadas em ideias darwinistas sociais, parcialmente eugênicas, e foram refutadas repetidas vezes.

 

Era um medo fundamentado. Afinal, a população mundial no início daquele século é estimada em cerca de 600 milhões de pessoas, e estima-se que tenha aumentado para 970 milhões de pessoas até o final do mesmo. Talvez não se tenha tido dados estatísticos razoavelmente precisos naquela época, mas certamente percebeu-se a mudança demográfica na vida cotidiana, principalmente a expansão das cidades. Em suma o crescimento da população global daqiele século excedeu o crescimento acumulado dos cinco séculos anteriores.

 

Não se tratava de um fenômeno somente europeu. Se por um lado observou-se a ocupação maciça das Américas por contingentes europeus, por outro, o Império Chinês continuou sua expansão na Ásia até atingir sua maior extensão em 1759, resultando em prosperidade econômica e um forte crescimento populacional.

 

E não parou ali. O século XIX registra um aumento demográfico global de 900 milhões para 1,65 bilhão de habitantes mundiais, ou seja, um aumento de 83,3%. No entanto, pior ainda foi a explosão demográfica do século XX, daquele 1,65 bilhão para 6,17 bilhões de humanos, significando um aumento de 373,9%, numa espantosa média de 3,7% por ano, ou seja, essa média de uma década equivale ao aumento demográfico do século XVI inteiro!

 

Um detalhe dessa expansão demográfica é que ela se concentrou no hemisfério norte do globo, em rápido desenvolvimento, não por acaso em consequência de ter abrigado a parcela da humanidade mais exposta a desafios existenciais ao longo de sua história. As causas principais dessa expansão a partir do dos séculos XVIII e XIX foram uma gradual melhora na segurança social e os recursos médicos mais desenvolvidos e sofisticados. Observamos um crescimento populacional que obviamente começou a deixas suas marcas na florescente economia e prosperidade geral, não esquecendo, por ouro lado, os efeitos colaterais negativos, mesmo que inicialmente ignorados.        

 

Hoje, a população mundial soma cerca de espantosos oito bilhões de seres humanos, o mamífero de porte mais numeroso do planeta (em segundo lugar está o boi doméstico com cerca de 1,5 bilhão de indivíduas).

 

Mas algo ocorreu desde fins do século XX. Vários fatores, como o controle de natalidade pela própria mulher em busca de autonomia social e profissional, ou a intenção de garantir um futuro próspero aos filhos, entre outros, começaram a determinar uma redução gradativa na taxa de natalidade por mulher. No espaço de tempo de apenas três gerações, as famílias com seis, oito, dez, ou mais filhos viraram história. Atualmente, a média mundial caiu para 2,3 filhos por mulher.

 

Mundialmente, mesmo na África, as taxas de auimento populacional estão em declínio. Na Ásia, por exemplo, esse crescimento, que era de 4,0% ao ano durante o século XX, diminui para 1,1% na década de 2010/20. Nas Américas, a respectiva queda foi de 5,9% para 2,1%. Já na Europa, a mencionada redução foi de 0,8% para 0,15%.

 

As causas dessa mudança demográfica são bastante sólidas e convincentes de que não se trata de um fenômeno espontâneo e transitório. Daí os mais diversos órgãos nacionais e internacionais, que operam estatísticas e projeções demográficas, preveem um crescimento zero para a população mundial para algum momento entre 2060 e 2100 – sendo continuamente corrigidas para baixo. E esse mesmo momento será o ponto inicial para o decréscimo demográfico mundial. Não se trata de um fenômeno simultâneo, e na realidade em vários países, como Japão ou Itália, já registram crescimentos negativos.

 

Percebe-se que não se trata de uma ruptura com repentinas consequências catastróficas, porém de um processo lento, permitindo os ajustes conjunturais necessários, seja no mundo econômico, seja no administrativo de cada sociedade. Possivelmente haverá necessidade num novo modelo existencial, caraterizado por alto nível tecnológicos, dando suporte a uma população cada vez menor. O resultado será um cenário vivencial inédito: o patrimônio público e privado construído    por gerações anteriores, mais numerosas, estará à disposição de populações cada vez menores. De qualquer maneira, é impossível prever como uma sociedade, depois de um longo passado de crescimento em todos os sentidos, lidará com essa nova realidade.

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 9 de novembro de 2024

Hegemonias Não São Eternas

 

Hegemonias Não São Eternas

 

(“Hegemonies Are Not Eternal” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Hegemonias vem e vão. Supremacias vem e vão. Isso é uma constante histórica da humanidade desde quando estruturada em sociedades organizadas. Há milhares de anos, prosperidades regionais fizerem surgir sociedades fortes com potencial de expansão territorial e consequentes domínios de povos próximos menos afortunados. Sem esquecer evoluções civilizatórias no mundo asiático, conhecemos as primeiras estruturas estatais política e economicamente fortes surgidas no 4º milênio a.C. na Mesopotâmia, depois no Egito ao longo do rio Nilo (mas, menos notavelmente, também na costa do Pacífico sul-americano).

 

Um marco na história antiga foi o surgimento do Império Romano, que acabou por impor seu crescente poder militar, político, mas também cultural no sul e sudeste europeu, no Oriente Médio, ao redor do Mar Mediterrâneo e em terras germânicas. Durou de 27 a.C. a 1453 d.C. — um total de 1.480 anos para depois implodir.

 

Nos séculos XII e início do XIII, de origem asiática, o Oriente Médio, mas principalmente a Europa, foram alvos da expansão do Império Mongol, que, em seus avanços bélicos, chegou a formar o maior império contíguo da história, cobrindo 27,3 milhões de quilômetros quadradas de terra. O império teve 110 milhões de pessoas entre 1270 e 1309. Acabou sendo um império insustentável em sua época e desapareceu do mapa.

 

Depois de um vácuo secular, embora e paralelamente à expansão do cristianismo como fator de determinação civilizatória em terras europeias, o Império Otomano estabeleceu uma supremacia política e religiosa no espaço mediterrâneo, chegando ao seu auge entre os séculos 16 e 17 d.C., cobriu partes de três continentes para então lentamente sucumbir.

 

Com as iniciativas desbravadoras hispânicas, e portuguesas, dos séculos XVI e XVII, as supremacias territoriais começaram a ter origem europeia. Os continentes, americano, africano e asiático eram imensos, praticamente sem oferecer resistência à ocupação – e subjugação. Entretanto, depois de apenas o Império Hispânico, em seu auge, atingir uma soma de territórios de 13,7 milhões de quilômetros quadrados no final do século XVIII, iniciou-se um gradual declínio com um recuo final aos domínios limitados à atual península hispânica. – Impérios vem e vão.

 

As mesmas precondições favoráveis deram origem à quase simultânea construção do Império Britânico. Esse tornou-se o maior império da história, dominando quase um quarto do planeta. Motivado pelas explorações portuguesas e hispânicas, seu início deu-se no final do século XVI. O Império Britânico impôs a sua supremacia política, económica e militar ao redor do mundo, principalmente depois da derrota de Napoleão em 1814 e até ao início do século XX.

 

Em seu auge em 1920, o Império Britânico cobria 35,5 milhões de quilômetros quadradas, o que representava quase um quarto da área terrestre do mundo, e no qual “o sol não se punha”. Em 1913, o Império Britânico controlava 412 milhões de pessoas, o que representava 23% da população mundial na época. No entanto, ele começou a declinar após as duas guerras mundiais, quando a Grã-Bretanha ficou enfraquecida e endividada. A Grã-Bretanha também perdeu parte do seu poderio económico face a concorrentes como os Estados Unidos e a Alemanha. – Foi uma transição sem traumas nacionais.

E foram exatamente os Estado Unidos, como os grandes vencedores da Segunda Guerra Mundial, que assumiram uma nova liderança socioeconômica, política e cultural no mundo, apenas contestada pelo regime ideologicamente oponente da União Soviética ao longo de quase cinco décadas de Guerra Fria até a implosão do mundo comunista. A hegemonia norte-americana estendeu-se, direta ou indiretamente, pelos cinco continentes. Não foi uma supremacia territorial, mas um forte domínio – senão dependência – econômico, às vezes, político, especialmente sobre os países do assim chamado Terceiro Mundo. Uma hegemonia praticamente global.

 

Todavia, ao longo da história dos últimos milênios, nenhuma supremacia, hegemonia ou liderança conseguiu ser eterna. Assim e por enquanto, lenta, mas continuamente, outro candidato a líder econômico mundial já está se destacando – a China. Achando um compromisso entre uma doutrina político socialista e uma economia de mercado, ao longo dos últimos 40 anos avançou de um PIB de 190 bilhões de dólares, ou seja, insignificantes 6,5% dos 2,9 trilhões de dólares dos Estados Unidos em 1980, para atuais 18,3 trilhões de dólares, significando quase dois terços dos 29,17 trilhões estadunidenses. Um avanço, sem dúvida, espetacular, e, embora de impulso mais reduzido, promete continuidade. Ao lado de outros atores relevantes, outros aspectos determinantes: sua capacidade tecnológica e seu mercado de consumo interno, que é quatro vezes maior que o norte-americano.

 

A liderança econômica dos Estado Unidos está ameaçada? A lógica histórica e as evidências dizem que sim, e a admissão não será fácil no mundo da informação global. E acabará ali? Certamente não tão breve. A Índia está revelando progressos expressivos. E, quem sabe, ainda existe o continente africano. Hegemonias não são eternas. 

          

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

A China e Seu Futuro Incerto

 

A China e Seu Futuro Incerto

 (¨China and its Uncertain Future¨ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Durante quatro décadas, a China apresentou um crescimento conjuntural inusitado de sua economia. Nesse curto período, conseguiu um avanço econômico, especialmente uma industrialização, para cuja concretização os países de economias prósperas da Europa, do Japão e dos Estados Unidos necessitaram três séculos. Consequentemente apresentou uma estonteante média entre 1985 e 2010 de taxas de crescimento de seu PIB de 10,12%, e do PIB per capita de 8,18%.  

 

Esse ciclo começou na década de 1980 com transição do regime de comunismo marxista para um socialismo apoiado numa economia – ‘um país, dois sistemas’. Resultou disso uma abertura para o mundo com um consequente impulso notável de upgrade tecnológico e crescimento econômico, com picos de aumento de PIB de 14,2% e PIB per capita de, 13,6% – obviamente não sustentáveis no longo prazo.

 

O esteio central da consecução dos objetivos da nova concepção política foi a admissão maciça de investimentos externos, mormente na área industrial de bens de elevado valor agregado. Se essa importação de meios produtivos levou, por um lado, a um significativo aquecimento econômico, por outro, serviu – nem sempre por processos legais – à aquisição de conhecimentos tecnológicos. Além disso, o emprego de milhões de trabalhadores criou um potente mercado de consumo interno. Já no mercado externo, conseguiu se tornar rapidamente competitivo, especialmente com produto baixa valore qualidade, principalmente em função da mão de obra barata, mas também de incentivos governamentais (não raro chegando a dumping).   

 

Uma consequência direta e imediata desse desenvolvimento foi uma intensiva urbanização da população chinesa. Desde 1978 houve um crescimento média da população urbana de 4,1% ao ano, resultando hoje num índice de 66,2% desse segmento populacional, ou seja, são 933 milhões de pessoa, enquanto 477 milhões vivem em áreas rurais. Enquanto isso, a população total do país cresceu numa média de 1,0% ao ano, enquanto a população rural diminuiu 0,7% ao ano.

 

O resultado foi uma explosiva indústria da construção, seja para a área residencial e empresarial, seja para a implementação de uma gigante infraestrutura. Metrópoles surgiram nos recantos mais remotos, bem como vastas redes rodoviárias e ferroviárias, em tempos recorde. Ao mesmo tempo, uma série de fatores, por exemplo, a reduzida capacidade de produção agrária, levaram o governo a adotar uma rígida política de controle de natalidade – a política do filho único.

 

Recentemente, alguns dos parâmetros centrais que sustentam desenvolvimentos como China começaram a sofrer graduais declínios em seus índices, resultando num gradual desaquecimento da expansão econômica. Em 2023, essas taxas caíram para o PIB em 5,2% e para o PIB per capita em 5,3%. Os fatores são vários.

 

São vários os fatores. A área industrial está enfrentando várias adversidades. Uma é a cada vez maior escassez de mão de obra, provocando pressões salariais, consequência da prolongada política do filho único. Esse mesmo fator, dando origem a uma atual população de crianças, adolescentes e idosos perfazendo 60% da população total, deu origem a um encolhimento do consumo interno. Uma significa repatriação de indústrias para seus países de origem é outra consequência.    

 

Como em muitos países consumidores de produtos chineses ocorre o mesmo fenômeno, em futuro próxima também o mercado externo tenderá a encolhe – por um lado devido ao mesmo fenômeno de redução dos mercados de consumo nesses países, por outro, em decorrência da necessidade de proteger sua própria produção. Uma eventual reversão futura para um novo crescimento populacional tornar-se-á bastante difícil, uma vez por tratar-se de uma tendência mundial (com poucas exceções), por outro lado em virtude de toda a infraestrutura habitacional das últimas décadas, de moradias a áreas comuns, foi construída para a família nuclear de um só filho. Numa outra esfera é preciso ter em mente que uma urbanização em ritmo e extensão como a chinesa só se faz uma vez.  

 

Seria ingênuo acreditar que se trata de um problema somente interno da China. Em escala menor ou maior, a China tem relações comerciais de importação e exportação com a quase totalidade dos países ao redor do mundo, com isso evidentemente transferindo reflexos de sua situação para outras nações e outros mercados, tanto maiores, quanto for a intensidade desse intercâmbio. Entre esses parceiros, o Brasil é um dos maiores e, ao mesmo tempo, mais distantes, com vias de transporte longas e custos de frete altos. Isso significa que, em caso de cortes por parte da China, especialmente de produtos agropecuários e minérios, o Brasil estará entre os primeiros a ser atingido por tais medidas.

 

A situação chinesa que está se delineando certamente será um duro golpe na globalização, porque a prioridade de proteger dos mercados internos será vital. Obviamente, todos esses fatos não ocorrem do dia para a noite, porém, cabe que, mesmo acontecendo gradualmente ao longo das próximas décadas, deverão ser percebidos para permitir as devidas reações cautelares.  

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Democracia?

 

Democracia?

 

(“Democracy?” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

 

A palavra democracia ("demos" – o povo, "kratein" – governo) se traduz literalmente como "governo do povo". Ela descreve um regime no qual os cidadãos podem ter uma palavra no governo, por exemplo, por meio de eleições, votos ou participação em discussões. É tarefa da política adoptar regulamentos vinculativos para a coexistência de todos os cidadãos. As regras são geralmente adotadas pelos parlamentos na forma de leis, estabelecendo direitos e deveres tanto de cidadãos, quanto de governantes. Assim, uma das características mais importantes de uma democracia é a existência de um parlamento que realmente decide as leis.

 

Embora tenha raízes rudimentares na Grécia Antiga e no Império Romano, é uma forma de governo de aplicação relativamente recente em escala mais ampla, seguindo a séculos, até milênios de regimes autocráticos, sejam eles monarquias ou ditaduras. Ao longo da história desses governos absolutos, na realidade, houve tentativas de romper com o poder absoluto, como, por exemplo, a revolta dos escravos no Império Romano, o lendário Rei Artur em sua távola redonda, ou as guerras dos camponeses na Europa central da Idade Média. Mas somente a Revolução Francesa conseguiu dar um passo decisivo em direção à democracia. Enquanto os primeiros movimentos contra governos autoritários buscavam a libertação de excessos opressivos e a participação e co-determinação nos mesmos, com a Revolução Industrial começa a surgir a nova classe social dos trabalhadores urbanos assalariados, e com ela a categorização entre ideologias até então inexistentes, embora inicialmente sem clara identificação e presença política. Entretanto, evidenciou-se o jogo entre situação e oposição como essência da democracia – sem elas, não há democracia.  

 

Atualmente, a grande maioria das democracias estabelecidas existe a menos de um século. Em outras palavras, somente as últimas duas a três gerações viveram essa nova forma de governo, e as autocracias ainda habitam o subconsciente dos cidadãos. Os restantes governos – autoritários – são, ou fingem de ser ostensivamente de extrema esquerda.

 

 

Consequentemente, não é de se estranhar que o grau de maturação de sistemas democráticos depende diretamente do tempo de existência em cada nação. Quanto mais jovens a democracias são, menos consolidados são seus princípios entre os cidadãos e os próprios políticos, deixando espaço para as mais diversas anomalias, desde poderes mal definidos e indisciplinas governamentais a privilégios indefensáveis garantidos aos delegados do povo.

 

Não existe solução ideal no atendimento de aspirações, interesses e objetivos de todos os cidadãos, mas a democracia permite que ideários e posições coletivas e diversidades - absolutamente naturais - tenham voz e vez. Daí o confronto dos defensores de tais diferenças e visões ideológicas é inevitável e salutar. Os debates resultantes dessas disputas têm por consequência evidenciar abordagens diferentes, propostas diferentes de soluções e caminhos diferentes para alcança os anseios e objetivos de um povo. As soluções propostas acabam por ser temperadas e moderadas por posições opostas, finalmente alcançando um compromisso, idealmente, um consenso.

 

Essa é a situação ideal – na prática, quase uma utopia. Lamentavelmente, as situações de fato, podem distanciar-se radialmente desse ideal, obviamente conforme a maturidade do sistema e de seus participantes ativos. Quando, então, numa série de debates pré-eleitorais no maior colégio eleitoral de uma nação dois desses encontros servem exclusivamente para a desconstrução dos candidatos competidores, e somente na última ocasião, depois de constar o estrago feito, começam a aparecer algumas propostas, parece justo questionar a qualificação desses candidatos para representar e liderar milhões de pessoas. É bem verdade, que eles são produto de uma cultura de práticas políticas que deixam a desejar. Pior ainda quando se observam assassinatos de candidatos em plena rua.         

 

Culpa dos políticos, sim, mas também do eleitor que não se decide de recusar seu voto neles quando não se mostram à altura de seu cargo e da conduta exemplar que deveriam ostentar. Outrossim, o eleitor merece respeito ao invés de ser exposto a um show de baixarias e agressões por parte daqueles que pretendem decidir pelo seu destino. Somente respostas e posturas consequentes por parte do eleitor são capazes de empurrar o sistema para a maturidade.

 

Uma democracia, na qual os opositores passam a se enxergar como inimigos a serem destruídos, perde sua essência e deixa de fazer jus ao nome.

 

 

 

sábado, 31 de agosto de 2024

O Brasil sem Trilhos

 

O Brasil sem Trilhos

(“Brazil without Rails” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Não de todo, mas quase. O Brasil possui uma malha ferroviária, entretanto, bastante menos extensa comparada com outros países de território semelhante. Assim, enquanto a malha brasileira é de 30 mil quilómetros, a rede dos Estado Unidos tem 194 mil quilómetros, da Rússia, 85 mil, da Índia, 66 mil, o Canadá, 52 mil, e a Austrália, 33 mil. Dentro desse quadro, a China é um caso emblemático: o total de suas linhas ferroviárias avançou de 124 mil quilómetros em 2012 para atuais 159 mil quilómetros (dos quais cerca de 45 mil são de alta velocidade). As comparativamente pequenas Alemanha e França possuem redes de, respectivamente, 33 e 30 mil quilómetros.

 

O que, então, explica essa disparidade? Há várias razões para essa situação. Curiosamente, em fins do século XIX e princípio do século XX, várias vias férreas foram construídas no país, chegando a um total de 28 mil quilómetros em 1919. Elas serviam principalmente ao escoamento de produtos como café, cana-de-açúcar, madeira e minério. Em meados do século XX muitas dessas linhas começaram a tornar-se deficitárias devido a mudanças conjunturais ou a extinção de sua base econômica; outras passaram para as mãos do Estado. Em geral, as linhas férreas brasileiras eram de pouca extensão, e pela própria natureza desse meio de transporte, quanto mais curta a rede, menos rendosa ela é.

 

Tanto a construção quanto a manutenção de ferrovias são caras, exigindo planejamentos a longo prazo, bem como determinada intensidade de uso. Nenhuma dessas duas premissas estava garantida no Brasil, prejudicando o desenvolvimento de uma malha ferroviária mais abrangente.

 

Ao mesmo tempo, já no governe de Juscelino Kubitschek, o governo decidiu incentivar a construção de rodovias e o crescimento da indústria automobilística. Grupos econômicos ligados à indústria automobilística e ao setor de construção civil influenciaram o governo no sentido de priorizar a expansão da malha rodoviária e esse modal de transporte. Tinha chegada a era do caminhão.

 

Durante o período do regime militar as ferrovias tiveram o seu maior encolhimento com o “Plano de Erradicação de Trechos Deficitários” de 1964, a malha ferroviária caindo de 38.287 para 29.184 quilómetros.

 

Todavia, de vez em quando ressurgiram, e continuam a ressurgir, pareceres e decisões a favor de uma revitalização da infraestrutura ferroviária. Assim, em 1990 é dada a partida à era da privatização por meio do Programa Nacional de Desestatização (PND), com o objetivo de incentivar e melhorar os serviços e investimento no setor ferroviário. Como consequência, a extensão das ferrovias no país voltou aos 30 mil quilômetros. Com isso, o Brasil possui atualmente 13 malhas regionais privatizadas, operadas por concessionárias privadas ou empresas públicas de capital aberto, como, por exemplo, a VALEC - Engenharia, Construções e Ferrovias S.A., especializada na movimentação de minério de ferro.

 

Em 2019, o Governo Federal voltou a ativar o plano de privatização. Inicialmente foi a realização de leilão de concessão da ferrovia Norte-Sul, que liga o município de Estrela D'Oeste (SP) ao município de Porto Nacional (TO), passando por vários estados e totalizando uma extensão de 1.537 km, um investimento de 2,7 bilhões de Reais. Esse mesmo projeto prevê ainda uma ferrovia entre os municípios de Chapecó (SC) até Barcarena (PA), cuja concessão, todavia, ainda não foi leiloada.

 

Em resumo, a infraestrutura ferroviária ainda não é prioridade no Brasil enquanto o foco continua no desenvolvimento rodoviário. Por mais que se sabe que movimentação de 1 tonelada por 1.000 quilómetros custa em média R$ 425,00 por rodovia, e apenas R$ 168,00 por ferrovia (2021), os altos custos e a falta de continuidade nas políticas públicas constituem obstáculos sérios para a implementação mais intensiva desse modal no país.

 

Aliás, a navegação de cabotagem (transporte entre portos no mesmos país) encontra-se em situação semelhante num país com 8.500 quilómetros de costa.

 

 

 

 

 

 

  

 

 

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

A Semana de Quatro Dias (de Trabalho)

A Semana de Quatro Dias (de Trabalho)

(“The Four-(Work-)Day-Week” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

(Também acessível no blog: kl-rehfeldt.blogspot.com)

 

“Vivemos para trabalhar ou trabalhamos para viver?” Nem um, nem outro, mas ambos.

 

Trabalhar apenas quatro dias por semana torna os funcionários mais felizes, saudáveis e igualmente produtivos, é o que sugerem estudos e projetos-piloto. Evidentemente, há muita discussão entre defensores e opositores a essa ideia, seja a validade, o modelo, ou a extensão da medida.

 

Os resultados de um estudo da Grã-Bretanha parecem promissores: 61 empresas testaram a semana de quatro dias durante seis meses. 56 delas querem ficar com ele por enquanto. Os funcionários estão mais equilibrados, mais saudáveis e a produtividade até aumentou. Na Alemanha, depois que, entre outros, o sindicato alemão IG Metall vem pedindo uma semana de quatro dias para a indústria siderúrgica há algum tempo, está sendo lançado um projeto-piloto. A semana de quatro dias deve ser testada em mais de 50 empresas.

 

Na Bélgica, a semana de quatro dias já está consagrada em lei desde o final de 2022. Ali, os funcionários podem completar suas horas de trabalho semanais em quatro dias. Dependente do contrato de trabalho, o número de horas pode ser reduzido contra uma dedução salarial, ou não. Por outro lado, a Islândia vem realizando projetos-piloto e estudos desde 2015, nos quais as horas de trabalho foram reduzidas. Cerca de 90% da população ativa já reduziu o horário de trabalho.

 

Desde o início de 2024, 21 companhias brasileiras estão participando de um projeto piloto, que estabelece o modelo 100-80-100: os profissionais recebem 100% do salário, trabalhando 80% do tempo e mantendo 100% de produtividade.

 

Existem duas variantes básicas para a semana de quatro dias. Na primeira, o colaborador completa seu volume de trabalho, numa semana de 40 horas, em apenas quatro dias, a jornada de trabalho podendo ser estendida de oito para até dez horas. Na segunda variante, o empregado trabalha um dia a menos com a mesma duração e a sexta-feira (ou outro dia útil) é livre. Existem modelos em que o colaborador recebe o mesmo salário de antes, apesar da redução da jornada de trabalho. No entanto, há também a opção pela qual ele renuncie a parte do salário para ter um dia de folga.

 

E quais são as vantagens de uma semana de quatro dias? De acordo com os resultados de estudos e experiências, a semana de quatro dias leva a funcionários mais motivados, o modelo privilegia as empresas que o adotam para possíveis candidatos de emprego e melhora o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Os funcionários relatam uma sensível melhora de sua qualidade de vida pessoal e familiar.

 

Mas também há desvantagens. Em princípio, no modelo da semana de quatro dias com jornada de oito horas, as maiores dificuldades consistem na eficiente distribuição da disponibilidade de colaboradores numa semana útil (de vida ativa e consumo) de cinco, seis ou sete dias, p. ex. no comércio, na hotelaria ou na prestação de serviços (de vida ativa e consumo). Quando, no entanto, as 40 horas por semana são comprimidas em quatro dias (10 horas por dia), isso pode levar maior desgaste físico e mental, que podem rapidamente ter consequências para a produtividade e a saúde do colaborador.

 

Diante de tudo isso, a pergunta que se impõe é se a semana de quatro dias passará a ser o futuro padrão de trabalho. Diferentemente da Bélgica, de uma maneira geral, os países ainda estão longes de alguma forma de oficialização desse modelo de trabalho.  Por um lado, uma semana de quatro dias é mais difícil de implementar em alguns setores, como p.ex. comércio de varejo ou logística, do que em outros. Por outro, é mais fácil com trabalhos de escritório e em algumas áreas industriais. Atualmente, fica ao critério dos empregadores oferecer aos colaboradores novos modelos de tempo de trabalho, seja em termos de tempo, seja com relação ao local (home office).

 

Especialmente ramos de negócio em fase de reestruturação, p. ex. devido a mudanças de mercado, poderiam incluir com mais o modelo de quatro dias. Não raro, novas tecnologias resultam em menos mão de obra – ou em menos horas de trabalho.

 

Já houve tempos quando as jornadas de trabalho de dez, até doze horas, ou então a semana de seis dias de trabalho eram a norma. Depois da semana de cinco dias, o novo modelo de quatro dias parece apenas um passo a mais numa contínua evolução de melhorias de condições de trabalho – e de qualidade de vida.

 

Não podemos deixar de trabalhar sob risco de sérios problemas físicos e mentais, e, a partir de determinado ponto, o trabalho pode converter-se de obrigação estafante em vontade pessoal – talvez, prazer.            

 

 

 

 

 


sábado, 24 de agosto de 2024

O Poder Emergente de Cabelo Banco

 

O Poder Emergente de Cabelo Branco

(“The Emerging Power of White Hair” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

 

Cabelo branco tem poder? Nunca teve. Respeito? Também nem sempre. O cabelo branco sinalizava, isso sim, o fim da vida útil. E não era para menos quando quase todo o trabalho era braçal, era fisicamente desgastante até, finalmente, resultar improdutivo. Restava, então, aguardar o desfecho final, eventualmente auxiliando aindaos filhos em tarefas fáceis. Algo em torno dos 60 anos era o fim da linha. Quando, por exemplo, Bismark criou na Alemanha o primeiro plano governamental de aposentadoria, apenas muito poucos alcançavam o limite de idade de 70 anos para conseguir uma pensão de velhice.

 

Há um detalhe, as mulheres vivem mais que os homens, entre 4 e 6 anos, conforme diferentes sociedades com diferentes hábitos de vida. As razões são várias: o estilo de vida diferente entre os sexos, desgaste físico, mas, possivelmente, também a perda de cromossomos-Y com o avanço da idade. Devido aos primeiros dois fatores, em boa parte resultando da crescente vida urbana e do trabalho industrial, a expectativa de vida das mulheres aumentou mais rápido do que a dos homens ao longo dos últimos dois séculos. Agora, um estudo chegou à conclusão de que desde o final do século 20, esse desequilíbrio vem diminuindo novamente.

 

É sabido, que registros mais antigos de baixa expectativa de vida (em torno de 45 anos nos anos de 1950) se devem às altas taxas de mortalidade infantil, hoje muito pequenas. Mesmo assim, desde meados do século passado, percebe-se um significativo alongamento da vida. Condições de vida mais amenas, uma vida mais saudável e recurso medicinais cada vez mais eficientes contribuem fortemente para essa nova realidade. Entretanto, por mais que haja especulações de um aumento de vida muito além dos 100 anos, a curva histórica desse aumento projeta uma estabilização em torno de 95 a 105 anjos – obviamente com exceções.

 

Os fatores mais importantes, porém, desse quadro são a gradual melhora do estado físico e mental, e da disposição para viver plenamente e com autonomia do idoso atual. São hoje pessoas que em grande parte moram sozinhas, vão ao supermercado, lidam razoavelmente bem com recursos cibernéticos, muitos dirigem seus carros, outros ainda trabalham, e viajam até ao exterior (basta olhar os passageiros de cruzeiros marítimo).

 

Numericamente falando, o idoso está formando um segmento cada vez maior dentro da população. No Brasil, a população acima de 60 anos de idade deixou de ser o menor estrato populacional, hoje superando o número de pessoas na faixa de 15 a 24 anos. É preciso lembrar, que a faixa de 0 a 18 anos já foi a mais numerosa do país. A atual população de idosos (60+ anos) do Brasil são 15,1% da população total, representando 31,3 milhões de habitantes (IBGE). Ela aumentou em expressivos 16% no período de 2000 a 2023.

 

Quando falamos em 31,3 milhões de pessoas, elas não podem mais ser vistas apenas como ônus da previdência social, muito menos como moradores de ancionatos, ou similares. São 31,3 milhões de eleitos qualificados. A importância de seu voto, ou sua abstenção, ficou evidente no exemplo da Inglaterra por ocasião do plesbicito sobre o Brexit (a saída da Inglaterra da Comunidade Europeia): os idosos, conservadores por natureza e que poderiam tê-lo evitado, deixaram de ir às urnas na convicção de que a ideia não prevalecesse, permitindo ao voto jovem aprova-la.  

 

Aparentemente, diferentemente do mundo econômico, o político brasileiro ainda não percebeu o poder emergente desse contingente populacional. Basta desperta-lo por uma causa, não necessariamente ideológica, e esse grupo pode tornar-se um fiel de balança. E, com a histórica negligência em relação a essa população, não faltam causas a serem defendidas. Obviamente, uma agremiação política dos idosos (p. ex., PI, Partido dos Idosos) está fora de cogitação, mas a defesa de suas causas certamente poderia servir de plataforma para muitos projetos políticos.

 

É verdade que, comparado com outros países, inclusiva a Europa, o Brasil tem uma legislação de proteção e facilitação para o idoso bastante avançada. Todavia, ainda há um campo enorme de necessidades a serem atendidas, a começar pelos valores da aposentadoria que se deterioram ano a ano. Afinal, o desvio, durante décadas, das contribuições sociais para o custeio do aparato governamental, em vez de serem capitalizadas, conforme prevê a lei, não é culpa do contribuinte, hoje idos. Mas, basta perguntar ao idoso e ele terá muitas sugestões e reivindicações concretas e justas.

 

E, com a gradual diminuição da população jovem, os idosos ocuparão uma parcela cada vez maior e relevante na sociedade.  

 

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

A Era do WhatsApp

 

A Era do ‘WhatsApp’

(‘The 'WhatsApp' Era’ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Durante milhares, dezenas, centenas de milhares de anos, toda a comunicação era de boca a boca. E o que não era comunicado ou transmitido perdeu-se para sempre. A primeira grande revolução na participação do outro numa mensagem, num aviso, ou num registro passou a ser a gravada, seja cunhada em pedra ou tábuas de barro, ou realmente escrito em papiros – e, talvez, outras formas que não se preservaram. Mas, de qualquer forma, tais recursos eram do domínio de poucos e reservados a uma elite oficial e eclesiástica. Em outra alternativa, o mensageiro era o transmissor de notícias e mensagens a distância, às vezes, longa distância – e coitado dele quando a notícia era ruim. Na verdade, até hoje, mensagens altamente reservadas são transmitidas por ‘courier’.

 

Segue um longo período da escrita em papel, que ganhou expressão a partir da antiga Grécia e existe até hoje. Por fim, já na era moderna, vivemos a chegada da telefonia e a radiodifusão. A comunicação a distância por meios elétricos e eletrônicos tinha nascido. Poucas pessoas, porém, hoje de idade avançada, conheceram o telefone e o rádio em sua infância e juventude. Caíram as distâncias na comunicação e uma única voz passou a alcançar milhões de ouvintes.

 

O próximo passo, a cibernética, e, não demorou muito, surgiram as plataformas das assim chamadas redes sociais. A comunicação para massas passou à comunicação entre massas. Dezenas, centenas, milhares de pessoas conseguem agrupar-se em torno de qualquer assunto ou objetivo.     

 

Tecnicamente, as redes sociais funcionam muito bem, mas, em tudo criado pelo homem, nada é perfeito – como ele mesmo. A possibilidade de comunicação global entre oito bilhões de pessoas passou de algo visionário a até duas décadas atrás para uma realidade. O seu próximo amigo virtual pode ser seu vizinho do andar superior ou estar vivendo em Samarqanda, no Uzbequistão. E se hoje apresenta imperfeições, a inteligência artificial promete corrigi-las – quase – totalmente.

 

Politicamente, é a democracia por excelência, na suposição de que não haja intervenções, seja a que interesses sirvam, ou de que origem forem. Permite a manifestação livre de todos para todos, seja de maneira civilizada, seja de forma ofensiva, até agressiva. E fica a marca, a qualidade da manifestação identifica o autor, mas, assim é a humanidade. A palavra expressa não volta para a boca – a imagem está criada.       

 

 Se politicamente o discurso tende a depender fortemente do mérito do assunto e da orientação político-ideológica do cidadão, a modulação social da exposição acaba por revelar toda a gama de grandezas e desvirtudes do ser humano. Trata-se de uma mídia de massa, e a massa anonimiza (este verbo não consta do Aurélio), pelo menos até certo ponto, da qual o indivíduo praticamente desaparece. Essa consciência tende a derrubar barreiras morais e éticas, abrindo portas para o abuso. A princípio, as redes sociais serviam para mensagens de congratulação, amenidades e curiosidades, um caráter lúdico que em grande parte se perdeu.

 

A realidade atual é outra. “Sei lá, se é verdade, mas gostei; toca pra frente! ” No mínimo, uma leviandade, pior quando a mentira evidente ou desinformação for intencional. As redes sociais permitiram a subtração da identidade da mensagem, notícia ou informação. Talvez seja a razão porque o WhatsApp jamais teve, ou então perdeu expressividade em muitos países, com Estados Unidos e Japão, entre outros.

 

Quando temos redes sociais notoriamente impregnadas por inverdades e distorções de fatos - seja dita a verdades, nem todas; talvez nem a maioria -, obviamente as mesmas perdem um de seus aspectos mais importantes: o de um canal de comunicação confiável de amplitude em casos de emergências públicas (vide a recente enchente no Rio Grande do Sul). Atos e abusos levianos, até irresponsáveis, tornaram as redes sociais inviáveis para quaisquer fins de utilidade pública. Por falta de confiabilidade perdeu-se um valioso instrumento para tais situações.

 

Se as redes sociais trouxeram imensas facilidades de comunicação e a aproximação entre as pessoas, ao mesmo tempo produziram avalanches de informações que invadem nossas vidas sem qualquer filtro ou instrumento seletivo entre o falso e o verdadeiro, entre o bem-intencionado e a má-fé.

 

Daí a pergunta: qual será o futuro das redes sociais? Essencialmente, o futuro das redes sociais depende de sua credibilidade, ou seja, da credibilidade dos seus usuários e de das suas contribuições. Afinal, a médio e longo prazo, ninguém aceita ser ludibriado. Afinal, por mais que a ilusão agrade, no momento decisivo, o homem prefere pisar em chão real e firme.