sábado, 27 de abril de 2024

Migração no Século XXI

 

Migração no Século XXI

(“Migration in the 21st Century” – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Migrações são constantes na história da humanidade desde a saída do homo sapiens do continente africano até as atuais fugas políticas e econômicas. A população brasileira atual resulta em grande parte dos mais de sete milhões de imigrantes que aqui desembarcaram desde 1820. E essa realidade foi causa de uma cultura extremamente tolerante em relação a procedência, hábitos e credos dessa população multi-berço.

 

            A imigração no Brasil foi resultado de uma política de povoar esse imenso país, caraterizada pela harmonia de integração e convivência multi-cultural. Essa tolerância é marca nacional. Aliás, esse cenário é uma grande qualidade das Américas.

 

Mas existem outros quadros. As migrações hoje em curso não têm destinos onde está-se esperando por sua chegada. Quando não são cidadãos que se prevalecem de facilidades como habitantes de ex-colônias e se dirigem em direção aos países ex-colonizadores, são refugiados de zonas de conflitos armados ou simplesmente pessoas em busca de melhores condições de vida, forçando o ingresso nos países de destino e apelando a princípios humanitários de acolhimento. E as nações de destino são infalivelmente aqueles com elevados níveis de prosperidade – América do Norte e Europa.

 

Proporcionalmente, os países europeus são os que registram atualmente os maiores índices de habitantes com passado migratório. Para citar alguns exemplos, esses contingentes perfazem na França 10,3% (quase 7 milhões), na Inglaterra 14,1% (9,5 milhões) e na Alemanha 28,7% (mais de 24 milhões) da população. São situações que obviamente geram controvérsias, não somente pelo volume, mas também pela falta de qualificações para integração nos respectivos mercados de trabalho, constituindo sérios problemas na integração. As sociedades europeias, as objeções e resistências partem especialmente de defensores de um conservadorismo radical. Conservadorismo significa a manutenção de valores tradicionais. E valor tradicional em pais que nunca experimentou a imigração como política demográfica significa a conservação de uma população natural de um país, sem o ingresso de pessoas de outras culturas e religiões.

 

A título de curiosidade, sublinhando a diferença com países de passado fortemente marcado por imigrações de grandes contingentes, o Brasil tem o mérito de extrema tolerância à coexistência de culturas e religiões diferentes. Por essa razão, a tentativa de alguns extremistas de mobilizar a população contra uma suposta islamização não surtiu efeito.

 

Há, no entanto, um aspecto, também demográfico, que merece uma consideração maior. Atualmente, um terço das nações do mundo registram o fim do crescimento populacional ou a redução da mesma, inclusive os três países antes enfocados. Em outras palavras, sem os mencionados habitantes de passado migratórios, as atuais populações da França de 68 milhões, da Inglaterra de 67 milhões e a Alemanha de 85 milhões, seriam, respectivamente França de 61, Inglaterra de 57 e Alemanha de 61 milhões de habitantes. Os reflexos disso sobre a situação econômica e social dessas nações são difíceis de discernir em todas as suas extensões. Certamente apresentariam PIBs bastante inferiores aos atuais, mesmo que os per capita poderiam ser mais favoráveis. O Japão está atualmente começando a sentir os efeitos econômicos decorrentes da diminuição de sua população.

 

Existem chances para uma reversão dessa tendência? Parece difícil, uma vez que nenhuma mulher abrirá mãos de um emprego que lhe rende mil ou dois Euros em troca de um bônus de 500 Euros por filho adicional; ainda mais que os espaços vitais modernos não preveem famílias numerosas.  

 

Diante dessa realidade, cedo ou tarde, as nações nessas condições, sejam elas democracias ou com regimes mais autocráticos, encontrar-se-ão na necessidade de decidir-se por uma das duas opções, encolher deliberadamente, vivendo de grandezas passadas, ou aceitar a convivência e gradual absorção de novos compatriotas com seus particulares valores, suas culturas e seus credos. E isso fatalmente implica no decorrer das próximas gerações em crescentes taxas de miscigenação entre a população originária e imigrantes ou seus descendentes – certamente um pesadelo para os mais conservadores, um problema muito menor para populações jovens. Certamente, os olhos azuis tornar-se-ão mais raros.

 

Nessas últimas considerações, o Brasil pode certamente servir de exemplo de convivência tolerante e harmoniosa.

 

 

 

 

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