Migração no Século XXI
(“Migration in the 21st Century” – This text has been written in such a way as to
facilitate translations by electronic means)
Klaus H. G. Rehfeldt
Migrações são
constantes na história da humanidade desde a saída do homo sapiens do
continente africano até as atuais fugas políticas e econômicas. A população
brasileira atual resulta em grande parte dos mais de sete milhões de imigrantes
que aqui desembarcaram desde 1820. E essa realidade foi causa de uma cultura
extremamente tolerante em relação a procedência, hábitos e credos dessa
população multi-berço.
A imigração no Brasil foi resultado de uma política de
povoar esse imenso país, caraterizada pela harmonia de integração e convivência
multi-cultural. Essa tolerância é marca nacional. Aliás, esse cenário é uma
grande qualidade das Américas.
Mas
existem outros quadros. As migrações hoje em curso não têm destinos onde está-se
esperando por sua chegada. Quando não são cidadãos que se prevalecem de
facilidades como habitantes de ex-colônias e se dirigem em direção aos países
ex-colonizadores, são refugiados de zonas de conflitos armados ou simplesmente
pessoas em busca de melhores condições de vida, forçando o ingresso nos países de
destino e apelando a princípios humanitários de acolhimento. E as nações de
destino são infalivelmente aqueles com elevados níveis de prosperidade –
América do Norte e Europa.
Proporcionalmente,
os países europeus são os que registram atualmente os maiores índices de habitantes
com passado migratório. Para citar alguns exemplos, esses contingentes perfazem
na França 10,3% (quase 7 milhões), na Inglaterra 14,1% (9,5 milhões) e na
Alemanha 28,7% (mais de 24 milhões) da população. São situações que obviamente
geram controvérsias, não somente pelo volume, mas também pela falta de
qualificações para integração nos respectivos mercados de trabalho, constituindo
sérios problemas na integração. As sociedades europeias, as objeções e
resistências partem especialmente de defensores de um conservadorismo radical.
Conservadorismo significa a manutenção de valores tradicionais. E valor
tradicional em pais que nunca experimentou a imigração como política
demográfica significa a conservação de uma população natural de um país, sem o
ingresso de pessoas de outras culturas e religiões.
A título
de curiosidade, sublinhando a diferença com países de passado fortemente
marcado por imigrações de grandes contingentes, o Brasil tem o mérito de
extrema tolerância à coexistência de culturas e religiões diferentes. Por essa
razão, a tentativa de alguns extremistas de mobilizar a população contra uma
suposta islamização não surtiu efeito.
Há, no
entanto, um aspecto, também demográfico, que merece uma consideração maior.
Atualmente, um terço das nações do mundo registram o fim do crescimento
populacional ou a redução da mesma, inclusive os três países antes enfocados.
Em outras palavras, sem os mencionados habitantes de passado migratórios, as
atuais populações da França de 68 milhões, da Inglaterra de 67 milhões e a
Alemanha de 85 milhões, seriam, respectivamente França de 61, Inglaterra de 57
e Alemanha de 61 milhões de habitantes. Os reflexos disso sobre a situação
econômica e social dessas nações são difíceis de discernir em todas as suas
extensões. Certamente apresentariam PIBs bastante inferiores aos atuais, mesmo
que os per capita poderiam ser mais favoráveis. O Japão está atualmente
começando a sentir os efeitos econômicos decorrentes da diminuição de sua
população.
Existem
chances para uma reversão dessa tendência? Parece difícil, uma vez que nenhuma
mulher abrirá mãos de um emprego que lhe rende mil ou dois Euros em troca de um
bônus de 500 Euros por filho adicional; ainda mais que os espaços vitais
modernos não preveem famílias numerosas.
Diante
dessa realidade, cedo ou tarde, as nações nessas condições, sejam elas
democracias ou com regimes mais autocráticos, encontrar-se-ão na necessidade de
decidir-se por uma das duas opções, encolher deliberadamente, vivendo de
grandezas passadas, ou aceitar a convivência e gradual absorção de novos
compatriotas com seus particulares valores, suas culturas e seus credos. E isso
fatalmente implica no decorrer das próximas gerações em crescentes taxas de
miscigenação entre a população originária e imigrantes ou seus descendentes –
certamente um pesadelo para os mais conservadores, um problema muito menor para
populações jovens. Certamente, os olhos azuis tornar-se-ão mais raros.
Nessas
últimas considerações, o Brasil pode certamente servir de exemplo de
convivência tolerante e harmoniosa.
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