Nadando em Energia
(“Energy Revelry” - This text is written in a way to ease comprehensive
electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Não há
vida sem energia. E não falamos da energia gravitacional onipresente quando matéria atrai matéria na razão direta das massas e na
razão inversa do quadrado das distâncias (I. Newton). Falamos
da energia gerada por todos os corpos vivos, seja da flora, seja da fauna, da
energia que permite aos micro-organismos movimentar-se nos oceanos, a
trepadeira subindo o pé de árvore ou o lobo caçando na floresta. Mas também do
homem que malha o ferro em brasa, que semeia o trigo ou que projeta uma
exploração espacial.
Desde seus primórdios, o
homem tentou direcionar suas energias a algo que facilitasse sua vida. Fosse na
construção de abrigo, na produção de ferramentas e armas, o homem acabou por
descobrir formas e instrumentos que lhe permitissem usar seu potencial
energético de maneira mais eficiente. Afinal, ele só podia contar com a energia
de seu próprio corpo, na melhor das hipóteses em cooperação com outros
indivíduos.
Surgem daí algumas
ferramentas rudimentares, da limpeza da terra à semeadura e à colheita, às
vezes incluindo a criação e operação de sistemas de irrigação. Isso requeria
que toda a família trabalhasse, as vezes duramente, para alcançar o sustento
necessário. A primeira utilização de energia alheia resultou da domesticação de
alguns animais, especialmente dos bovinos.
Nem sempre instrumentos e
armas serviam apenas para fins pacíficos. A subjugação de outras sociedades por
meios belicosos, visando a apropriação de bens alheios não era incomum. E esses
bens alheios incluíam a própria energia humana dos vencidos, transformando-os
em escravos. Com isso, o potencial energético de um povo podia aumentar
expressivamente. Em tempos mais recentes, a
população escrava do Império Romano era de cerca de cinco milhões de
pessoas, o que correspondia a 10-15% da população total. Os escravos eram
usados principalmente na agricultura e nas minas, mas também havia escravos que
trabalhavam como médicos ou arquitetos.
A moral cristã
da idade média causou um retorno, quando a disponibilidade da energia corporal
voltou a predominar, entretanto assistida pela força animal, seja no campo,
seja na circulação produtos, e pelo aproveitamento da força da água e do vento
para moer grãos e executar outras tarefas.
Então
chegou a revolução energética e industrial. Máquinas a vapor tocaram processos
produtivos, seja de extração de matéria prima, seja de transformação de
materiais em produtos e da circulação dos mesmos. Gradualmente, ao longo de
dois séculos de industrialização e explosão tecnológica desenvolveram-se para
atingir a realidade atual.
Qual é essa
realidade especificamente no caso brasileiro. Em 2023, o consumo de energia
elétrica no Brasil foi de 532 TWh, ou seja, 532 trilhões
de quilowatt/hora (kWh). Isso significa que cada brasileiro consome hoje,
direta ou indiretamente, 2.570 milhões de kWh ao longo do ano, ou seja, 7.041 kWh
por dia. Isso é muito? Não quando vemos um consumo 5,1 vezes maior nos Estados
Unidos, e 2,5 vezes maior na China.
O ‘indiretamente’ significa a produção de todos os bens e serviços extraídos,
transformados e fabricados, que são consumidos por pessoa, ou habitante
brasileiro, num amplo leque que vai da elaboração da matéria prima e a fabricação
da colhedeira, do caminhão ou do automóvel, a produção e do consumo de energia
da geladeira e lavadora de roupa ao carregador só telefone celular – do alfi8nete
ao transatlântico. Entram nessa conta o secador de arroz, a câmera fria do frigorífico,
o forno do padeiro e muitos mais. Agora, pensando que o corpo humano gera e consome
por dia de cerca de 2,5 kWh para suas funções básicas e atividades normais, esses
7.041 kWh consumidos por habitante correspondem à energia corporal gerada e
consumida por 2.816 pessoas.
Mas, embora em montantes bem menores, mas com preços muito mais
expressivos, ainda falta a energia de origem fóssil. O Brasil consome cerca de
400 milhões de litros de derivados de petróleo por dia, o que corresponde a um
consumo de 1.200 milhões de kWh que, distribuídos sobre 207 milhões de
brasileiros, resultando num consumo, direto e indireto, de 5,8 kWh/dia por pessoa.
Isso pode parecer pouco, mas é preciso lembrar que a frota de veículos
partículas movimenta-se em apenas cerca de 6 por cento de seu tempo de vida.
Quanto ao consumo de gás GLP, são 90 milhões de metros cúbicos por dia,
correspondendo a 2,5 bilhões de kWh, ou seja, 10,9 kWh/dia por pessoa.
Somando tudo, encontramos um consumo de 7.058 kWh por dia por pessoa,
reduzidos à capacidade energética do ser humanos igualando a energia gerada por
2.823 pessoa. São 2.823 escravos sintéticos a serviço de cada brasileiro, ou seja, para gerar essa disponibilidade energética apenas com a
força corporal, haveria necessidade de uma população brasileira de cerca de 584
bilhões de habitantes.
Nadamos em energia.
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