terça-feira, 30 de abril de 2019

Uma Grande Diferença



Uma Grande Diferença

Klaus H. G. Rehfeldt

O norte-americano, desde jovem, aplica suas sobras em capital produtivo via fundos de investimento ou diretamente em ações. Além de fortalecer a economia da nação, as rendas dessas aplicações contribuem no momento oportuno para a aquisição da moradia própria e, conforme sua prosperidade, mais tarde talvez de outro imóvel, sempre lucrando paralelamente os rendimentos das aplicações.
O brasileiro, no entanto, até por imposições cultural – quem casa, quer casa -, primeiro se endivida a longíssimo prazo, para adquirir sua casa ou seu apartamento próprio, e quando este estiver pago, embarca para a compra da casa de praia ou do sítio. Quando, finalmente, estiver bem – ou muito bem – de vida procura o mercado de capitais para investir suas economias, de preferência com riso – e rendimento - mínimo. Caso contrário, vive o resto da sua vida pagando a manutenção de seus imóveis e reclamando da falta de progresso ou dos investimentos estrangeiros no país.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

O Ensino Domiciliar



Ensino Domiciliar

Klaus H. G. Rehfeldt

É da natureza das pessoas adultas resistir a novidades que causem mudanças em suas vidas cotidianas, nas quais a educação dos filhos em escolas públicas ou privadas têm papel importante. Pouco conhecido no Brasil, existem vários países onde esta rotina inclui o ensino, especialmente o fundamental, provido pela própria família no ambiente domiciliar. Na realidade trata-se essencialmente de uma modalidade moderna da prática milenar de passar informações e tradições à próxima geração em uso desde a antiga vida tribal até a introdução do ensino compulsório público ou privado a partir de início do século XIX.
            Nunca, porém, aquela forma de ensino foi totalmente abandonado. Razões religiosas, a vida em regiões parcamente habitadas, ou situações de ensino público muito precário, entre outras, exigiam ou estimulavam a alternativa do ensino domiciliar. Em meados do século XX, novas teorias, concepções e técnicas de ensino revigoraram esse modelo educacional. Mais recentemente, o fácil e amplo acesso a informações e a disponibilidade de programas via internet, como também a opção do ensino online, facilitaram a realização dessa prática por parte dos pais. Atualmente, inicia-se no Brasil um debate sobre o assunto e os devidos amparos legais.
            Os argumentos pros e contra são numerosos e todos são válidos em maior o menor grau. Há os fatores positivos como o acompanhamento direto do progresso dos filhos, transmissão dos valores da família, progresso conforme a capacidade individual, flexibilidade e adaptabilidade temporal de acordo com a predisposição e aptidão do aluno, menos pressão e influência nocivas, ausência de risco de bullying como aspectos de maior significância. A eles contrapõem-se argumentos desqualificadores como a necessidade e capacidade de pai/mãe responder pelo ensino, mas também pela administração do processo (planejamento, organização etc.), dedicar uma parte fixa de seu tempo à tarefa educacional, bem como um círculo possivelmente menor de amigos/as dos filhos, o que pode significar um entrave na socialização da criança, falta de competição, entre outros de menor importância.
            Percebe-se claramente que nem todos os pais se encaixam no perfil requerido para o ensino domiciliar. Inegável é o enriquecimento permanente do conhecimento dos pais como consequência de dessa atividade de ensino. Ao lado disso, além de restituir à família um maior grau de disciplina interna e de respeito e amor entre pais e filhos, alunos de ensino domiciliar tem conseguido notas iguais ou melhores que a média de todos os alunos em teste padronizados.    

sábado, 13 de abril de 2019

Faltou Lembrar



Faltou Lembrar

Klaus H. G. Rehfeldt

O ensino no Brasil, quando projetado sobre o palco global, não nos tem dado muitos motivos para orgulho. E isso nos vários aspectos que perfazem este complexo tópico, seja no lado de quem promove a educação formal, seja no universo dos consumidores do conhecimento ofertado.

            Entre muitos outros, são problemas de destinação de verba, das instalações físicas, de qualificação e atualização do corpo docente, de estratégias de ensino, de neutralidade e objetividade de abordagem, de programação didática, de continuidade programática e do próprio material didático.

            Enquanto algumas dessas questões se relacionam a velhos pecados de cunho administrativo público, outros decorrem da estonteante dinâmica do avanço do nosso conhecimento e do desenvolvimento tecnológico. Às vezes, as consequentes turbulências acabam por tirar particularidades menores do nosso foco cotidiano.

            Um caso emblemático para esse desvio de atenção chama-se livro digital como ferramenta de ensino. Não me refiro a ele como instrumento complementar de leitura, mas na função de livro escolar. E as vantagens são muitas.

            Para o aluno acaba a necessidade de carregar consigo tantos livros quantas matérias tem em cada dia. Em vez disso, ele carrega um único leitor digital que, além de pesar apenas cerca de 150 gr, acompanha-o durante anos e está muito mais afinado com sua mentalidade de pessoa digital nata do que qualquer livro físico, em princípio visto com antipatia.

            Para o ensino público, que costumeiramente custeia os livros escolares, o leitor digital significa uma aquisição única por aluno, por exemplo, para o período da 6ª até a 9ª série (preço no varejo a partir de R$ 200, possivelmente muito menor numa licitação para maiores quantidades), podendo ao longo do curso todos os livros escolares ser baixados para cada ano letivo. Além disso, o leitor permite acesso a diversas funções interativas e a conteúdos de multimídia. Com respeito ao custo, os livros digitais custam, em média, entre 20 e 25% do preço dos livros físicos. Por outro lado, para o autor/editor, a publicação de um livro digital é extremamente mais simples e barata quando comparada com a edição de um livro físico.

            A única coisa que falta é a respectiva secretaria de ensino, municipal ou estadual, sentar na mesa com os autores/editores para acertar os detalhes de um programa piloto, algo perfeitamente viável para um negócio em que todos lucram, inclusive a natureza.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Ser Refugiado


Ser Refugiado.

Klaus H. G. Rehfeldt

Recentemente, um membro do parlamento alemão, perguntado sobre sua opinião a respeito dos refugiados provenientes de áreas de conflito e em direção à Alemanha, respondeu de forma inusitada – na qualidade de refugiado na Segunda Guerra gostaria de abster-se de uma resposta com as palavras “uma vez refugiado, refugiado pelo resto da vida”.
            Inesperadamente, o Brasil está se tornando destino de refugiados da vizinha Venezuela onde as condições de vida tornam-se dia a dia mais precárias, onde pais não conseguem garantir o sustento de seus filhos, nem assegurar padrões mínimos de saúde, circunstâncias eventualmente agravadas por discordância política. Inesperadamente e de forma absolutamente despreparada sem a noção mínima do que significa ser refugiado.
A percepção e o entendimento de boa parte da população, mas também das autoridades, de que refugiado (não migrante econômico) é simplesmente alguém que optou por procurar melhores condições de vida, como se se tratasse de alguém que muda da cidade grande para o interior em busca de maior tranquilidade. Os recentes acontecimentos em Roraima espelham bem esta postura. Refugiar-se não é nada disso.
Na realidade envolve decisões dramáticas. No início está a protelação, a esperança que algo vai mudar na última hora – em geral uma ilusão. Em seguida: para onde ir? Com quantas dificuldades, quantos riscos? Qual rota a tomar, se é que há alternativas? Depois: o que levar? Isso significa decidir entre o racional e o emocional; as fotos da família ou um par de sapatos, um brinquedo para as crianças ou um casaco? O que posso abandonar ao longo do caminho quando as forças nos abandonam? O que posso ter esquecido? Tudo acompanhado de uma pergunta de fundo: um dia voltarei? Respostas difíceis.
Então, o momento inevitável. Você fecha as cortinas e a torneira do gás, desliga a luz, sai da porta, vira a chave que guarda no bolso – para nunca mais usar. Atrás fica o resultado de uma vida que se torna passado. À frente, o desconhecido; um futuro incerto, sem objetivos, sem perspectivas. Apenas esperanças, até aquela de um dia voltar...
Não é uma simples mudança. É o início de um novo status: o de refugiado, possivelmente para o resto da vida, cujas dimensões só compreende quem já viveu esta experiência dolorosa.



sábado, 6 de abril de 2019

Sinais Despercebidos



Sinais Despercebidos*)

Klaus H. G. Rehfeldt

Um crescimento populacional inicialmente lento, mas crescentemente vigoroso caracteriza a história demográfica do Brasil durante os últimos 5 séculos. O aumento demográfico vegetativo, foi potencializado pela sucessiva e contínua vinda de portugueses, escravos africanos e imigrantes europeus e asiáticos. Altíssimos índices de fertilidade, apesar de elevadas taxas de mortalidade infantil atuaram na mesma direção. 

A primeira mudança nessa dinâmica demográfica surgiu em meados do século 20 exatamente com relação a este último aspecto. Com o firme ingresso da mulher no mundo do trabalho e o paralelo aparecimento de anticonceptivos eficazes e baratos, entre outras razões de menor expressão, o índice de fecundidade caiu de 6,21 filhos por mulher em 1960 para atuais 1,7 filho, número insuficiente para garantir uma população estável. Os efeitos deste fenômeno passaram praticamente despercebidas devido a migrações internas de áreas econômica e estatisticamente desinteressantes em direções a regiões mais pujantes e no foco de contínua observação, preservando a imagem distorcida do habitual aumento populacional. Tais regiões situam-se principalmente no Sudeste e sul do país, incluindo o Vale do Itajaí.

            Como consequência direta registrou se no mesmo intervalo de tempo (1960 – 2017) uma constante queda no crescimento demográfico anual de 2,9% para 0,7%**), projetando uma estagnação para o início da década de 2030. Este decréscimo também foi praticamente ignorado pelas mesmas razões acima mostradas. Fator importante para tal dinâmica passar quase despercebida é a heterogeneidade com que essa involução demográfica ocorreu nas variais regiões do Brasil. Assim, na mente do brasileiro, seja ele indivíduo, empresa ou administrador pública, estava (e continua) enraizada a realidade do crescimento ininterrupto.

            Recentes dados publicados pelo IBGE revelam pela primeira vez fatos inusitados. Um deles, provando a mencionada diversidade demográfica, foi a constatação de crescimento populacional negativo em 25% dos municípios brasileiros.

             E Blumenau? Durante 16 décadas polo de absorção migratória internacional e doméstica, o município ainda não percebeu sua nova realidade demográfica. E basta observar um dado incontestável: as matrículas totais no ensino fundamental caíram continuamente desde 2007 até 2015 de 42.505 para 38.124 alunos, uma queda de 10%, que parece ainda não ter sido percebida pelos órgãos municipais de planejamento, que ainda operam com crescimento populacional de absolutamente irreais e injustificáveis 2% ao ano até 2035.

*) Publicado no Jornal de Santa Catarina, em 9/10.09.2017
**) 0,6% em 2018 

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Reforma da Previdência - Fatos, não Mitos



Reforma da Previdência – Fatos, não Mitos*

Klaus H. G. Rehfeldt

A aposentadoria constitui uma garantia financeira, por isso tem caráter de sustento de vida e envolve questões existenciais e, portanto, social e economicamente sensíveis. Porém, problemas econômico-financeiros são de ordem numérica e suas soluções situam-se no campo frio e objetivo das cifras, por mais que abram espaço para interpretações especulativas, emotivas e subjetivas.

            Fator central de todo sistema de aposentadoria é o conjunto de fatores econômicos e demográficos de uma sociedade que determinam suas caraterísticas e seus parâmetros. Partindo do fato de que exista uma base econômica sólida e de perspectivas futuras favoráveis, o foco da viabilidade desse sistema desloca-se para os aspectos demográficos. Como se trata de um âmbito em constante processo de mudanças, aspectos derivados de seus dados requerem permanente análise e adaptações.

No caso da aposentadoria, as mudanças no perfil demográfico de uma sociedade têm um papel central. O Brasil encontra-se inserido num número pequeno de países com expressivas mutações demográficas ao longo das últimas décadas. Um dos dados mais expressivos é a queda de taxa de fecundidade da mulher brasileira de 6,2 filhos na década de ’60 para o atual 1,7 filho. Daí resultou uma redução da taxa de crescimento anual da população de 2,89% para 0,38% no mesmo período.

Nesse aspecto, é importante observar que no mesmo espaço de tempo a expectativa de vida ao nascer cresceu de 56,3 (1964) para 76,0 anos, fato que atuou como atenuante sobre a queda do índice de crescimento demográfico. Por outro lado, a expectativa de vida para as pessoas com 60 anos de vida aumenta hoje para mais 20,9 anos, passando para 80,9 anos. Nesse aspecto é preciso apontar que o aumento de expectativa de vida não se limita à faixa da população idosa, mas que todas as faixas etárias gozaram de um prolongamento. – São ganhos enormes.

Estes dados em mutação provam claramente a necessidade de uma mudança radical na configuração dos parâmetros configuradores de um sistema de aposentadoria sadio e economicamente viável. Qualquer construção minimamente honesta de contestação ou de perspectivas negativas não poderá furtar-se da presença de tais realidades demográficas, impedindo assim a criação de mitos nem sempre imbuídos de índole nobre.

*Publicado no NSC Santa, de 03.04.2019

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Menos Alunos no Ensino Fundamental



Menos Alunos no Ensino Fundamental*

Klaus H. G. Rehfeldt

Com relação ao menor número de matrículas no ensino fundamental, o IBGE registra uma diminuição pelo menos desde 2005, representando uma média de cerca de 1% ao ano. Esta realidade está em perfeita consonância com outro dado: a taxa de fertilidade da mulher brasileira é atualmente de 1,7 filhos (devia ser de 2,1 filhos para manter a população estável). Recentemente, o IBGE corrigiu sua estimativa de aumento populacional em 2018 de 0,7% para 0,58%. Isto projeta para antes de 2030 a população máxima para o Brasil, que a partir de quando entrará num lento, mas constante declínio. Em distintos momentos do futuro, esta realidade impactará – positiva e negativamente – os segmentos econômicos específicos das respectivas faixas etárias até alcançar a conjuntura como um todo. Apenas parte dessa perda demográfica é e será compensada com o aumento da expectativa de vida nas segunda e terceira vidas. Sem dúvida, são novos focos nas projeções econômicas, sociais e políticas.

*Comentário publicado no Jornal de Santa Catarina (07.02.2019), relativo à constatações da queda de matrículas no ensino fundamental pela Secretaria de Educação de Blumenau, SC