O Brasil sem Trilhos
(“Brazil without Rails”
- This text is written in a way to ease
comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Não de todo, mas quase.
O Brasil possui uma malha
ferroviária, entretanto, bastante menos extensa comparada com outros países de
território semelhante. Assim, enquanto a malha brasileira é de 30 mil
quilómetros, a rede dos Estado Unidos tem 194 mil quilómetros, da Rússia, 85
mil, da Índia, 66 mil, o Canadá, 52 mil, e a Austrália, 33 mil. Dentro desse
quadro, a China é um caso emblemático: o total de suas linhas ferroviárias
avançou de 124 mil quilómetros em 2012 para atuais 159 mil quilómetros (dos
quais cerca de 45 mil são de alta velocidade). As comparativamente pequenas
Alemanha e França possuem redes de, respectivamente, 33 e 30 mil quilómetros.
O que, então, explica essa disparidade? Há várias razões para essa
situação. Curiosamente, em fins do século XIX e princípio do século XX, várias
vias férreas foram construídas no país, chegando a um total de 28 mil
quilómetros em 1919. Elas serviam principalmente ao escoamento de produtos como
café, cana-de-açúcar, madeira e minério. Em meados do século XX muitas dessas
linhas começaram a tornar-se deficitárias devido a mudanças conjunturais ou a
extinção de sua base econômica; outras passaram para as mãos do Estado. Em
geral, as linhas férreas brasileiras eram de pouca extensão, e pela própria
natureza desse meio de transporte, quanto mais curta a rede, menos rendosa ela
é.
Tanto a construção quanto a manutenção de ferrovias são caras, exigindo
planejamentos a longo prazo, bem como determinada intensidade de uso. Nenhuma
dessas duas premissas estava garantida no Brasil, prejudicando o
desenvolvimento de uma malha ferroviária mais abrangente.
Ao mesmo tempo, já no governe de Juscelino Kubitschek, o governo decidiu
incentivar a construção de rodovias e o crescimento da indústria
automobilística. Grupos econômicos ligados à indústria automobilística e ao
setor de construção civil influenciaram o governo no sentido de priorizar a expansão
da malha rodoviária e esse modal de transporte. Tinha chegada a era do
caminhão.
Durante o período do regime militar as
ferrovias tiveram o seu maior encolhimento com o “Plano de Erradicação de Trechos
Deficitários” de 1964, a malha ferroviária caindo de 38.287 para 29.184 quilómetros.
Todavia, de vez em quando ressurgiram, e continuam a ressurgir,
pareceres e
decisões a favor de uma
revitalização da infraestrutura ferroviária. Assim, em 1990 é dada a partida
à era da privatização por meio do Programa Nacional de Desestatização (PND),
com o objetivo de incentivar e melhorar os serviços e investimento no setor
ferroviário. Como consequência, a extensão das ferrovias no país voltou aos 30
mil quilômetros. Com isso, o Brasil possui
atualmente 13 malhas regionais privatizadas, operadas por concessionárias
privadas ou empresas públicas de capital aberto, como, por exemplo, a VALEC - Engenharia, Construções e Ferrovias S.A., especializada na movimentação de minério de ferro.
Em 2019, o Governo Federal voltou a ativar o plano
de privatização. Inicialmente foi a realização de leilão de concessão da ferrovia Norte-Sul, que liga o município de Estrela D'Oeste
(SP) ao município de Porto Nacional (TO), passando por vários estados e totalizando
uma extensão de 1.537 km, um investimento de 2,7 bilhões de Reais. Esse mesmo
projeto prevê ainda uma ferrovia entre os municípios de Chapecó (SC) até Barcarena
(PA), cuja concessão, todavia, ainda não foi leiloada.
Em resumo, a infraestrutura ferroviária ainda não é prioridade no Brasil
enquanto o foco continua no desenvolvimento rodoviário. Por mais que se sabe que
movimentação de 1 tonelada por 1.000 quilómetros custa em média R$ 425,00 por rodovia,
e apenas R$ 168,00 por ferrovia (2021), os altos custos e a falta de
continuidade nas políticas públicas constituem obstáculos sérios para a
implementação mais intensiva desse modal no país.
Aliás, a navegação de cabotagem (transporte entre portos no mesmos país)
encontra-se em situação semelhante num país com 8.500 quilómetros de costa.
Lembrando que o lobby do petróleo também é desfavorável ao modal ferroviário.
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